Além das lágrimas

As eleitoras americanas parecem buscar em Hillary o arquétipo feminino do pragmatismo

Susan Faludi *, do Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 15h20

Na tarde da primária de New Hampshire, eu tive uma espécie de epifania política numa fila do Kaiser Permanente Medical Center em San Francisco esperando o preenchimento de uma receita médica. Diante de mim, uma mulher de meia idade, usando um conjunto elegante, consolava sua mãe idosa e confusa. "Tudo bem, mãe, eles nos puseram no fim da fila porque eu não quis esperar até seu nome aparecer no quadro, mas você não precisa ficar em pé. Sente-se e relaxe que eu cuido disso." Na fila de cadeiras à minha esquerda, outra mulher em trajes de trabalho - ela claramente havia chegado às pressas do escritório - estava aplicando o mesmo calmante verbal a sua mãe adoentada. "Não tem problema. Vou ligar para o médico e fazer com que ele entenda isso, depois vou mudar essa outra consulta para amanhã de manhã. Não se preocupe." Seguiu-se uma batalha acirrada pelo celular com uma secretária recalcitrante do médico. Evidentemente, a filha venceu. "Está resolvido", disse ela à mãe. "Eu já cuidei de tudo."Ouvindo essas mulheres cuidando com eficácia e muita paciência de suas mães do jeito que podiam, admitindo erros, permanecendo em filas intermináveis, ligando para médicos, eu quis perguntar, "Vocês não poderiam dirigir meu país?"Nas atuais circunstâncias, não estou sozinha na esperança de uma nação conduzida por alguém cujo desejo por nosso bem-estar seja apaixonado, mas cujas ações a nosso favor também transborem em uma sólida competência, alguém que não tenha nenhum tipo de lampejo exceto o que mantém a pessoa fazendo zelosamente a coisa mais difícil da vida. Em New Hampshire e em todo o país, muitas eleitoras parecem estar pensando do mesmo jeito.A mídia, os especialistas e analistas de pesquisas têm visto a histórica candidatura feminina, e a própria candidata, pelo prisma Madonna-Medéia que aplicam, desde pelo menos a era vitoriana, a mulheres que se aventuram na vida pública americana. Com isso, eles ignoraram um modelo totalmente distinto de feminilidade que é central para a experiência feminina. Se estão determinados a pensar em Hillary Clinton em termos de estereótipos femininos, ao menos deveriam usar o estereótipo correto.Essa ignorância ficou exposta depois de New Hampshire, quando analistas tentaram cegamente explicar os resultados da primária e saíram com explicações que foram tão ofensivas quanto fantasmagóricas. Uma teoria, reconhecidamente forçada, mas promulgada avidamente, sustentava que o inesperado aumento de apoio a Clinton veio de eleitores de classe baixa que eram secretamente (isto é, não detectável por pesquisas) racistas. Alguns especialistas reconheceram que poderia haver uma dinâmica de gênero em ação, mas admitiram apenas uma possibilidade: as eleitoras eram mulheres crédulas, facilmente influenciáveis, que haviam deixado algumas lágrimas de garota confundir seu juízo político. Os especialistas debateram se as lágrimas de Clinton eram "reais" ou "fabricadas" - isto é, se ela era alguma irmã fraca e chorona incapaz de enfrentar a dureza de um mundo masculino, ou apenas uma bruxa sedenta de poder, que faria qualquer coisa para se agarrar a sua vassoura.Alguns, como a repórter Carla Marinucci do San Francisco Chronicle, ofereceram avaliações mais convincentes. Ela assinalou que as eleitoras não pareciam estar reagindo tanto às lágrimas de Clinton quanto a seu ultraje com as reações masculinas àquelas lágrimas (em particular, a homens na mídia).Clinton não baseou sua campanha, ou boa parte de seu apelo, na sua feminilidade ou na sua condição feminina. Entretanto, o público (e, em especial, a mídia) persiste em vê-la por essa ótica. O problema é que é uma ótica distorcida. Ela só vê metade da experiência feminina. Clinton, e virtualmente todas as políticas mulheres que surgiram antes dela, acabam sendo avaliadas segundo uma velha divisão, e depois condenadas de um jeito ou de outro: compassiva ou molenga demais (a crítica implícita ao "Hillarycare" ou ao "Estado ama-seca", e também à reação inicial a suas lágrimas em New Hampshire), ou controladora e indiferente demais (implícita em "Hillary não é suficientemente pessoal"). Em ambos os casos, a candidata está sendo julgada não apenas como mulher, mas como mãe.A sociedade americana caracteriza as mulheres como provedoras com base em seus jovens anos como mães. E quando a mídia americana cobra emoção e calor de Clinton, ela está expressando a cobrança de uma criança a sua mãe (uma cobrança que não é feita igualmente do pai).Mas existe uma esfera totalmente separada do caráter provedor feminino que é, de fato, mais relevante para a liderança nacional e para a candidatura de Clinton. Filhas assumem o pesado fardo de cuidar de seus pais idosos. Essa também é uma esfera da experiência feminina, bem mais familiar para as mulheres na faixa da meia idade em diante que apoiaram Clinton mais fervorosamente, mas seus preceitos são muito diferentes.A mulher que cuida de seus pais idosos não está sendo solicitada a inflar um ego juvenil com os respingos necessários de afagos e incentivos inspiradores. A disponibilidade que uma criança pede de uma jovem mãe não é a qualidade mais requerida numa mulher de meia idade cuidando de um de seus pais - ou uma nação madura. A competência é. Se essa competência for respaldada pela força humanizadora de lágrimas, isso é adorável e apreciado. Mas, como aquelas mulheres do centro médico sabiam, o momento pedia mais soluções práticas e uma pessoa capaz de resolver problemas.O maior espetáculo de obsequiosidade que aquelas mulheres poderiam demonstrar era deixar seus afazeres para ficar naquela fila vezes sem conta e fazer aquele telefonema zangado para um outro médico, mesmo que fossem percebidas como "vadias" pelas recepcionistas na outra ponta.Em suas avaliações de Hillary Clinton, os entendidos em pesquisa e especialistas que não foram além daquela narrativa da mamãezinha atenciosa da condição feminina americana também não começaram a diagnosticar a dinâmica de gênero além da perspectiva do filhinho e sua mamãe. Muitas eleitoras, porém, podem estar considerando um tipo complementar diferente de arquétipo feminino, cujos olhos marejados não sinalizem fraqueza e cujos lampejos de raiva não sinalizem frieza, mas sim uma perseverança pragmática.Se os especialistas tentassem compreender o que algumas eleitoras sabem da complexidade das vidas das mulheres, eles poderiam começar a compreender o apelo de uma candidata mulher cuja ética de cuidar e cuja postura de feminilidade derivam de responsabilidades além das maternais. E ainda poderiam começar a compreender o afeto das mulheres em New Hampshire que a colocaram na frente.Susan Faludi é jornalista e escritora. É autora de Domados - Como a Cultura Traiu o Homem Americano (Editora Rocco)SEXTA, 18 DE JANEIROUm novo capítuloNa véspera do caucus de Nevada, marcado para ontem, as pesquisas apontavam Hillary Clinton como favorita, com 42% dos votos. Seria um importante resultado para somar-se à vitória de New Hampshire, restaurando a confiança da candidata depois da derrota em Iowa.

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