Storm Thorgeson
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Álbum de estreia do Pink Floyd remonta a tragédia de líder original

Lançado há 50 anos, 'The Piper at the Gates of Dawn' é quase todo assinado por Syd Barrett, que enlouqueceu e morreu na obscuridade

André Cáceres*, Colaboração para o Estado

20 Maio 2017 | 16h00

Há meio século, a história de um homem que roubava roupas íntimas femininas dos varais de Cambridge escalava as paradas de sucesso das rádios britânicas. Arnold Layne, primeiro single do Pink Floyd, não foi incluído no álbum de estreia, The Piper at the Gates of Dawn (1967), mas foi marco do breve e obscuro reinado psicodélico de Syd Barrett, fundador e líder original da banda, que enlouqueceu e deixou o mundo da música. 

O rock já havia sido declarado morto e enterrado quando o guitarrista Roger Barrett (conhecido como Syd por ter o mesmo sobrenome do baterista do Riverside Jazz Club) e o baixista Roger Waters montaram sua primeira banda na adolescência. Com a morte de Buddy Holly, Big Bopper e Ritchie Valens em um desastre aéreo; Chuck Berry preso pelo envolvimento com uma menor; Little Richard fora da música secular em prol do gospel; e Elvis Presley no exército, o atestado de óbito do rock parecia inevitável até a chamada invasão britânica, primeiro com iêiêiê e depois movida a LSD.

As primeiras experiências de Syd Barrett com drogas ocorreram em uma banda de estudantes chamada Those Without, em referência a um romance de Françoise Sagan, escritora francesa que antecipou em uma década a transgressão, vida desregrada e ascensão meteórica de Barrett. A banda eventualmente se tornou The Pink Floyd Sound, nome sugerido por Syd em alusão aos blueseiros Pink Anderson e Floyd Council.

Barrett, cujo principal interesse era a pintura abstrata, encarava a música como passatempo e realizava concertos esporádicos sem grandes ambições. Os shows do Pink Floyd, sem barreira física entre banda e plateia prenunciavam a atmosfera horizontal dos festivais punk de dez anos mais tarde. A situação começou a mudar quando tocaram no Marquee Club em fevereiro de 1966 e foram abordados pelos empresários Peter Jenner e Andrew King. A banda inaugurou em dezembro o UFO, efêmero porém lendário clube underground que durou nove meses e recebeu o Floyd 11 vezes.

O jornalista musical e posteriormente biógrafo da banda Hugh Fielder considerou o som de Syd Barrett uma “bobagem” na época: “Não havia nada de R&B e parecia não se enquadrar em nenhum estilo, achamos ridículo.” A imprensa, porém, dizia que os outros integrantes, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright, apenas acompanhavam a genialidade de Syd, que já registrava um comportamento errático e violento. Barrett assinou oito das 11 faixas em The Piper... (gravado no estúdio ao lado do que os Beatles estavam usando para Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band) e era coautor das outras três. Para o repórter Kris DiLorenzo, “ele usava da técnica do conto de fadas, justaposição surrealista de detalhes psicodélicos e fatos planos, experiências infantis e confusão adulta.” 

Incapaz de se adequar às questões comerciais, Barrett não estava bem psicologicamente. Com a cansativa turnê e o uso de drogas, os surtos ficaram frequentes. Não raro, ele subia ao palco apenas para fitar a plateia, inexpressivo e imóvel, recusando-se a tocar. David Gilmour assumiu a guitarra, e o quinteto existiu durante cinco shows antes da expulsão de seu líder em abril de 1968.

O Pink Floyd nunca teria nascido sem Barrett, mas não poderia continuar com ele. Seu legado psicodélico na banda é nítido na coletânea Relics (1971), na trilha sonora do filme More (1969, dirigido por Barbet Schroeder) e em discos como A Saucerful of Secrets (1968), Meddle (1971) e Wish You Were Here (1975). Barrett é a referência de Waters em Set the Controls for the Heart of the Sun, (que substituiu a épica Interstellar Overdrive nos shows) e influenciou Kevin Ayers, ex-Soft Machine que o homenageia em Oh Wot a Dream (1973); David Bowie, que fez uma versão de See Emily Play; Hawkwind, que explorou a vertente space rock inaugurada por Syd; e Pink Fairies, que fez a ponte entre a psicodelia e o punk. Esse, aliás, é o estilo musical do Damned, que o convidou a produzir seu segundo disco (ele recusou por sua condição psicológica), enquanto fãs do gênero usavam camisetas “Eu odeio o Pink Floyd”.

A banda que Barrett fundou tornava-se um fenômeno mundial (The Dark Side of the Moon é o 3.º álbum mais vendido da história) à medida que sua degradação mental progredia. Em 1970, ele lançou dois álbuns solo, The Madcap Laughs e Barrett, já enfrentando sua loucura, usurpada pela indústria fonográfica e refletida nas faixas soturnas e desconexas. Por autopreservação, Syd voltou a ser apenas Roger Barrett e a morar com a mãe. Jornalistas e fãs do mundo todo tentavam desvendar seu paradeiro, e gravadoras faziam propostas por um retorno, condenando-o a uma vida reclusa. Inativo e distante da realidade, tornou-se um personagem de suas canções. Sua biografia Crazy Diamond, de Mike Watkinson e Pete Anderson, relata as lendas de que ele foi visto em uma bicicleta de cesto como a descrita em Bike e usando roupas femininas como em Arnold Layne. 

Morto em 2006, vítima de um câncer, Barrett passou os últimos 35 anos da vida sem compor uma nota sequer, como o escriturário niilista Bartleby, personagem de Herman Melville (autor de Moby Dick) que simplesmente “preferia não fazer” nada do que seu chefe ordenava e acabou morrendo de fome. Barrett criou uma instituição do rock, mas foi aniquilado pela própria obra.

*André Cáceres é jornalista e escritor, autor de 'Cela 108' (2015, ed. Multifoco) e está na antologia poética 'Além da Terra, Além do Céu' (2017, ed. Chiado)

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