Ainda bate o coração do Velho Dixie

Para redutos republicanos dos EUA, o mundo continua sob o risco de pervertidos, como os hippies dos anos 60

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2009 | 13h39

Fim de década é fogo, quase sempre ano de cachorro doido. Nem precisamos voltar muito atrás no passado; meio século basta. "Tudo mudou em 1959", provou recentemente Fred Kaplan num precioso livro sobre o ano que começou com a Revolução Cubana e terminou com John Kennedy dando seu primeiro passo rumo à Casa Branca e a Guerra Fria estendida ao espaço sideral, em meio a uma fartura impressionante de novidades culturais e inovações tecnológicas.

 

O TEMPO PASSA - Manson, preso em 1969, e hoje, na penitenciária da Califórnia: ele matou com sadismo

 

O final da década seguinte não foi uma exceção. A despeito do prestígio de 1968 como o ano mais marcante da década, 1969 não merece ficar à sua sombra. Algumas das batalhas cruciais do que mais tarde chamariam de "guerras culturais" foram travadas durante o verão daquele ano, quando, no espaço de quatro semanas, entre julho e agosto, o "agit prop hippie" Easy Rider (aqui Sem Destino) chegou aos cinemas, um orgiástico festival de música pop agitou a costa oeste e uma chacina mergulhou Hollywood na mais profunda e paranoica depressão de sua história.

 

Faz hoje 40 anos que a Família Manson invadiu a casa do cineasta Roman Polanski, em Bel Air (Los Angeles), e matou, com requintes de sadismo, a atriz Sharon Tate, mulher de Polanski, grávida de oito meses, mais três amigos do casal. No dia seguinte, duas outras vítimas ampliariam o prontuário do psicopata hippie Charles Manson e seus fanáticos seguidores. Uma semana depois haveria o Festival de Woodstock, cimeira tribal dos evangelistas do Paz & Amor, das "boas vibrações" do rock e do "maior barato". Nem o sucesso de Woodstock nem a repercussão de Easy Rider foram suficientes para minorar os estragos que as matanças da Família Manson infligiram à reputação da contracultura e sua utopia falansteriana – e a quem mais a desonestidade intelectual de uma certa direita conseguiu enfiar no mesmo saco.

 

Muitos, ainda hoje, confundem o hippismo com as ações criminais de Manson, mero proxeneta do movimento, numa tentativa de desqualificar toda e qualquer forma de anticonformismo. Volta e meia um ideólogo arquiconservador repete a cantilena, valendo-se da crença de que a mentira mil vezes repetida vira verdade. "Nossa guerra contra os inimigos dos valores tradicionais da América festejou sua primeira grande vitória quando Charles Manson mostrou a verdadeira face dos hippies", bradou, faz pouco tempo, um órfão da era Nixon, daqueles contra o aborto, mas favoráveis ao bombardeio de estrangeiros inocentes. Republicano, claro.

 

Os republicanos perderam as duas últimas grandes batalhas (a maioria no Congresso para os democratas e a eleição de Obama), mas não a arrogância e, muito menos, o cinismo. Notadamente no Senado, onde vêm atuando com a mesma lisura e finura dos jagunços da tropa de choque do Sarney. O que, nos últimos meses, aprontaram com o governo Obama, como diria o chanceler do B, Marco Aurélio Garcia, "não está no gibi". Se no Senado daqui a oposição é uma minoria banana; no de lá, é uma falange ativíssima, com uma falta de pudor comparável à da base de apoio do governo Lula.

 

As baixarias da campanha presidencial de 2008 recrudesceram a partir de abril. O fogo cerrado que os republicanos, sobretudo os sulistas, armaram contra a indicação de Sonia Sotomayor para a Corte Suprema, o novo plano de seguro-saúde proposto pela Casa Branca e a legitimidade da eleição de Obama transgrediu todas as regras da decência e da convivência democrática. Invocaram razões deslavadamente racistas para evitar a confirmação de Sotomayor, tentaram demonizar o projeto de Obama para a saúde como um "golpe comunista" para matar velhinhos aposentados, e até uma falsa certidão de nascimento, "provando" que Obama nasceu no Quênia", razão suficiente para impugnar sua eleição, circulou pelos corredores políticos de Washington, com a conivência e, não raro, com a solidariedade de jornalistas amestrados, alguns dos quais também a serviço do intenso lobby das empresas de seguro-saúde.

 

Vários parlamentares republicanos já manifestaram seu incômodo pela hegemonia, no partido, da "retórica insana e irresponsável" de seus colegas do sul, porta-vozes dos grotões mais atrasados e retrógrados do país. "Eles estão arruinando o partido", protestou o senador George Voinovich (R-Ohio), citando nominalmente os representantes da Carolina do Sul e Oklahoma. Quase todos os eleitos abaixo da linha Mason & Dixon poderiam engrossar esse elenco, com destaque para os assombros que o Tennessee, Alabama e Louisiana costumam enviar para o Congresso. A guerra civil ideológica nunca chegou ao fim na América. Em que lugar da América a dupla hippie de Easy Rider é assassinada, com dois tiros de carabina disparados por um redneck? Em Morganza, grotão da Louisiana.

Por uma pesquisa do Wall Street Journal/NBC, divulgada na semana passada, os democratas desfrutam de um índice de aprovação de 42% do eleitorado, um ponto a mais que o índice de rejeição aos republicanos. É uma repulsa expressiva, com tendência de alta. Para que os republicanos voltem a ser uma alternativa confiável, é preciso "enfiar uma estaca no coração do Velho Dixie", recomendou a comentarista política Kathleen Parker, em sua coluna de quarta-feira no Washington Post.

 

O Velho Dixie, o sul dos Estados Unidos, quem diria, virou um vampiro. Como o PMDB, que, há tempos dominado por nordestinos da pior cepa, talvez desperte em muitos brasileiros o desejo de enfiar uma estaca no coração do Velho Chico.

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