Além da vã meteorologia

Cúpula de Copenhague sofrerá turbulências, entre outras coisas, porque números não batem

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2009 | 03h38

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O Brasil levará uma delegação de 700 pessoas à Convenção de Mudanças Climáticas da ONU, que amanhã começa em Copenhague. É gente demais, mesmo considerando o interesse recorde de 90% dos brasileiros pela questão do aquecimento global, o antecipado compromisso assumido pelo governo Lula de reduzir a emissão de gases estufa em quase 40%, até 2020, e o fato de ficar aqui a maior parte da Amazônia. Como esse não é o nosso primeiro (nem será o nosso último) "trem da alegria", o melhor que temos a fazer é relativizá-lo e torcer para que a viagem resulte produtiva para pelo menos 90% da nossa delegação. Temos muito o que ouvir, aprender, propor e discutir em Copenhague.

 

PAISAGEM DE RISCO - A gigantesca usina termoelétrica em Retford, na

Inglaterra, lança na atmosfera a poluição resultante da queima de carvão

É preciso relativizar também a importância daquele vazamento de dados e comentários desairosos dos computadores da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, ocorrido no final do mês passado e apressadamente apelidado de "Climagate". Temia-se que ele pudesse comprometer os fundamentos da causa ambientalista, reforçar os argumentos dos cientistas céticos (assim chamados porque não acreditam no aquecimento global) e, por tabela, desacreditar a Convenção da ONU. Apesar do malicioso empenho dos céticos e da pressão dos lobistas de indústrias poluidoras e da charanga dos republicanos americanos, nenhum desses temores se confirmou. Ninguém ainda conseguiu provar que o aquecimento global é uma balela, uma fraude, que o dióxido de carbono nada tem a ver com o efeito estufa e que os ursos polares estão fazendo chantagem sentimental com a gente.

O que não quer dizer que a cúpula de Copenhague transcorrerá sem turbulências. Entre outras coisas, porque os números não batem.

Além das diferenças nos processos de monitoramento da temperatura (uns se fiam nos termômetros distribuídos por 517 estações meteorológicas ao redor do planeta, outros preferem a dendrocronologia, método de datação baseado na contagem dos anéis dos troncos das árvores), outras, fora do alcance dos leigos, dificultam ainda mais a compreensão do que de fato está acontecendo com o clima do planeta.

Muitos cientistas se surpreenderam com a recente revelação de que a temperatura da terra, após subir 0,7°C entre as décadas de 70 e 90 do século passado, estabilizou-se nos últimos anos. E a marca de 0,2 °C, no período 1999-2008, oficializada pela Convenção do Clima em torno da qual vão girar todas as suas discussões? Não confere, rebateu há dias o britânico Centro Hadley de Pesquisa e Previsão Climática. Pelas suas pesquisas, a terra só ficou mais quente 0,07 °C nos últimos dez anos. Acrescentando-se os fenômenos naturais El Niño e La Niña, a média cai para 0,0°C.

"Isso não elimina a tendência de alta", acrescentou o meteorologista Mojib Latif, do Instituto Leibniz de Pesquisas Marítimas, em Kiel (Alemanha). "Mas uma coisa é certa: ninguém sabe dizer por que a temperatura se estabilizou."

Mistérios como esse serão invocados a toda hora em Copenhague, não apenas pelos céticos. A questão climática é bem mais complexa do que supõe a vã meteorologia.

O clima, ninguém contesta, é um bem público, universal. Não existe uma relação direta, nem sequer proximidade geográfica, entre os países que mais causam danos ao planeta (atualmente China e Estados Unidos) e os que mais podem ser prejudicados pelo aquecimento global. Milhares de quilômetros separam os Estados Unidos das Ilhas Maldivas, ameaçadas de desaparecer caso a temperatura da terra suba 2°C e os níveis de CO2 na atmosfera ultrapassem a marca de 350 partes por milhão. Para manter o aquecimento em menos de 2°C, as emissões globais de CO2 precisariam ficar em 44 bilhões de tonelas por ano até 2020. Como já estão em 47 bilhões e podem chegar a 50 bilhões daqui a dez anos, os maldivanos dispõem de pouco tempo para juntar seus pertences.

Faz tempo que as regiões mais pobres e usualmente mais assoladas por catástrofes naturais enfrentam, sem recursos, diversos fenômenos meteorológicos diretamente atribuídos aos efeitos dos gases estufa na atmosfera. A velha injustiça das relações Norte-Sul ganhou sobrevida no desequilíbrio ambiental. No melhor dos mundos, os países ricos de algum jeito compensariam os pobres pelas consequências das suas emissões de CO2 e metano. Mas quanto pagar aos países em desenvolvimento para que limitem suas emissões de gases estufa e reduzam sua produtividade econômica? Como e quanto custaria devolver as Ilhas Maldivas à superfície do Oceano Índico?

Até os mais otimistas duvidam que a Convenção da ONU produza um protocolo consensual em torno de questões básicas. Promessas todos os participantes fizeram. Se vão implementá-las, são outros quinhentos. Sem a participação popular, nada feito. Só no Brasil a maioria esmagadora da população se diz preocupada com a mudança climática. Mas o engajamento dos brasileiros, só, não basta. Por ser um bem universal, o clima precisa ser bem cuidado universalmente.

Será difícil engajar os americanos nessa causa. Apenas 44% da população admitem estar preocupados com o aquecimento global. Às voltas com uma crise econômica e duas guerras sem fim, excessivamente bitolados pela "cultura do presente", do imediatismo, como convencê-los da necessidade de inverter pesados recursos para evitar flagelos agendados para daqui a 40 anos?

Sobretudo porque não contamos com organizações internacionais capazes de impor critérios ou compromissos a todos os países, como exigiria uma economia pública administrada em nível planetário, não será fácil coordenar ações eficazes para evitar que os termômetros subam, as geleiras derretam e as ilhas desapareçam. A luta contra a mudança climática, como bem notou o espanhol Ignacio Sotelo, pressupõe políticas públicas de caráter internacional que não se encaixam no tipo de economia por nós adotado. Ou seguimos com pequenas correções, rezando para que daqui a meio século a catástrofe ecológica anunciada não aconteça, ou nos esforçamos para adaptar o sistema econômico mundial aos novos desafios.

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