Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

Alemanha tenta acertar as contas com Wagner: joia cultural ou vergonha nacional?

Antissemita, compositor foi personagem polêmico e ídolo de Hitler

Ben Miller, The New York Times

16 de abril de 2022 | 10h00

BERLIM - Poucos compositores inspiram tanta admiração e tanta repulsa quanto Richard Wagner. A obra do compositor se vê carregada de diferentes significados e interpretações, sobretudo na Alemanha, que enxerga Wagner como um misto de joia cultural e constrangimento político.

Além dos dramas musicais, o legado de Wagner abarca seus escritos políticos antissemitas e nacionalistas. A ditadura nazista celebrou suas obras musicais como um símbolo da cultura alemã pura que eles queriam promover. Hitler era presença constante no Festival Wagner em Bayreuth, onde os descendentes do compositor o recebiam calorosamente. E o regime costumava usar a música de Wagner em comícios e eventos oficiais.

“Não dá para montar uma produção ingênua e bonita de uma ópera de Wagner na Alemanha”, disse Michael P. Steinberg, historiador cultural da Brown University que, junto com Katherina J. Schneider, fez a curadoria de uma exposição sobre o compositor no Deutsches Historisches Museum em Berlim. “É impossível”.

A exposição ‘Richard Wagner and the Nationalization of Feeling’ estreou no sábado e vai até setembro. A primeira mostra dedicada a um compositor no museu de história nacional da Alemanha explora as relações entre a política de Wagner, sua produção artística e sua influência.

“Se Wagner tivesse escrito apenas suas três mil páginas de prosa, ele seria lembrado como um maluco, um pensador maníaco de segunda categoria”, disse Steinberg. Mas, acrescentou Steinberg, ele é lembrado principalmente pelos dramas musicais que fizeram dele “o compositor mais transformador de meados do século 19, sem o qual não se pode entender a música europeia desde então”.

Wagner, disse ele, era um “técnico das emoções”: orquestrava experiências coletivas de sentimento que incorporaram suas ideias à sua arte. Isso significa que não se pode separar sua música de sua política envenenada, disse Steinberg. “As ideias ressurgem no palco de maneiras subliminares”, acrescentou, “através de mundos de sentimentos que são transmitidos por meio de música e texto”.

Por isso, ele e Schneider organizaram a exposição de acordo com uma série de emoções pelas quais argumentam que o legado do compositor pode ser entendido: a alienação que Wagner sentiu como revolucionário dos anos 1840; o sentimento de pertencimento à medida que passou a ser aceito institucionalmente; o eros que caracteriza a sedução de sua obra; e, por fim, a repugnância e a aversão que animavam os preconceitos do compositor.

Esses sentimentos, argumentam os curadores, eram “nacionais” porque a popularidade da música de Wagner ajudou a incorporá-los à consciência nacional alemã, sobretudo após a unificação da Alemanha em 1871.

Para sustentar seu argumento, eles reuniram objetos emprestados de coleções de toda a Europa, bem como artefatos da própria coleção do Deutsches Historisches Museum, combinados com videoclipes de montagem e entrevistas com notáveis artistas wagnerianos.

Os curadores também encomendaram uma nova instalação de áudio de Barrie Kosky, o diretor da Komische Oper em Berlim, cujas raízes judaicas são uma parte importante de sua identidade artística. Ele passou os últimos anos perseguindo o que chama de “exorcismo cultural público” de seus próprios demônios wagnerianos, explorando o antissemitismo do compositor por meio de uma série de produções aclamadas que culminou com uma encenação de Die Meistersinger von Nürnberg em Bayreuth, a qual terminava com o compositor literalmente no tribunal.

Seu ponto de partida para a instalação, disse ele, foi o infame ensaio de Wagner chamado “O judaísmo na música”. O ensaio – um discurso antissemita que argumenta que compositores judeus só conseguem imitar, mas nunca criar de verdade – também insiste no ódio visceral do compositor à “voz” judaica. Defendendo a tese de que a música surgira de culturas folclóricas baseadas na raça, Wagner descreve a música folclórica judaica como “gorgolejos e cacarejos confusos de sentido e som”.

Kosky disse que ouve ecos desses sons odiados nos personagens de Wagner que incorporam arquétipos antissemitas: o crítico pedante em Die Meistersinger von Nürnberg, por exemplo, ou os anões sedentos por ouro do ciclo Der Ring des Nibelungen.

A instalação sonora de Kosky se encontra em uma pequena sala escura do museu. Os visitantes ouvem sons misturados de músicas de sinagoga, trechos de gravações antigas com os personagens “judeus” de Wagner e frases de “O judaísmo na música”, lidas por uma mulher, em iídiche. Kosky caracterizou o efeito como “deliberadamente nauseante”.

Kosky disse que continuaria dirigindo os dramas musicais do compositor, mesmo com sua carga de antissemitismo. Depois de completar seu “exorcismo”, acrescentou, ele se sentiu pessoal e artisticamente livre para abordar a obra do compositor a partir de novas perspectivas.

“Para mim, é a combinação das coisas – a música, o texto e a especificidade cultural do que ele está usando – que faz da obra de Wagner algo tão profundamente problemático e fascinante”, disse Kosky.

Mark Berry, que lidera o departamento de música da Royal Holloway da Universidade de Londres e publicou diversos artigos sobre política e religião na obra de Wagner, disse que o compositor se tornou uma espécie de bode expiatório nas tentativas alemãs de acertar as contas com o passado do país. Era como se a culpa pelas consequências assassinas do antissemitismo alemão pudesse ser terceirizada para um homem que morrera muito antes de os nazistas chegarem ao poder.

“É claro que existem elementos nacionalistas românticos no pensamento de Wagner”, disse ele, “assim como havia em praticamente todo artista alemão da época. Quando olhamos para sua escrita teórica, porém, ele está convencido de que acabou o tempo dos traços nacionais na arte, de que aquela seria uma era de universalismo artístico”.

Sim, disse Berry, havia ideias antissemitas nos dramas musicais de Wagner e política antissemita em seus ensaios. Mas, acrescentou ele, isso não faz com que a música em si seja antissemita e Wagner não foi o principal veículo pelo qual o antissemitismo se tornou proeminente no clima nacional alemão, constituindo a base da política estatal genocida. Daniel Barenboim, uma das figuras judaicas mais proeminentes da música clássica na Alemanha e diretor musical da Ópera de Berlim, escreveu que Wagner não pode ser considerado “responsável pelo uso e abuso de sua música e visão de mundo por Hitler”. Ele não quis conceder entrevista, mas, em um artigo em seu site, descreve Wagner como “um antissemita virulento da pior espécie, cujas declarações são imperdoáveis”.

Nesse artigo, Barenboim, que regerá um novo Der Ring des Nibelungen em Berlim no mês de outubro, pergunta: por que permitir que Hitler tenha a última palavra sobre Wagner se tantos artistas judeus – cantores, maestros, diretores – fizeram carreira a partir da obra do compositor? Se sua obra inspirou tantos compositores judeus? Esse mesmo ensaio começa com uma meditação sobre a cena da tempestade que abre a ópera de Wagner Die Walküre: Barenboim expõe a estrutura precisa, quase matemática, com a qual Wagner esboça a sensação de se estar em uma floresta sob tempestade de neve e as emoções de um forasteiro em fuga. As frases se incham e retrocedem antes de uma explosão nos sopros e metais e um rufar abrupto dos tímpanos. Na plateia, seu coração salta. Estas são as técnicas pelas quais Wagner manipula a emoção – na escala de uma frase, uma melodia, uma ópera ou uma nação.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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