Ainda em foco, as embrionárias

Falta muita pesquisa até se decidir se células como as da pele, modificadas, substituirão as CTEs

Mayana Zatz*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 21h02

Foi capa de todos os jornais da semana: "Pesquisadores conseguem transformar células da pele em células-tronco embrionárias"; "Isso resolve os dilemas éticos e religiosos"; "As pesquisas com células-tronco embrionárias não são mais necessárias". Só para citar algumas manchetes.Vamos com calma. Isso não é verdade. Nos artigos originais assinados pelos dois grupos de pesquisadores - um de Shinya Yamanaka, o outro de James Thomson -, em que descrevem a reprogramação de células da pele (fibroblastos) em células-tronco embrionárias (CTEs), os dois afirmam categoricamente que ainda serão necessárias muitas pesquisas para decidir se essas novas células poderão substituir as células-tronco embrionárias. Além disso, o grupo japonês, liderado por Yamanaka, que foi mais longe nas pesquisas, já concluiu que essas células reprogramadas não são idênticas às células-tronco embrionárias. Mais ainda, eles não têm nem certeza se foram os fibroblastos que conseguiram voltar ao estágio embrionário, ou outras células-tronco mais indiferenciadas que estariam junto com elas. Se esses achados não substituem as pesquisas com células-tronco embrionárias (CTEs) qual é então a grande novidade?Para entender precisamos recordar o que é uma CTE. Todos nós começamos a partir de uma primeira célula, resultante da fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Ela logo começa a se dividir: em duas; essas duas em quatro; em oito e assim por diante. Pelo menos até a fase de oito células, cada uma delas é capaz de se desenvolver em um ser humano completo. São chamadas, por isso, de totipotentes. Passadas 72 horas desde a fecundação, temos o chamado blastocisto - agora já com cerca de cem células. Nessa fase, as células se diferenciam em dois grupos: um grupo de células externas, que originam as estruturas extraembrionárias associadas à implantação do embrião e à formação da placenta, e uma massa de células interna, que vai formar o embrião propriamente dito. É nessa fase que ocorre a implantação na cavidade uterina. As células internas do blastocisto vão originar as centenas de tecidos diferentes que compõem o corpo humano. São chamadas de células-tronco embrionárias pluripotentes. A partir de um determinado momento, essas células, que ainda são todas iguais, começam a se diferenciar nos vários tecidos: sangue, fígado, músculos, cérebro, ossos, pele, etc. Os genes que controlam esta diferenciação e o processo pelo qual isso ocorre são um mistério. O que sabemos é que, uma vez diferenciadas, as células perdem a capacidade de originar qualquer tecido. As células descendentes de uma célula diferenciada vão manter as mesmas características daquela que as originou, isto é, células de fígado vão originar células de fígado, células musculares vão originar células musculares, células de pele vão originar pele. Apesar de o DNA ser igual em todas as células do nosso corpo, os genes expressam-se de maneiras diferentes, a depender do tecido ao qual a célula pertence. Isto é: o DNA e os genes são idênticos, mas a expressão gênica é específica para cada tecido. Com exceção dos genes responsáveis pela manutenção do metabolismo celular (housekeeping genes), que se mantêm ativos em todas as células do organismo, só funcionam nas células de cada tecido ou órgão aqueles genes importantes para a manutenção daquele tecido ou do órgão. Os outros ficam "silenciados" ou inativos.O que os pesquisadores americanos e japoneses descobriram é que se eles ativarem quatro genes específicos, que estão silenciados em células adultas, elas voltam a se comportar como se fossem CTEs.É importante lembrar que a descoberta desses quatro genes, fundamentais para o trabalho dessas duas equipes, só foi possível graças às pesquisas com células embrionárias. Quais são as vantagens dessa descoberta?As vantagens para nós, geneticistas, são enormes. Ela abre novas perspectivas para pesquisar genes que causam doenças. Por exemplo, podemos, a partir de células adultas (fibroblastos ou outro tipo de célula) de pacientes, reprogramá-las de modo que originem vários tecidos, todas com a mutação responsável por aquela patologia. Isso permitirá que estudemos como os genes que causam essas doenças se comportam nesses diferentes tecidos, por que alguns são atingidos e outros não, e que pesquisemos novas estratégias para tentar corrigir o gene defeituoso. Além disso, será possível testar o efeito de drogas distintas nesses diferentes tecidos. Ou seja, para quem está interessado em estudar genes, essa descoberta abre novos caminhos muito promissores para pesquisas. Não me surpreendeu, portanto, que Ian Wilmut - o famoso "pai de Dolly" - declarasse que vai usar essa técnica em lugar da clonagem terapêutica. Como ele está interessado em derivar tecidos de pacientes com doenças neuromusculares, especificamente a esclerose lateral amiotrófica (ELA), essa técnica vem a calhar. Ela vai possibilitar, a partir de células adultas de pacientes afetados, originar linhagens de células nervosas e avançar na compreensão dos mecanismos que causam a ELA, além de pesquisar novas abordagens terapêuticas. E os riscos? Por que as células reprogramadas não podem substituir as embrionárias? O primeiro deles é que esses mesmos genes, que quando ativados fazem a célula comportar-se como embrionária, estão associados a riscos de originar tumores. A capacidade de dividir-se muito rapidamente é muito importante nas CTEs. Afinal, elas têm como missão originar um indivíduo adulto. Entretanto, dividir-se muito pode ser muito perigoso em uma célula adulta, pois essa é uma das características de uma célula cancerosa. O outro risco é que esses genes foram introduzidos nas células da pele através de um vírus. Como esse vírus vai se comportar dentro do organismo humano é uma grande incógnita. Dependendo de onde ele se inserir - o que pode ser totalmente aleatório -, pode ativar ou silenciar outros genes, com conseqüências imprevisíveis. Já tivemos exemplos trágicos, como do paciente americano Jesse Gelsinger, que faleceu após uma tentativa de terapia gênica. Não podemos correr esse risco.Em resumo, o que podemos afirmar é que temos mais uma ferramenta para estudar genes e para entender os mecanismos que originam os diferentes tecidos. Mas repito: ainda não podemos descartar as pesquisas com CTEs. Elas continuam sendo fundamentais. Ainda temos muito que aprender com elas. Essa não é só minha opinião pessoal. É a posição da Academia Brasileira de Ciências e das nossas sociedades científicas. *Mayana Zatz é professora- titular de Genética, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo e membro titular da Academia Brasileira de Ciências

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