Ai, ai, Karamba!

Karamba Diaby nasceu há 52 anos no Senegal e depois de viver 28 anos na Alemanha - primeiro em Leipzig e depois em Halle - o político social-democrata está prestes a escrever um novo e pequeno capítulo na agitada vida política da Alemanha. Diaby ocupa o terceiro lugar na lista de candidatos de seu partido ao Bundestag (a câmara baixa do parlamento alemão) e, segundo os prognósticos eleitorais, tem boas possibilidades de se converter no primeiro político negro a ocupar uma cadeira no Legislativo federal.

ENRIQUE MÜLLER, EL PAÍS, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h13

A façanha de Diaby não é gratuita e a possibilidade de que o candidato possa fazer história por si mesmo se deve a muitos fatores que conseguiram mudar um pouco a férrea e ingrata imagem que a Alemanha gozava de país que ignorava suas minorias. Mais importante ainda, a possibilidade de um político negro chegar ao Bundestag também pode mudar a imagem que ainda tem o leste alemão, que goza da incômoda fama de ser uma região onde proliferam os militantes da ultradireita e onde o racismo está na ordem do dia.

Halle é considerado um dos principais bastiões do radicalismo de ultradireita, razão porque não foi casual o NPD, o partido neonazista, ter obtido 10% dos votos nas últimas eleições regionais celebradas no Estado em 2011.

Embora o Parlamento federal alemão já esteja acostumado a contar em suas fileiras deputados de origem turca, croata, curda ou com raízes iranianas, e o governo federal se dê ao luxo de ostentar um ministro que nasceu no Vietnã (Phillip Rössler), a candidatura de Diaby e seu possível êxito nas urnas é um feito que não passou despercebido no país.

Não faz muito, a revista Der Spiegel qualificou a candidatura de Diaby como um "experimento", sobretudo por causa da cor de sua pele numa região onde a xenofobia está à espreita em cada esquina. Segundo o semanário, essa candidatura representava um risco, já que em Halle existem bairros onde ele arriscaria a vida se tentasse fazer campanha. Quando Diaby leu a reportagem da Spiegel, declarou-se "chocado" e "ofendido". Depois de viver mais da metade da vida em Halle, gozar de amplo respeito em sua cidade, ter ocupado cargos de responsabilidade pública e já ter recebido mais de uma ameaça de morte, ele se sente seguro e feliz na localidade.

"Um homem inteligente deveria saber que eu pertenci, como vereador, à câmara da cidade. Esse cargo não o obtive num sorteio, mas sendo eleito pela população de Halle", afirmou Diaby em entrevista a um periódico local. "Talvez seja um fato haver pessoas que têm problemas com a cor de minha pele, mas tenho esperança de que elas me aceitem porque me ocupo de muitos projetos."

Karamba Duaby tinha 24 anos quando aterrizou em Leipzig - na comunista República Democrática Alemã (RDA) - graças a uma bolsa de estudos, para aprender o idioma. Um ano depois, o jovem se mudou para Halle, onde terminou seus estudos universitários de química. Nessa época, ele se tornou dirigente estudantil. Em seguida, fez sua tese de doutorado, um trabalho que o manteve distante da xenofobia que envenenava a convivência na cidade.

Depois de obter seu doutorado, Diaby iniciou sua travessia pelo deserto do leste alemão, uma região que desmoronou economicamente após a reunificação do país. Mas o jovem teve sorte. Graças a seus conhecimentos de química, conseguiu impedir que um tubarão da especulação imobiliária acabasse com alguns terrenos diminutos administrados por gente pobre. Diaby demonstrou que jardins da área não estavam contaminados, como alegava o especulador, impedindo com isso seu desaparecimento. A população ainda se lembra de como o jovem químico do Senegal conseguiu proteger uma das poucas coisas que haviam sobrevivido ao violento período de transição que viveu a antiga RDA.

Após receber a nacionalidade alemã, em 2011, e se casar com uma cidadã alemã do leste, ele decidiu apostar na política. Agora, sob o lema "A diversidade cria valores", o químico senegalês-alemão sonha em chegar ao Bundestag para poder promover o princípio que defendeu quando era estudante em Dacar: "Quero fazer da justiça a batalha de minha vida". O político acrescenta: "Também quero ser julgado por minha competência e minha experiência e não pela cor de minha pele". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.