Algo de podre na Wikipédia

Fundador da enciclopédia livre é acusado de manipular verbetes

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2008 | 22h57

Nas duas últimas semanas, pesadas acusações recaíram sobre Jimmy Wales, fundador da Wikipédia. Ele teria reescrito de forma elogiosa os verbetes biográficos a respeito de duas pessoas. Primeiro, o de uma ex-namorada, a jornalista conservadora Rachel Marsden; depois, o de Jeff Merkey, um cientista envolvido numa disputa judicial com a empresa na qual trabalhou, Novell. Segundo o próprio Merkey, ele fez uma doação em dinheiro à fundação que mantém a Wikipédia para garantir um perfil favorável.O site é um dos mais populares da internet, o nono mais visitado do mundo segundo o ranking Alexa.com. É conhecido como "a enciclopédia livre" porque qualquer um pode escrever ou alterar verbetes, seguindo o princípio de que o processo colaborativo levará a resultados mais precisos e informação confiável. As várias edições da Wikipédia, concentradas no endereço wikipedia.org, se espalham por 253 línguas e dialetos e mais de 9 milhões de verbetes.Por se tratar do maior experimento com produção colaborativa de conteúdo da internet, precisão e confiabilidade são temas caros aos defensores da enciclopédia livre. Por isso, as acusações foram muito mal recebidas pela comunidade.Wales e Rachel Marsden se conheceram quando ela, então comentarista do canal a cabo de direita FoxNews, o procurou querendo reparar alguns dados no verbete a seu respeito. É política da Wikipédia que verbetes particularmente polêmicos, como é o caso daquele que trata do conflito entre Israel e Palestina, só sejam modificados por um corpo de editores especiais. Após o início do romance de ambos, Wales estendeu proteção similar à biografia online dela.A Wikipédia é gerida pela Fundação Wikimedia, uma entidade sem fins lucrativos. A acusação de que há favorecimento e talvez até chantagem chega em um momento tenso. Todos os dias são consultadas 300 milhões de páginas da enciclopédia, o que exige muita banda de acesso e centenas de servidores. Não vêm sem custo: US$ 4,6 milhões anuais que são angariados em campanhas de doações voluntárias. Metade do dinheiro vem de alguns milhares de pessoas simpáticas à causa, que oferecem uma média de US$ 33 dólares cada; a outra parte cabe a alguns grandes doadores, como o vocalista do U2, Bono Vox.Apesar das pressões financeiras, a sede da enciclopédia acaba de ser transferida do interior da Flórida para São Francisco, na Califórnia, um dos metros quadrados mais caros dos EUA. Assim, fica mais próxima do Vale do Silício, centro da internet americana. Mas a mudança não veio sem críticas. Os hábitos caros de Jimmy Wales, em alguns casos descontados nas contas da fundação, também não colaboram.Entre os dez portais mais visitados da internet, além da Wikipédia, o primeiro é o Yahoo!, três pertencem ao Google, dois à Microsoft e os últimos três são sites de relacionamento nos moldes do Orkut. Com exceção da Wikipédia, todos são comerciais e rentáveis. Nos últimos anos, a receita publicitária na internet americana vem batendo recordes.A Wikipédia, no entanto, não funciona de acordo com as regras de mercado. É uma comunidade de editores que participam das discussões a respeito de como deve ser conduzida. A idéia de publicidade que possa contribuir para os custos de infra-estrutura é impopular. É nesse contexto que chegam as acusações de que Wales vinha manipulando verbetes em troca de favores, fossem românticos ou na forma de dinheiro angariado para a fundação.No ranking dos dez mais da rede, entre sites de relacionamento e mecanismos de busca, a Wikipédia é o único dedicado a informação. Jogue no Google algumas palavras e, muito provavelmente, um link para a Wikipédia estará listado entre os primeiros resultados.Hoje, anúncios patrocinados do Google espalharam-se por toda a internet. De pequenos blogs a grandes portais, as caixinhas de propaganda que têm escrito no pé "Anúncios Google" estão por toda parte. O maior site de buscas da rede é também o maior gerenciador de propaganda. É o maior negócio da internet.A situação armada é: nenhum portal é mais alimentado com visitantes pelo Google do que a enciclopédia livre. E, uma vez que envia um leitor para lá, o Google não ganha nada com isso. A enciclopédia não quer propaganda e o problema torna-se comercial.Por conta, o Google anunciou em dezembro o lançamento do projeto Knol. É uma enciclopédia, também, mas não colaborativa. Especialistas serão convidados a escrever sobre seus temas de interesse. O Google armazenará os verbetes e os autores serão remunerados pelo sistema de publicidade do portal. Quem for mais lido ganhará mais. É uma tentativa de desviar o fluxo de leitores que hoje procuram a Wikipédia. Como todos os artigos serão assinados, é também um ataque direto à idéia de que o "conteúdo colaborativo" que municia a enciclopédia livre de informação é eficaz.Em meio à disputa por um negócio potencialmente bilionário há um novo fenômeno no Vale do Silício. É a imprensa de fofocas. Empreendedores da alta tecnologia costumavam servir de assunto para jornalistas de negócios e de comportamento. Nos últimos meses, os novos ricos da internet têm visto seus casamentos, as aquisições de suas novas mansões e seus casos românticos servirem de tema jornalístico.Quando Jimmy Wales rompeu com a namorada por meio de uma mensagem pública no site destinado aos editores da Wikipédia sem avisá-la antes, atraiu a atenção dessa nova imprensa do Vale. Quando Rachel Marsden respondeu vingativa pondo à venda num leilão da internet as roupas que ele tinha deixado em sua casa, a história ficou melhor para os mexeriqueiros mais ávidos.O que ninguém esperava é que, de uma briga corriqueira entre ex-namorados, denúncias bem mais sérias pudessem surgir no exato momento em que chegava a declaração de guerra do Google.

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