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O papa nomeia para chefiar a Congregação da Doutrina da Fé o teólogo Gerhard Ludwig Müller, nascido na Alemanha como ele e simpático à Teologia da Libertação

THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h08

RACHEL DONADIOO papa Bento XVI nomeou um colega teólogo alemão, o bispo Gerhard Ludwig Müller, para chefiar o escritório doutrinal do Vaticano responsável pela aplicação da ortodoxia, segundo uma declaração do Vaticano emitida na segunda-feira.

Como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Müller, de 64 anos, de Regensburg, Alemanha, terá de supervisionar também uma investigação corrente sobre o trabalho de justiça social de freiras nos Estados Unidos e o tratamento dos casos de abuso sexual por clérigos. Ele foi simultaneamente promovido a arcebispo.

Müller substitui o cardeal William J. Levada, de 76 anos, o americano de posição mais elevada na hierarquia do Vaticano, que está se aposentando após ocupar o cargo desde 2005. Durante seu comando, a Congregação emitiu uma severa censura à Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, o grupo central de coordenação de freiras americanas, e enfrentou um ressurgimento de acusações de abusos sexuais clericais em 2010.

Especialistas em Vaticano disseram que a nomeação de Müller mostra que Bento XVI, de 85 anos, está tentando forjar um núcleo de conselheiros leais e teologicamente orientados no momento em que enfrenta um escândalo sobre documentos vazados que revelou dissensões e desordens dentro da hierarquia vaticana. O mordomo do papa, Paolo Gabriele, foi preso em maio, sob acusação de posse ilegal de documentos secretos.

"O cardeal Levada foi mais um executor, mas Müller, pela própria formação e experiência teológica, está mais sintonizado com Ratzinger", disse Sandro Magister, especialista em Vaticano, referindo-se ao papa, o ex-cardeal Joseph Ratzinger, que comandou a Congregação para a Doutrina da Fé por 25 anos antes de se tornar pontífice.

Magister disse que Müller faz parte de um "pequeno núcleo" de cardeais em quem o papa poder ter absoluta confiança, entre os quais o cardeal canadense Marc Quellet, que chefia a Congregação dos Bispos, e o cardeal suíço Kurt Koch, que dirige o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. "Na Cúria Romana, eles podem ter papel importante na tomada de decisões", disse Magister.

Amigo de longa data do papa, Müller supervisiona o Instituto Bento XVI, que está publicando as Obras Reunidas de Joseph Ratzinger, em 16 volumes, um sinal da dedicação do religioso a Bento.

Embora ainda seja um teólogo ortodoxo, ele é mais conhecido por sua simpatia pela Teologia da Libertação, um movimento que cresceu na América Latina nos anos 1980 e que Bento XVI, quando chefiou a Congregação para a Doutrina da Fé, criticou duramente por suas inclinações marxistas. Müller foi coautor de um livro com o reverendo Gustavo Gutierrez, o padre peruano considerado o fundador da Teologia da Libertação.

Foi Müller quem hospedou o papa durante sua visita em 2006 a Regensburg, onde Bento fez um discurso que ofendeu muçulmanos ao citar um imperador bizantino do século 14 que associou o Islã à violência.

Em seu novo cargo, o arcebispo, que supervisionou as conversações teológicas do Vaticano com os luteranos, também será responsável por supervisionar as conversações com a Sociedade de São Pio X, um grupo que rachou com o vaticano em protesto contra as reformas liberalizantes do Concílio Vaticano II nos anos 1960.

Três anos após Bento XVI provocar repúdio internacional ao revogar a excomunhão do grupo (um de seus membros havia negado a dimensão do Holocausto), as conversações entraram num impasse. No mês passado, Bento XVI propôs conceder ao grupo um status especial caso seus membros aceitassem ficar em plena comunhão com Roma - o que requereria que eles aceitassem os ensinamentos do Concílio Vaticano II - mas o líder do grupo recusou. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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