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Ainda é pouco, diria Henfil. Que venha a CPI do Brasil

Não é só uma rima, mas uma solução para comissões que levam a nada

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2007 | 01h37

Na terça-feira, o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo, aquele mesmo que, sem alterar sua catadura de papa-defunto, atacara "a índole cínica e perversa da burguesia brasileira" em maio do ano passado, surpreendeu-nos outra vez. Em artigo para a revista eletrônica Terra Magazine, incitou-nos a sair da pasmaceira e ir à luta. "Greve geral, já!", proclamava o título do artigo, referindo-se às paralisações operárias ocorridas em São Paulo há 80 anos, mas com o olhar e o espírito voltados para o presente. "O brasileiro cai e aceita, sofre e esquece", lamentou Lembo, saudoso das utopias de antanho e da disposição de lutar-se por elas até a morte. O ex-governador não está sozinho em sua cruzada, se a tanto podemos promover seu desabafo. Nas seções de cartas dos jornais, nas conversas de rua e botequim, nas festas de ricos e remediados, por todo canto, enfim, a indignação com a corrupção, o cinismo, a incompetência e outras mazelas nacionais parece ter atingido ou estar prestes a atingir seu ponto de ebulição. "Precisamos fazer alguma coisa" só não virou um mantra entre aqueles que, cínica e perversamente, desqualificam qualquer reparo ao governo Lula como "manobra tucana", "moralismo udenista" (até em "neolacerdismo" já ouvi falar) e "pressão desestabilizadora". A quem interessa desestabilizar o governo Lula? A "elite financeira" está no sétimo céu; e se alguma dúvida a esse respeito ainda havia, o conservador Le Figaro de terça-feira passada sepultou-a com esta manchete: "Brasil, paraíso dos ricos".Mais do que uma greve, necessitamos de uma passeata. Ou de uma marcha, sem terço, agnóstica. Até hoje não entendi por que não se fez uma marcha sobre Brasília quando Collor & Zélia nos impingiram aquele criminoso confisco. Caímos e o aceitamos, que vergonha. Até quando iremos tolerar o confisco da nossa dignidade? Sim, é a nossa dignidade que agora está em jogo. Marchar é preciso.Vaia é paliativo, mas com inegáveis virtudes catárticas. Até isso, porém, já reprovaram. Por que execrar a mais ruidosa e coletiva manifestação de desagrado inventada pelo homem num país tão necessitado de apupos como o nosso? Vaiar não é faltar com a educação, é faltar com a violência, é sublimar ânimos incontroláveis. Vaia é alarme civilizado, um alerta amarelo. Tudo bem que a condenem ou mesmo a proíbam em competições esportivas individuais, que exigem dos atletas concentração absoluta, mas criticá-la ou vetá-la em outras circunstâncias é dar corda ao conformismo, à intransigência, ao autoritarismo. Vaiaram o presidente Lula. E também alguns atletas do Pan, que hoje só termina sem vaias ao presidente porque ele não é bobo de fechar o que não abriu. Qual o próximo da lista? Waldir Pires? Agora é tarde. Guardemos nosso fôlego e nossa cólera para as demais autoridades que, em meio ao recrudescimento da crise aérea na semana passada, apareceram nas primeiras páginas dos jornais rindo não se soube direito de quê ou quem: um show de escárnio à altura da condecoração dos diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), presidida por Milton Zuanazzi, e do anunciado aumento no preço das passagens aéreas para cobrir despesas não assumidas pelo atual governo e os que o antecederam.Também merecem vaias aqueles dois deputados (Efraim Filho, DEM-PB, e Marco Maia, PT-RS) que, às nossas custas, viajaram inutilmente até Washington, como chaperones das caixas-pretas do Airbus A-320 da TAM. Idem o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, pelo patrioteiro protesto contra a intervenção da Federação Internacional dos Controladores Aéreos (Ifcta) na insegurança e ineficiência de nosso transporte aéreo. (Há uma auditoria da Ifcta prevista para daqui a três anos. Que tal antecipá-la?)Não adianta o coronel Eduardo Antonio Carcavalo se esconder ou sair de fininho, pois, desde que atribuiu à Lei de Murphy a pane do último fim de semana, no Cindacta-4 da Região Amazônica, candidatou-se, com méritos, com o sargento responsável pela pane, a uma sonoríssima e ensurdecedora vaia. Descobri, ao longo da semana, que os funcionários da Anac não pagam passagem de avião. Se isso não configura uma dependência nada recomendável em relação às empresas aéreas, minha avó é bicicleta; ou melhor, um Cessna. A direção da Anac considera a regalia "um passe livre funcional". Com base nessa mordomia, eu poderia iniciar uma campanha para que ao menos os jornalistas ligados à área cultural passassem a entrar de graça em todas as casas de espetáculo e, também munidos de um "passe livre funcional", ficassem isentos de pagar contas em livrarias, lojas de discos, antiquários, galerias de arte, restaurantes, adegas e lojas de roupas, mas o decoro me impele a propor outra coisa: uma CPI do Cinismo. Com passe livre para o xadrez.Como o Henfil gostava de dizer, "ainda é pouco". Na verdade, estamos precisando é de uma CPI totalizadora, esperta, implacável e conseqüente, de uma CPI-para-acabar-com-todas-as-CPIs. Precisamos de uma CPI que investigue a fundo todos os nossos podres: uma CPI do Brasil. Mas como implementá-la se o P de sua sigla não merece confiança?

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