Al Gore é um alívio para a deprê nossa de cada dia

O Nobel dado ao americano obcecado pela atmosfera e outras notícias recentes despertam em nós um adormecido Pangloss

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2007 | 21h48

Há dias em que a gente tem ganas de cortar os pulsos depois de ler a primeira página dos jornais. Nesses dias, baixa em muitos de nós aquela terrível desconfiança que Aldoux Huxley levou para o túmulo: e se a Terra for o inferno de outro planeta? Flamejante e medonho, caso o aquecimento global chegue às suas últimas conseqüências. Bem, aí a luta de Al Gore terá sido em vão. E não sobreviverá vivalma para lembrar de seu Nobel da Paz.Taí uma notícia - o Nobel do Gore - que logrou amainar a deprê nossa de todos os dias. E outras foram chegando, como se um complô estivesse em marcha para fazer de cada um de nós um avatar do dr. Pangloss.O aperto de mão das duas Coréias. As restrições à propaganda e venda de bebidas alcoólicas. O resultado do leilão das concessões de sete estradas brasileiras a grupos privados. A decisão do Supremo Tribunal Federal de que o mandato dos políticos pertence aos partidos. A prisão dos 40 ladrões da Cisco Systems do Brasil. Os dois projetos, em debate no Senado, para limitar a atuação das empresas de telemarketing. As surpreendentes promessas do novo presidente da China, Hu Jintao, no 17º Congresso do PC chinês. Até o presidente Bush, quem diria, contribuiu para aliviar nosso desânimo cotidiano, ao mandar Condoleezza Rice dar uma força ao estabelecimento de um Estado palestino, ao receber em casa o dalai-lama e ao reconhecer, oficialmente, o massacre dos armênios pelos turcos, em 1915, o primeiro holocausto do século 20. Claro que fez lá suas asneiras (o veto, por "razões de segurança nacional", à medida que protegeria o sigilo das fontes jornalísticas, por exemplo), do contrário não seria o Bush que todos conhecemos. Quanto à volta da Guerra Fria, prenunciada por seu último arrufo com Vladimir Putin, é ver para crer: os dois, em fim de mandato, não parecem ter condições de ressuscitá-la.A despeito das inevitáveis e onipresentes más notícias - a epidemia de dengue, pessimamente monitorada pelo Ministério da Saúde; a descabida exaltação do presidente Lula a falsas democracias africanas; a vitória do tráfico de drogas na escolha do samba-enredo da Mangueira (com a festiva presença da senadora Ideli Salvatti, toda, toda, num vestidinho encarnado sem alça, esbaldando-se na quadra da escola) - o saldo, que ninguém nos ouça, foi positivo. E com direito a reviravoltas alentadoras: na quarta-feira, o governo recuou da ameaça de esvaziar o programa de combate à violência para forçar a votação da CPMF. Como nem tudo que reluz é ouro, e nem tudo que balança cai, há que se avaliar algumas dessas notícias, sobretudo as boas, com um grão de sal. Não faço reparos à prensa na Cisco Systems do Brasil e na impertinente turma do telemarketing; estou torcendo para que Hu Jintao cumpra toda sua agenda política, e satisfeito fiquei por ter o grupo espanhol OHL arrematado cinco rodovias brasileiras e exposto a extorsão praticada nos pedágios nacionais, quase dez vezes mais caros que o programado pela OHL para a Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte). Já não digo o mesmo sobre as restrições a anúncios e venda de bebidas alcoólicas e a decisão do STF, que ao brecar o troca-troca fisiológico entre os partidos pode tornar compulsório o voto por lista, nada recomendável com as frágeis e fisiológicas agremiações políticas que temos. Proibir a comercialização de birita nas rodovias e dar um chega-pra-lá naqueles comerciais idiotas, que associam cerveja e outros drinques a praias, bundas e marombeiros, é, sem dúvida, um bom começo. Mas o problema é mais complexo. E quem beber além dos 50 metros da rodovia ou em casa, antes de pôr o pé na estrada? E por que não investir contra os comerciais de automóveis? Afinal de contas, eles só se preocupam com promover a potência dos motores, incentivando os machões do volante, que não são apenas aqueles que entornam antes de dirigir, mas também os abstêmios que cantam pneu no asfalto, ultrapassam sinais, participam de pegas e serpenteiam em alta velocidade por ruas e estradas, como se estivessem numa pista de Fórmula 1. Nos últimos dez anos, 327.469 pessoas morreram em acidentes de trânsito no Brasil. A média anual é de 35 mil mortos. São números de guerra, incrementados por motoristas alcoolizados (que, se for promotor, como Wagner Juarez Grossi, que no dia 7 matou um casal e uma criança, em Araçatuba, não vai preso), irresponsáveis com as costas largas (como o professor de educação física Paulo César Timponi, que apesar de envolvido na morte de três mulheres, num acidente em Brasília, beneficiou-se, na segunda-feira, de um habeas-corpus concedido pela desembargadora Sandra de Santis), e pela incúria dos órgãos públicos. Ainda que a maioria dos acidentes, no feriadão, tenha ocorrido em estradas já recuperadas, duplicadas e com boas condições de tráfego, conforme salientou a Polícia Rodoviária Federal, não há como eximir da carnificina o governo e os mais de 1.300 órgãos responsáveis pelo trânsito nas estradas. Elas continuam infestadas de motoristas alcoolizados, carretas sem freios, ônibus com pneus carecas e fiscais displicentes e corruptos. Inclua-se nesse prontuário o habeas-corpus concedido pela desembargadora Sandra de Santis. Que aprendeu tudo em casa: ela é casada com o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, famoso por soltar réus presos, entre os quais Salvatore Cacciola, em 2000. Há dias em que a gente também tem ganas de cortar os pulsos depois de ler os editoriais de certos jornais. Quando Al Gore ganhou o Nobel da Paz, o Wall Street Journal limitou-se a listar aqueles que, na opinião do jornal, mereciam ter levado o prêmio. Vai ser difícil me convencer de que a omissão do nome do vencedor não teve o dedo do atual proprietário do jornal, Rupert Murdoch. Se foi um boicote espontâneo da chefia da redação, pior ainda. Paul Krugman escreveu um vigoroso artigo, no New York Times do dia 15, chamando atenção para a picuinha do WSJ e puxando as orelhas dos comentaristas neoconservadores que, insistindo na mesma atoarda, questionaram a entrega do Nobel da Paz a um defensor do meio ambiente - como se lutar pela preservação do planeta não fosse sinônimo de lutar pela redução de conflitos internacionais provocados por flagelos como a fome e a falta d?água. Gore já foi criticado até pela esquerda (Jeffrey St. Clair, da revista Counterpunch, xingou-o de "hipócrita"), mas não há como deixar de reconhecer (e agradecer) seu pertinaz combate aos que potencializam o efeito estufa e exultar com o seu Nobel. Sua premiação foi, além do mais, uma vingança pela derrota eleitoral que Bush lhe impôs no tapetão (ou seja, numa Suprema Corte dominada por republicanos). E tanto mais significativa porque motivada por uma causa que Bush tem-se esmerado em boicotar de todas as maneiras. SEGUNDA, 15 DE OUTUBROA volta da motosserra Depois de três anos em baixa, o desmatamento da Amazônia voltou a crescer em 2007. Entre junho e setembro, a derrubada da floresta aumentou 107% em Mato Grosso em comparação com 2006. A devastação também subiu em Rondônia (53%) e no Acre (3%).

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