Ainda donos da bola?

Para embaixador, EUA dividirão a quadra da diplomacia com muitos países. Inclusive o Brasil

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 21h47

Meu muro caiu. No caso, a Wall Street de Alan Greenspan e George W. Bush. E, aparentemente, nada será como antes para os Estados Unidos, considerado o principal pólo de poder no mundo desde o fim da Guerra Fria. A comunidade internacional teve que dar as mãos e os anéis para impedir uma catástrofe financeira iniciada bem ali, no quintal do Império. A ponto de, esta semana, o diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Kemal Dervis, dizer que clubes exclusivos de países ricos, como o G-8, "não fazem mais sentido". Ou entram países em desenvolvimento na dança ou festa acabada, músicos a pé. Para Gelson Fonseca Jr., ex-representante do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) e ex-embaixador no Chile, os EUA continuarão importantes no jogo político internacional, assim como Europa, Rússia, Japão e China - mas terão que dividir a quadra com Brasil, Índia e África do Sul. Considerado pelo ex-chanceler Celso Lafer "o mais instigante e engenhoso estudioso brasileiro das relações internacionais", Fonseca Jr. teve grande influência na política externa brasileira durante o governo tucano, a ponto de línguas afiadas no Itamaraty referirem-se a ele hoje como "o Marco Aurélio Garcia de FHC". Atualmente exercendo a função de cônsul geral em Madri, acaba de lançar O Interesse e a Regra - Ensaios sobre o Multilateralismo, em que discute o novo papel da ONU, definida por ele como "parlamento imperfeito", porém cada vez mais forte como "geradora de padrões de legitimidade". Na entrevista a seguir, o diplomata afirma que a crise financeira e a necessidade de uma nova inserção norte-americana no mundo abrem espaço para o Brasil e para uma sinfonia multilateral mais harmônica. Em um artigo publicado na revista "Política Externa" em 1999, o senhor diz que vivíamos em um mundo ao mesmo tempo unipolar e multipolar, com os EUA como o pólo de poder que rege o concerto dos demais. Isso mudou?Mudou. No livro que acabo de lançar existe outro artigo em que discuto de uma perspectiva diferente a organização dos pólos de poder hoje. Uma das coisas interessantes em relações internacionais nesses últimos anos é a rapidez com que se deram transformações. Para usar a sua terminologia, a mudança foi de um "concerto pobre", com grande predominância do pólo americano, para um "concerto rico", ainda regido pelos americanos, mas com maior participação internacional? Ou os EUA estão perdendo a posição de maestros?Ainda é difícil fazer previsões, salvo o fato de que teremos um mundo mais complexo que o da Guerra Fria, em que você tinha dois pólos, ou mesmo que o dos anos 90, quando se imaginou um cenário unipolar ditado pelos EUA. O que é mais provável - e todos os analistas coincidem mesmo antes dessa crise financeira - é que teremos mais atores na quadra do jogo internacional. Os EUA continuarão importantes como a Inglaterra continua. Rússia, China e Japão, também. E certamente Brasil, Índia, África do Sul entrarão no jogo. Estamos vivendo essa transição. O prefácio de seu livro diz que ele foi escrito em um contexto de "crise do multilateralismo, em grande parte por obra e graça das ações unilaterais do governo Bush". O jogo mudou? Uma das coisas que se pode extrair do episódio no Iraque é que, apesar de a ONU não intervir no processo, o padrão de legitimidade quem deu foi ela. Se os EUA invadiram o país de maneira unilateral, e isso foi criticado, levando a um desprestígio dos norte-americanos, foi porque você tinha uma alternativa de comportamento desenhada pela ONU e essa alternativa não foi seguida. A ONU tem muita força como geradora de padrões de legitimidade - e esse é um dos temas principais do meu livro. Tanto que a primeira medida dos EUA após a intervenção foi buscar auxílio da ONU para organizar o Iraque pós-invasão. Nas últimas semanas, falou-se muito em crise de liderança. Bush pareceu perdido em comparação ao primeiro-ministro britânico Gordon Brown, por exemplo. Da crise pode sair uma Europa renascida, com mais influência nas decisões globais?A liderança tem que aparecer no momento em que se tem desafios. Agora há um grande desafio e a qualidade do argumento do líder é essencial: entender a situação e elaborar um plano que seja convincente, porque sobretudo em uma situação como essa qualquer movimento tem que ter legitimidade. E legitimidade significa o quê? Respaldo, apoio, aceitação. Há líderes que nascem de uma visão, de uma vontade de mudar o mundo, como o Dag Hammarskjöld (diplomata sueco que foi secretário-geral de 1953 a 1961), no caso da ONU, ou do (general Charles) De Gaulle, na França. No momento não é disso que se trata: precisamos de líderes que saibam reagir especificamente a esse tipo crise. O enfraquecimento dos EUA fortalece a visão multilateralista?Qualquer pessoa que anos atrás fizesse previsões sobre como se desenvolveria o sistema internacional iria apontar para isso: certamente o unipolarismo americano não iria persistir, se é que existiu algum dia. As tentativas que os americanos fizeram de impor seu poder não foram propriamente bem-sucedidas. Pelo contrário, deram a idéia de que aquele poder tinha limites. Então os EUA terão que cooperar, seja na área de segurança, de meio ambiente ou dos direitos humanos. O Brasil deve continuar apostando na aproximação com outros países emergentes neste momento em que a economia global parece tão dependente deles?Acho que sim. O G-20, que é uma criação brasileira, foi muito importante em Doha, deu outro sentido à negociação. O Brasil está tentando também, e acho que pode ser muito positivo, uma aproximação India-Brasil-África do Sul (Ibas). Temos participado de forma mais ativa do G-8. E o Mercosul e a Unasul podem ter papel relevante. Frentes para a nossa diplomacia não faltam. A crise é uma janela aberta então?O que aconteceu vai forçar as pessoas a olhar para os fundamentos, para a própria maneira de se ver as finanças internacionais. Isso tem peso. Eis a lição que se pode extrair desses últimos anos: é importante cooperar e buscar regras. Os Estados têm interesses, alguns muito próprios e conflitantes. Mas você pode se fechar neles ou tentar encontrar um ponto em que os interesses sejam "multilateralizados".O Brasil tem feito a sua lição de casa na ONU?Desde que a ONU foi criada sempre tivemos uma postura muito ativa. O que significa isso? A primeira coisa é destacar parte do seu capital diplomático para acompanhar esses assuntos nas missões em Nova York, Genebra, Nairóbi. A segunda é usar tais organismos para propor idéias e levá-las adiante. Isso sempre aconteceu com o Brasil na ONU. Agora mesmo o presidente Lula lançou uma iniciativa de combate à fome e à pobreza. Há um terceiro elemento, que é nossa fidelidade aos princípios da casa. Não adianta ser ativo e ter propostas se quando elas o incomodam você as esquece. E nós temos um histórico impecável de fidelidade aos preceitos da ONU. Haverá reforma do Conselho de Segurança da ONU? É legítimo o pleito do Brasil de participar dele?A idéia de reforma é universal e tem clara legitimidade. É muito difícil que um Conselho de Segurança nascido no fim da 2ª Guerra Mundial, em 1946, 1947, possa ser representativo em um mundo que não tem mais nada a ver com aquele. E, pelas dimensões do Brasil, pela nossa fidelidade e tradição multilateral, somos um candidato mais do que natural à condição de membro permanente. A atuação brasileira no Haiti legitima o País ou veio atender os interesses norte-americanos, como dizem alguns?Todas essas missões da ONU, e o Brasil participou de muitas, são uma contribuição ao processo de paz. Você se lembra de como era o Haiti antes da missão brasileira chegar? Havia uma guerra civil permanente. Do ponto de vista do povo haitiano, melhorou, houve eleições, a missão brasileira cumpriu seus objetivos. Se isso foi uma homenagem generosa aos direitos civis ou um serviço aos americanos, pode ser relevante para quem quer interpretar - não do ponto de vista da população. O esforço de construção do Mercosul e o discurso da integração Sul-Sul é boa política?Acho que é importante e já demonstrou isso. O Mercosul, historicamente, serviu a muitos objetivos. Desde os mais imediatos, de aumentar nosso comércio com os vizinhos, até a distensão que promoveu no Cone Sul e em toda a América Latina. Sou do tempo em que havia muita rivalidade entre Brasil e Argentina. Não tínhamos mecanismos permanentes e consistentes de diálogo. As primeiras reuniões de que participei nos anos 70 eram complicadíssimas. Não havia nenhuma intimidade burocrática com os argentinos, como hoje existe. E isso é um grande feito.E os conflitos que tivemos com a Bolívia, por causa do gás, e com o Equador, que expulsou a Odebrecht e ameaça não pagar financiamentos do BNDES? Põem o bloco em xeque?Quando você lida com relações internacionais, divergências de opinião fazem parte do cotidiano. Qual é o ganho que instituições como o Mercosul e a ONU trazem? Elas criam mecanismos para que esses conflitos sejam conduzidos e resolvidos de forma institucional. É a questão da própria democracia: você não tem como evitar o conflito, mas pode prever a forma de solução. Isso dá estabilidade ao processo político.Falando em democracia, estamos às portas das eleições presidenciais nos EUA. Entre Obama e McCain, há quem diga que os democratas são mais protecionistas que os republicanos - o que seria desvantajoso para o Brasil. O senhor concorda?O Brasil tem uma relação muito forte, complexa e diversificada com os EUA. E a verdade é que nunca li um estudo acadêmico que demonstre essa relação entre protecionismo e democratas e não-protecionismo e republicanos. Veja que o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), que muita gente vê como uma iniciativa de abertura, começou com Bush-pai e Clinton completou. Quais são as oportunidades e os riscos para o Brasil no mundo de instituições multilaterais reforçadas que vem por aí? Em primeiro lugar, o País tem que manter participação ampla em todos os processos multilaterais. Tantos temas estão em aberto que vamos precisar de grande esforço diplomático para fechá-los. Isso vale para as mudanças climáticas, para as questões de direitos humanos, para a reforma do Conselho de Segurança. Teremos uma agenda multilateral mais dinâmica e aberta após a eleição americana, seja qual for seu resultado. Um dos grandes problemas dos EUA hoje, tratado inclusive na campanha, é sua reinserção no mundo e uma nova maneira de encarar as instituições multilaterais. Como o discurso político vai se converter em negociação com essas instituições, não se sabe. É preciso esperar.  

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