Cia. das Letras
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Alan Pauls disseca as relações modernas em 'A Metade Fantasma'

Escritor argentino também ganha reedição brasileira de 'O Passado'

Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

09 de abril de 2022 | 15h00

Uma das características mais exasperantes da Argentina é ser tão cultivada literariamente. Como diria Jorge Luis Borges: “Deixe os outros se orgulharem de quantas páginas escreveram – prefiro me gabar das que li”. Sim, ler é um vício argentino como o tango e o churrasco - em Buenos Aires há quase tantas livrarias quanto mercados e farmácias. 

Impossível flanar pela capital portenha sem notar a miríade de leitores sôfregos garimpando nalgumas das maiores livrarias do mundo, como a suntuosa El Ateneo (eleita pelo jornal The Guardian a mais bela do planeta), numa antiga casa de ópera no coração do bairro Palermo. Como se não bastasse, do lado de fora da respectiva estação do metrô se acotovelam mais de 50 barracas de livros velhinhos em folha, para se filar uns parágrafos no trem (Tic-Toc, uma pinoia!). Na avenida Corrientes, a via dos teatros de Buenos Aires, qualquer sonâmbulo pode xeretar opulentas estantes às três da matina. 

Com um quarto da população do Brasil, a Argentina lidera a América Latina em publicação, com 20 mil títulos lançados anualmente. A capital tem cerca de 800 livrarias, a segunda cidade no mundo em livrarias/habitantes (a primeira é Melbourne). Em 2011, a Unesco concedeu a Buenos Aires o título de Capital Mundial do Livro. E como pedigree pouco é bobagem, até o nome do país vem de um latinismo que assomou pela primeira vez em uma fonte literária: o poema épico La Argentina (1602), de Martin Barco Centenera

A própria literatura argentina é uma espécie de X-tudo (mas não indigesto), como aquelas churrascarias rodízio que servem até carne vegana. Dos clássicos gauchescos e “paydores” (Martin Fierro, de José Hernandez; Facundo, de Sarmiento) ao cosmopolita bandoneon ficcional de Borges, e escalando um dream team com Silvina Ocampo, Bioy Casares. Leopoldo Lugones, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Ricardo Piglia, Juan José SaerClaudia Piñeiro – para ficar apenas nos prosadores. E alinhando uma equipe de “dentes de leite” já quase galácticos, como Andrés Neuman, Pola Oloixarac Federico Falco e Samanta Schweblin, entre tantos outros. 

Na década de 1970, foi a literatura que bruxuleou no breu da “guerra suja” da ditadura militar, apesar dos exílios (Juan Gelman, Antonio Di Benedetto) ou dos assassinatos (Roberto Santoro, Haroldo Conti, Rodolfo Wash). Já os anos 1990 correspondem ao reencontro de sobreviventes de várias gerações e à reconfiguração de abordagens literárias para um novo século globalizado. E é aí que Alan Pauls chega chegando. 

É, o cara existe. Na Espanha, boatos insinuavam que Pauls não passava de, se não fake news, pelo menos um personagem inventado por três ficcionistas: Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas e Rodrigo Fresán. A charada só foi oficialmente desvendada em 2003 (ano da morte de Bolaño), quando Pauls recebeu em carne e osso o prêmio Herralde, em Madri, pelo romance “O Passado”. E o próprio Fresán aproveitou a deixa para explicar que aquela tríade era não o dr. Frankenstein da criatura, mas apenas sua tiete.

De 63 anos, Alan Pauls é também roteirista de cinema. Um dos temas dele é esculhambar o suposto sangue azul metropolitano da Argentina, que a distinguiria dos demais cucarachas latino-americanos. “É como se a Argentina  fosse a Atenas de Péricles do século 19, quando chacinamos índios e negros. As crises do século 20  e 21 nos fizeram perder esse esnobismo, e nos irmanaram com São Paulo ou Montevidéu”.

O Passado (filmado por Hector Babenco) mostra que, em países como os nossos, até o passado é imprevisível. Os protagonistas Rímini e Sofia partem para outra após uma relação de doze anos. Porém, a ligação não cessa – apenas se exuma, como um zumbi afetivo. Sofia não larga o osso, empenhada em reconquistar, torturar e redimir o amante, tudo numa tacada só. Num pesadelo sardônico, Rímini vai sendo depenado: perde o trabalho, o novo amor, o filho. Com um topete daqueles, e com um igualitarismo equitativo, Pauls sugere que as mulheres não passam de seres humanos – e podem ser tão predatórias quanto os homens. Que o digam Medeia ou Lady Macbeth

Não, não é como aquela frase machista erroneamente atribuída a Shakespeare (“Nem no Inferno há fúria comparável à de uma mulher desprezada” – que é de Willian Congreve). É que nem o mal nem a dor têm gênero - e é por isso que Sofia, depois de ter sido anjo da guarda, vira anjo exterminador. Ela funda uma célula terrorista intitulada “Mulheres que Amaram Demais”, e frequenta o bar “Adele H” (em homenagem à filha de Victor Hugo, cuja vida foi uma sofrência só e virou filme de Truffaut). 

O Passado é não uma ode mas uma eulogiado amor. Para onde vai a paixão quando ela sucumbe? O amor tem seu cemitério de elefantes? Ou é um velho guerreiro, que não acaba nem quando termina? Como observou Milan Kundera: “A obtusidade das pessoas nasce do fato de terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance  nasce de ter uma pergunta para tudo”. Aqui, o inferno são os outros – mas o céu também. 

A Metade Fantasma é o mais recente romance de Pauls (que em 2019 vive em Berlim com a esposa, a dramaturga e cineasta Lola Arias), e dramatiza um tema moderno: as relações virtuais. Savoy é um voyeur inveterado e um acumulador compulsivo: serpenteia pela internet comprando tranqueiras usadas de que não precisa para nada. Mas tem o outro lado da moeda: ele se compraz em visitar pessoalmente casas alheias, seja para pagar seu aluguel, seja para recomendá-las a terceiros. É uma existência vicária e mutilada: a dor espectral causada por um membro amputado, a metade fantasma. Lembra, claro, o mito platônico do ser primordial, separado em dois pelos deuses ciumentos daquela plenitude perfeita, gerando o anseio de uma reunificação quimérica. 

A outra metade é Carla, vinte anos mais jovem, que por sua vez percorre o mundo como “homesitter” – tomando conta de casas cujos donos viajaram. Ambos se encontram no Skype, o limbo digital onde tudo é possível, menos o essencial – o toque simultâneo, o tato nos poros, sem os quais a comunhão não se consuma nem se confundem sujeito e objeto. Por isso, Savoy decide ir para Berlim, onde Carla está – para uma conexão não apenas de pixels, LCD ou plasma, mas de plasma e albumina, de imagens viscerais e tridimensionais. 

Por outras palavras, Pauls disseca o mito esfíngico do amor – a ideia de que em algum lugar, num quando e num onde, num alhures algures, existe algo e alguém que cai como uma luva nas nossas mãos em concha. A Metade Fantasma tenta demonstrar que a alma gêmea não se reduz necessariamente a uma alma penada. Embora de ilusão (digital ou analógica) também se viva: como dizia Montesquieu, “Se apenas quiséssemos ser felizes, isso seria moleza. Acontece que queremos ser mais felizes do que os outros, e isso é difícil porque achamos que os outros são mais felizes do que são.” Alan Pauls se entroniza com um catedrático da educação sentimental na ficção contemporânea. 

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