Aids tem preconceito? Ceifando por baixo

Ordem social homofóbica impede jovens gays de buscarem informações nas escolas, diz autora

DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS, GÊNERO , O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h06

DEBORA DINIZ

Os dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde mostram que, na última década, houve um crescimento da epidemia da aids entre a população de homens jovens que fazem sexo com homens. "Homens que fazem sexo com homens" foi uma categoria epidemiológica e biomédica criada nos anos 90 para tentar agrupar a imensa diversidade de práticas e performances sexuais dos homens. Não sabemos como esses homens se apresentam socialmente - se como gays, heterossexuais, bissexuais, travestis ou transexuais. O quesito recuperado pelos registros epidemiológicos é o de homens jovens que fazem sexo com outros homens em duas "categorias de exposição", homossexuais e bissexuais. Segundo o ministro da Saúde, uma das respostas a esse crescimento será a campanha nacional de prevenção no Dia Mundial de Combate à Aids: o sujeito da campanha será o homem gay jovem. O detalhe é que os dados epidemiológicos recuperam práticas sexuais; já as campanhas se voltam para identidades sexuais. Os dois conceitos não são iguais e apontam para linguagens, populações e vulnerabilidades diferentes.

Uma tese que tenta explicar o crescimento da aids entre homens gays de 15 a 24 anos é a da história da epidemia e suas metáforas. Diferente da geração dos anos 80, para quem a aids era uma sentença de morte, os jovens dos anos 90 conheceram a aids como uma doença grave, porém crônica. A aids passou da "peste gay" nos anos 80 para uma doença relacionada às práticas sexuais desprotegidas, em que as biografias das pessoas vivendo com aids estão entre nós. Teria havido uma certa universalização da exposição à aids com o deslocamento dos grupos de risco para as práticas sexuais: não seriam homens gays ou travestis os indivíduos mais vulneráveis à aids, mas todos aqueles com práticas sexuais desprotegidas. No conjunto das práticas sexuais de maior vulnerabilização à aids, os homens que fazem sexo com outros homens mereceriam maior atenção.

Mas quem é o homem que faz sexo com outros homens? Ele pode se apresentar socialmente como um homem gay ou se manter na proteção de um casamento heterossexual. Pode ser uma travesti ou uma transexual, a depender de como os indivíduos responderam ao quesito das práticas sexuais com outros homens. Pelos registros epidemiológicos conhecemos suas práticas, mas pouco sobre suas localizações no amplo leque de identidades ou performances sexuais. Não sabemos se eles são os gays do início dos anos 2000 que não se apresentavam como homossexuais para os sistemas de notificação, ou se de fato anunciam um novo regime masculino de vulnerabilização à aids. Uma travesti talvez seja um homem para os registros epidemiológicos, mas uma mulher nos jogos performáticos da sexualidade entre corpos masculinos e femininos. É na passagem das práticas dos registros epidemiológicos para as apresentações sociais sobre sexualidade que está o principal desafio das campanhas educativas. A quem dirigir a campanha para proteger os jovens homens de 15 a 24 anos que fazem sexo com outros homens?

A escolha do Ministério da Saúde foi de nominá-los como jovens gays. Não tenho dúvidas de que as jovens travestis são outro grupo igualmente importante. Mas quais seriam as vulnerabilidades de sujeitos tão diversos agrupados na categoria de homens que fazem sexo com outros homens? A principal delas é a homofobia. Os jovens gays corporificam a maior categoria dos fora da norma heterossexual, homens que não reproduzem a heteronormatividade em seus corpos e práticas sexuais. O slogan da campanha do Ministério da Saúde será "a aids não tem preconceito", um sinal de como as políticas de saúde do Estado brasileiro operam em um marco de direito humanos. Mas a verdade é que o crescimento da epidemia em um determinado grupo não é simplesmente resultado de práticas sexuais desprotegidas: é também resultado de uma ordem social homofóbica que impede os indivíduos de buscarem informação nas escolas, de acessarem os serviços de saúde ou de receberem o diagnóstico precoce da doença. O jovem gay da campanha é um personagem que ganhará corpo e voz pelo anúncio do crescimento de sua vulnerabilidade à aids, mas outros regimes de opressão acompanham sua existência vulnerável.

O crescimento da epidemia entre uma população tão jovem pode ser explicado pela hipótese histórica de mudança de compreensão da doença entre os homens que se iniciam na vida sexual, mas também pela hipótese sociológica da homofobia, que impõe vulnerabilidades aos fora da norma heterossexual. O jovem gay representa o inominável para os livros didáticos do Ministério da Educação, que insistem em reduzir a sexualidade à reprodução biológica. O jovem gay representará essa imensa população de homens que fazem sexo com homens recuperados pelo boletim epidemiológico, um grupo tão diverso que desafia a campanha do Ministério da Saúde sobre como nominá-lo. O revigoramento da epidemia entre a mesma população que anunciou seu início nos anos 80 não deve reacender nossos temores sobre novas formas de estigmatização e preconceito a esses grupos. Ao contrário, deve nos envergonhar que, mesmo 20 anos depois de campanhas sistemáticas, ainda não fomos capazes de romper o cerco homofóbico que impede que os principais equipamentos do Estado protejam os fora da norma heterossexual dos riscos da aids.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.