Além de Oriente e Ocidente

O poder se desloca do Oeste para o Leste, mas os problemas que os dois lados enfrentam são os mesmos

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 20h23

Li no South China Morning Post que os cangurus são originários da China. A fonte do jornal é o Centro de Excelência para a Genômica dos Cangurus, da Austrália, portanto deve ser verdade. Que virá em seguida - os pandas são originários da França? Os kiwis da Costa Rica? Os tempos andam estranhos. Os titãs das finanças de ontem viraram pó, e a General Motors está reduzida a pedir esmola na porta do governo. O mundo está sendo refeito debaixo de nossos olhos. Aqui em Hong Kong, alguns dos traders mais espertos do mundo observam silenciosamente essas transformações. Vista deste exclusivo ponto de encontro do Oriente com o Ocidente, a primeira transformação óbvia segue o rumo oeste-leste. Mais especificamente: o fortalecimento da posição da China e o enfraquecimento da posição dos Estados Unidos. Enquanto se navega no arquipélago de arranha-céus de Hong Kong, ligados por passagens aéreas, olha-se com certa preocupação para a Torre da AIG e talvez com um pouco mais de respeito para o edifício radicalmente futurista de vidro escuro do Banco da China, do arquiteto I. M. Pei - embora o HSBC, de Norman Foster, ainda pareça se agüentar bem. Na televisão, zapeamos do secretário do Tesouro Hank Paulson perdendo a calma diante de uma comissão do Congresso, porque seu plano de ajuda parece precisar de ajuda, para o presidente chinês Hu Jintao avançando serenamente com uma delegação de 600 pessoas rumo ao Peru, onde assinará um acordo comercial bilateral pelo qual a China poderá tomar o lugar dos EUA como principal parceiro econômico do Peru no hemisfério americano. Entrevistado em um canal regional, o ministro das Finanças da Índia observa com satisfação que a cúpula financeira de Washington foi do G-20, não apenas do G-8. Assim deve ser e assim deve continuar, afirma. Vemos por um instante a cara de modéstia desenvolvimentista dos líderes chineses ("uma superpotência? nós?"), enquanto o presidente do conselho de supervisão do fundo soberano da China, Jin Liqun, diz que os países desenvolvidos deveriam procurar "com humildade" ajuda dos países em desenvolvimento como a China. Será que uma mudança ideológica acompanhará a mudança do poder? É óbvio que paira uma nuvem sobre a economia de livre mercado de estilo americano, mesmo no casulo de livre mercado que é Hong Kong - enquanto o mix da China continental de economia de mercado mais estatista e enorme acúmulo de reservas que ela poderá usar nesta crise parece bem mais positivo. Disseram-me que alguns chineses de Hong Kong compartilham esse ponto de vista, e com uma pitada de orgulho nacional. Ao mesmo tempo, eles conhecem bem as falhas do atual sistema chinês, que seus parentes e amigos do continente sentem na carne - desigualdade, corrupção, insegurança, e sim, ineficiência - para comprar a noção simplista do extraordinário modelo chinês .De fato, a história que me contam aqui é muito mais interessante e sutil. É a história de um grande debate de um tipo muito mais pragmático em toda a China, um debate do qual os intelectuais chineses e os ativistas da sociedade civil de Hong Kong podem participar. De que modo uma sociedade chinesa combina a eficiência de uma economia de mercado, inspirando-se em um espírito empreendedor nacional, comparável ao dos Estados Unidos, com certo grau de eqüidade, coesão social ou mesmo "harmonia"? Por trás dessas palavras redondas e grandiloqüentes está freqüentemente uma realidade social desesperada e instável, que faz com que muitas vezes cidadãos da República Popular da China saiam às ruas em protesto - o Ministério da Segurança Pública registrou cerca de 74 mil ?incidentes de massa" em 2004 - e, como aconteceu essa semana na Província de Gansu, enfrentem a tropa de choque e joguem lixo nos edifícios públicos. Como fazer isso funcionar? A bem da verdade, o contexto ideológico continua significativo. O presidente Hu não perseguirá algo que ele chama de "capitalismo democrático", nem o presidente Bush, que em breve deixará de sê-lo, abraçará um "socialismo com características americanas?. Mas, sob esses grandes rótulos as realidades às vezes são surpreendentes. Por exemplo, a maioria das pessoas acha que os EUA são um país no qual o Estado tem papel reduzido, enquanto na China o Estado é onipresente. Mas o scholar Wang Shaoguang, de Hong Kong, calcula que na China de hoje o governo central e os governos locais redistribuem apenas cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos EUA, a porcentagem é muito mais elevada. Até que ponto é mais elevada depende do Estado. Mas nos Estados democratas o governo certamente redistribui mais do que na China vermelha.O que realmente importa é o que funciona. Alguns aqui ampliam esse pragmatismo complexo até incluir o sistema político. Não se trata apenas de democracia ou não-democracia, branco ou preto, dizem eles. Há muitas nuances de democracia. O que intriga é que o sistema usado por Hong Kong para "eleger" seu principal executivo - que combina uma comissão eleitoral composta principalmente de representantes indicados nos chamados colégios eleitorais funcionais (diferentes setores da economia, grupos religiosos e mesmo 20 representantes da medicina chinesa) com a palavra final das autoridades chinesas - seja um modelo analisado pelos líderes chineses ao estudarem a possibilidade de ampliar o que chamam de seu próprio sistema democrático.Se for verdade seria fascinante, e um progresso. Mas a impressão deixada pelas eleições presidenciais americanas ainda está muito vívida em minha mente para concordar em que isso seja democracia. Há muitas variações entre tirania aberta e democracia liberal, mas em algum lugar ao longo do caminho existe uma linha clara. E não é tão difícil encontrá-la. O teste é este: se você não sabe quem ganhará as eleições, provavelmente está em uma democracia. Não sabíamos ao certo se Obama venceria - lembram? Quem sucederá a Hu não é uma escolha do povo chinês. A separação é nítida, e fundamental.No entanto, quando se trata do sistema socioeconômico, das complexas negociações entre crescimento, coesão social e sustentabilidade ambiental, ou entre os papéis do setor público e do privado, acredito que - no universo das economias de mercado - não exista mais uma separação clara e simples, preto ou branco. Assim como a China continental, Hong Kong e mesmo Taiwan mantêm uma conversação complexa e às vezes indireta a respeito de como fazer isso numa sociedade chinesa. Assim, teria todo sentido para os estrategistas chineses sentar à mesa com os líderes da Índia ou do Brasil e perguntar: então, como é que vocês tratam essa questão em seu país? Nós aqui tentamos fazer do seguinte modo...Rudyard Kipling, poeta do Império Britânico que naturalmente visitou Hong Kong, escreveu um famoso poema intitulado A Balada do Oriente e do Ocidente: "Oh, East is East and West is West, and never the twain shall meet..." (numa tradução literal: Oh, o Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente, e nunca os dois se encontrarão). O que já não é verdade, se é que um dia foi. Eles se encontram e se mesclam o tempo todo. E prosseguia: "There is neither East nor West ... when two strong men stand face to face" (Não existe Leste nem Oeste ..., quando dois homens fortes se encontram cara a cara). Hoje, é mais uma questão de: não existe Oriente e Ocidente quando governos fracos tentam atender às reivindicações de povos inquietos, em um planeta superaquecido. *Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus da Universidade de Oxford, senior fellow da Hoover Institution, da Universidade de Stanford, e autor de Free World (Penguin UK)

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