Calder Foundation
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Alexander Calder, o escultor que modelava o tempo

Exposição coloca em retrospectiva a obra de Celder, amigo de Duchamp que fazia esculturas móveis

The Economist, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2017 | 16h00

Alexander Calder (1898-1976), inventor dessas delicadas e flutuantes estruturas de arame e metal também conhecidas como “móbiles”, não foi o primeiro escultor moderno a pôr suas obras em movimento. A honra talvez pertença a seu amigo Marcel Duchamp, que em 1913 equilibrou uma roda de bicicleta numa banqueta e chamou a coisa de arte. 

O fato, porém, é que desde muito antes o movimento já era alvo do interesse dos escultores, fosse em procissões medievais, em que as estátuas dos santos eram carregadas pelas ruas, ou nas obras barrocas de Gian Lorenzo Bernini, cujas composições espiraladas convidavam o espectador a se deslocar a seu redor de maneira a apreciar o desdobramento de sua formas no tempo e no espaço. 

A escultura é um meio essencialmente participativo, mais próximo do mundo real e animado que a pintura. Mas nenhum escultor incorporou a quarta dimensão com a inteligência, a dedicação e o humor sagaz de Calder.

Calder: Hipermobilidade, em cartaz no Whitney Museum de Nova York até 23 de outubro, reconstrói a investigação de formas em movimento a que o artista americano se devotou ao longo da carreira. 

Estão presentes na exposição muitos de seus móbiles mais conhecidos, como Hanging Spider (Aranha Suspensa), uma filigrana etérea, toda em preto, dançando em correntes ondulantes, e Blizzard (Nevasca), que captura em arame e metal os sutis efeitos atmosféricos de uma tempestade de inverno.

A surpresa fica por conta das esculturas motorizadas e experimentais que precedem essas peças clássicas. Antes de ter a brilhante ideia de introduzir movimento nas obras por meio de correntes de ar ou de um pequeno toque, Calder recorria ao não tão elegante expediente de ativar suas esculturas com motorzinhos precários. 

São engenhocas desengonçadas, embebidas em irreverência dadaísta e espírito lúdico. Na obra Two Spheres (Duas Esferas), veem-se duas pequenas bolas brancas contra um painel preto, uma delas perfazendo lentamente um círculo, enquanto a outra se desloca para cima e para baixo — formas e movimentos simples, que beiram a banalidade. 

Mas esses elementos infantis escondem uma revolução e uma revelação: a demonstração de que a imaterialidade do tempo pode ser evocada por meio da mais material das formas.

A obra de Calder constitui elo fundamental entre a abstração do alto modernismo e a arte performática e a videoarte de hoje. 

Mesmo suas peças mais estáticas transformam o ato de ver numa experiência coreográfica e aberta. A exposição em cartaz no Whitney Museum dá destaque a esse aspecto não apenas com a utilização de um “ativador” — instalado na galeria para dar uma “cutucadinha” nos móbiles de tempos em tempos —, mas também convidando músicos, dançarinos e outros performers contemporâneos a apresentar trabalhos inspirados nas esculturas.

O fascínio que Calder tinha por experiências alternativas se estendia ao elemento sonoro, como se percebe em Red Disc and Gong (Disco Vermelho e Gongo), móbile em que uma baqueta, impulsionada por variações nas correntes de ar, faz soar um gongo a intervalos imprevisíveis, criando uma música minimalista que antecipa a indeterminação das composições de John Cage. Por meio de um recurso tão econômico, o escultor amplia enormemente o alcance expressivo de seu meio.

Com o passar do tempo, a reputação de Calder acabou sendo prejudicada por sua fama. Suas obras por vezes parecem convencionais demais, buscando o aplauso fácil do público, adequando-se à decoração dos edifícios corporativos e dos quartos dos bebês. 

Na exposição Calder: Hipermobilidade o espectador encontra um artista não menos encantador do que aquele que habita o imaginário coletivo, mas também se depara com um escultor pioneiro e inovador, que transformou profundamente uma prática antiquíssima... / Tradução de Alexandre Hubner

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