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Al-Zaidi, a cinderela do mundo árabe

Sem sapatos, repórter que agrediu George W. Bush deu um salto

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2009 | 12h46

Chega de mártires. Chega de Wladimir Herzog, Tim Lopes, Daniel Pearl, Nestor Moreira, George Polk, Anna Politkovskaya. O jornalismo precisa de herois que sobrevivam aos seus inimigos. De herois como Edward Murrow e a dupla Woodward-Bernstein, por exemplo. Mas já que ultimamente tivemos de nos contentar com o iraquiano Muntazer al-Zaidi, que o Alá o proteja - e sobretudo não nos desampare.

 

Repórter do canal de TV Al-Baghdadia, o xiita Al-Zaidi tornou-se a maior celebridade jornalística mundial dos últimos nove meses, por uma façanha midiática sem precedentes: nunca antes um jornalista agredira fisicamente um chefe de Estado estrangeiro, no curso de uma entrevista coletiva. Ou, pelo menos, nunca um presidente dos Estados Unidos sofrera o constrangimento de ser atacado em público por um homem de imprensa; muito menos com uma sapatada.

 

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Ao atirar um sapato na direção do ex-presidente George W. Bush, em 14 de dezembro de 2008, aos gritos de "Este é o beijo de despedida do povo iraquiano, seu cão!", Al-Zaidi entrou para o folclore da imprensa e do protesto político.

 

Preso no ato e incurso no artigo 223 do Código Penal iraquiano, foi condenado a três anos de cadeia, pena reduzida para um ano, por sua condição de réu primário. Na última terça-feira, após nove meses de cárcere, Al-Zaidi foi posto em liberdade. Só aí descobriu-se que ele, por muito pouco, não se tornara um mártir, ao invés de heroi. Submetido a torturas pela polícia iraquiana, Al-Zaidi quase engrossou as estatísticas de jornalistas assassinados (109 em 36 países, apenas no ano passado). Desde quarta-feira em Atenas, para tratamento médico, deverá ficar rico dando palestras, escrevendo livros e perpetuando seu próprio mito.

 

Ao contrário da invasão do Iraque pelos americanos, pacientemente arquitetada pela Casa Branca, a sapatada foi um rompante intempestivo, um desacato alimentado por cinco anos de indignação acumulada. "Senti o sangue dos inocentes no meu pé no momento em que ele (Bush) sorria dizendo ter vindo se despedir do Iraque", justificou-se Al-Zaidi, que, se houvesse tentado alvejar Bush com uma pedra ou qualquer objeto que não um sapato, talvez não tivesse alcançado o mesmo nível de glorificação entre os muçulmanos.

 

Determinados povos do Oriente Médio têm uma relação conflituosa com os pés, que consideram a parte mais baixa e impura, a mais suja do corpo humano. Isso não significa que os calçados os purificam - ou Deus não teria pedido a Moisés para entrar descalço na Terra Prometida. No Iraque e arredores, o sapato é quase uma abominação. Mostrar a sola do sapato para alguém, mesmo casualmente, ao cruzar as pernas durante uma conversa, é uma tremenda gafe em diversas comunidades árabes. Imagine a força simbólica de uma sapatada: nem precisa acertar o alvo para cumprir sua função punitiva.

 

Al-Zaidi já amanheceu ídolo no dia 15 de dezembro. Seu gesto repercutiu estrepitosamente na internet e, além de adaptado a videogames, ganhou imitadores por todo canto, dos Estados Unidos à Malásia. Fizeram passeatas a seu favor, em Bagdá e países vizinhos, cerca de duas centenas de advogados de diversos países, americanos, inclusive, ofereceram-lhe ajuda jurídica gratuita; sua efígie enfeitou cartazes e camisetas; até propostas de casamento o jornalista, solteiro, 31 anos, recebeu.

 

Seu sapato foi cobiçado por vários museus do Oriente Médio e por um empresário saudita, que se disse disposto a dar por ele US$ 10 milhões. Mas, àquela altura, o precioso calçado, cuja fabricação ainda é disputada por duas marcas, uma turca, outra iraquiana, já fora destruído pelo serviço de segurança americano em atividade em Bagdá. Em janeiro, um orfanato de Tikrit, a cidade natal de Saddam Hussein, inaugurou uma réplica em bronze do "By-bye Bush shoe", com 3 m de comprimento, que as autoridades iraquianas derreteram em menos de 48 horas.

 

O primeiro imitador de Al-Zaidi surgiu três dias depois da agressão ao Bush, não no Oriente Médio, mas em Queens (Nova York): um ferroviário de cabeça quente, que também errou a cabeça do alvo, numa reunião com representantes do patronato. Em abril, a sapatada como manifestação de descontamento político atingiria o apogeu nas eleições indianas, com desdobramentos no Sri Lanka, Irã (alvo inevitável: o presidente Mahmoud Ahmadinejad), na Malásia e Inglaterra, onde a residência oficial do primeiro-ministro Gordon Banks sofreu dois ou três ataques de mocassins e botinas. O premier chinês Wen Jiabao escapou de levar a sua sete meses atrás, quando visitava a Universidade de Cambridge. Na China ninguém ousaria hostilizá-lo, nem sequer com uma sapatilha da Barbie.

 

Impossível prever se no futuro o sapato de Al-Zaidi estará mais vivo na memória popular iraquiana que o de Cinderela, os de Dorothy de O Mágico de Oz, os de camurça azul de Elvis Presley. Nem até quando o destemperado paladino das viúvas e órfãos da guerra no Iraque continuará sendo "um dos três homens mais poderosos do mundo árabe" (os dois primeiros, segundo o semanário Arabian Business, são o banqueiro saudita Talal Al Saud e o industrial dos Emirados Árabes, Mohammed Alabbar), se é que ainda o é, sem precisar de meia-sola e salto novo.

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