Carlos Colombo/Divulgação
Carlos Colombo/Divulgação

Alembrando de você

Nadir melhorou de saúde, mas as finanças, não. Tinoco precisa continuar na estrada

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h36

- Óia, vou trazer uma menina procês. Será aquela loira, como é o nome? A Madonna? Né, não, gente. Não é a Madonna. É a Nadir.

Então Nadir, com um nó no peito e cicatrizes no ventre, se achegou ao marido. Era a primeira vez, em oito meses, que ela voltava a acompanhar Tinoco nos eventos. Tivera alta da químio e da radioterapia, alta na condicional, mas a poeira coçou no sapato. Tendo o filho como chofer, a família Perez pegou a estrada. E agora os dois, marido e mulher, quase sangue do mesmo sangue, violas do mesmo saco, dividiam o palco com a Orquestra Filarmônica de Violas, em Campinas.

O filho, Zé Carlos, foi para a mesa de som. De lá controlava o ponto do pai na orelha direita. A esquerda está mouca. "Muitos anos de palco, some o tímpano", explicava Tinoco ao diretor musical da orquestra, Ivan Vilela, um pouco antes do espetáculo. A resposta do diretor e também maestro, Tinoco fez que ouviu, mas não ouviu. Continuou com o sorriso arregaçado no rosto, porque artista tem que parecer "normar", sem cara feia, de suor e sofrimento.

Na plateia do Centro de Convivência, a maioria das 500 pessoas sabia que a vida dera um pinote em Tinoco e Nadir no último ano. Um câncer de pâncreas, que começou como um nódulo no primeiro médico e virou um tumor considerável no sexto, derrubou a menina de 71 anos e as economias da casa. O plano de saúde cobriu algumas consultas, mas não a cirurgia nem os remédios, que custavam cerca de R$ 6.500 por dia. Tinoco vendeu terreno, um dos carros, criou uma rifa para um segundo e foi para a TV pedir trabalho. Depois de 18 dias, encontraram o medicamento fornecido pelo governo, mas ficou um rabo grande de dívidas para capar.

Tinoco passou a fazer de duas a três apresentações por fim de semana, sempre com uma humildade de raiz. Aceita animar festa de casamento, aniversário de 1 ano de criança, batizado, show em churrascaria. O concerto em Campina, que ele pronuncia no singular, foi uma homenagem mais à altura do seu porte e do porte do seu irmão Tonico, com quem Tinoco fez dupla por mais de 50 anos. Os violeiros, alguns recém-formados pela USP de Ribeirão Preto no primeiro curso de viola caipira do mundo, tocaram sucessos como O Menino da Porteira, Rio de Lágrimas, Tristeza do Jeca e Luar do Sertão. Dessas, Tonico e Tinoco foram grandes intérpretes. Das várias em que assinaram a autoria, Tinoco recebe R$ 2 mil a cada trimestre.

Zé Carlos, o filho e também empresário dos pais (Nadir também compõe), parece sugado pelo cansaço e pela falta de reconhecimento de uma obra que engloba 220 discos de 78 rotações, 80 LPs e 5 CDs inéditos. "Saía caminhão pelo Brasil que nem os de puxar soja com os nossos disco de 78 rotação, o pessoar comprava dois ou três de uma vez só, quebrava muito fácil", lembra o pai. Ou seja, parece que ninguém sabe ao certo quantos caminhões de cópias foram gravados, muito menos quantos foram vendidos.

Tonico e Tinoco começaram como irmãos Perez, em São Manuel, a cerca de 260 quilômetros da capital. Arranhavam uma violinha feita por um bugre, viola que o pai trocou por quatro frangos. A casa deles tinha um jeitão de oca quadriculada. Dentro se amontoavam, por ordem de envelhecimento, seu Salvador, dona Maria, Jesus, João, José, Aparecida, Antônia, Francisca e mais três meninas de nome pagão. Tonico era o João e Tinoco, o José. O mais velho se assemelhava ao pai, imigrante espanhol de zóio azul, que aprendeu a falar e cantar em italiano para arranjar emprego mais fácil. "O povo achava que espanhol era muito bravo", conta José, o mais moreno, que puxou à mãe, "índia, raça negra". Cafuza, enfim.

Pois ficaram os dois desafinando e se afinando na violinha encardida ao som de canções como as de Cornélio Pires. Tonico passou a inventar as suas, sem saber que isso se chamava composição. Sem relógio nem "foinha", aliás, mediam a vida pela natureza. "Hoje esse povo diz que toca música sertaneja e nem sabe como nasce um abacate", comentou Tonico certa ocasião, cutucando com vara longa as duplas atuais.

Os bailinhos ficaram pequenos para a ambição dos irmãos, que se mudaram para São Paulo em 1941. Tonico foi trabalhar em um depósito de ferro velho, Tinoco carpia chácaras no bairro de Santo Amaro. Alguém os inscreveu em um concurso de duplas sertanejas na Rádio Difusora, mais exatamente no programa Arraial da Curva Torta, pilotado por Capitão Furtado. Foram tão aplaudidos quando cantaram Adeus, Campina da Serra, de Raul Torres e Florêncio, que não deu outra: primeiro lugar e um contrato com a rádio. Na vez seguinte, Capitão Furtado comentou que cantavam tão caipira, tão bonito, que Irmãos Perez não combinava... Por que você não se chama Tonico, e apontou para João. Tonico falou: "Gostei". E você, Tinoco. "Já chamei."

Em 1944, sob convite da Continental, partiram para o primeiro disco, em 78 rotações. A música? Invés de me Agradar, do Capitão Furtado, em parceria com Jaime Martins e Aimoré. No estúdio, diante de um único microfone para os dois e para o conjunto, receberam um alerta: melhor não errar; caso contrário, estragariam a matriz de cera e ia tudo por água abaixo. Foi acender a luz vermelha para eles soltarem um agudo tão alto que o microfone estourou. Restou-lhes apenas uma face do disco. Na outra entrou uma música bem-humorada de Palmeira e Piraci.

Em suas pesquisas sobre a história social da música caipira, Ivan Vilela associa o timbre agudo de certas duplas a sua origem indígena. Há quem o ligue a uma matriz espanhola, donde Tonico e Tinoco não têm por onde escapar. O mais novo ainda se orgulha de fazer as duas vozes depois que o irmão morreu, em 15 de agosto de 1994, após cair no hall de entrada do prédio onde os dois moravam, no mesmo andar, no bairro fabril da Mooca. O laudo do IML afirma que Tonico morreu de traumatismo craniano. Tinoco diz que vértebras perfuraram fatalmente seu único pulmão. O outro ele perdeu para a tuberculose no final dos anos 60.

Tinoco esperava o irmão em Jaú, onde estava programado um show. Cantou naquele, no velório do irmão (a escolhida foi Chico Mineiro, de Tonico e Francisco Ribeiro) e em mais 30 shows, sozinho. "Era mais lágrima que voz." Até tentou outra parceria, mas a sincronicidade fraterna inviabilizava novas unidades. "Talvez por serem irmãos, tinham uma sonoridade muito parecida", afirma Vilela. Tinoco continuou soltando a voz, ainda que em play-backs nos últimos tempos, mesmo porque era o mais falante dos dois. E o mais pavão.

Na última quarta-feira, em Campinas, estava discreto. Em vez do terno amarelo-ovo, vestia um azul-marinho, com o lenço do bolso combinando com a gravata carmim. Na cintura, uma fivela com Nossa Senhora Aparecida. Na lapela, um tercinho. Cheirava a Azzaro e, quando levantava a mão macia e sem sinal de roça, fazia reluzir os cinco anéis dourados distribuídos no mindinho, no indicador e no pai de todos, as unhas pintadas com base incolor. "Gosto de me arrumar bem, perfumar, usar joia pra mim."

Não se movimenta muito no palco porque, segundo ele, nasceu com os dedos no calcanhar. Seu Salvador, curador da aldeia, fazedor de partos, benzedor oficial, quebrou as falanges do filho e amarrou tudo com umas tábuas, mas a movimentação ficou um tanto prejudicada com a idade. "Se eu dançar aqui, eu caio", avisou à audiência. Aos 88 anos, de mãos dadas com Nadir, com quem está casado há 57 em segundas núpcias, contou como o pai dela reagiu ao saber que a filha, então com 14, se engraçava com um artista: "Comprou um revórver novo, que era pra num faiá".

- Mas, pai, o senhor não sabe quem é o Tonico e quem é o Tinoco, gritou Nadir.

- Eu vou lá na Rádio Nacional e mato os dois.

Para não acabar com a dupla, Tinoco tirou Nadir de casa e comprou o revólver do sogro. Pagou bem, aliás, porque dá muito valor à própria vida.

O sogro não era o único a ficar em dúvida sobre a identidade deles. Muitos fãs, e filhos de filhos de fãs, ainda o chamam de Tonico, ou de Tonico e Tinoco, quase com hífen. Ele não se importa, até fala como se o irmão estivesse com o violão do lado. Avisa que tem DVD lá fora para vender. É do show que ele deu em 2006 com Mazinho Quevedo, cantor de Adamantina, no Teatro Municipal de Ribeirão Preto. O material foi produzido pela EPTV e eles vira e mexe passam em Campinas para pegar uma leva e oferecer na saída dos eventos a R$ 30 cada.

- Vou ficar na mesa para tirar foto e dar autógrafo. Hoje eu tô em promoção. Muito obrigado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.