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Algoritmos se provam prejudiciais nas produções mais recentes da Netflix

'Black Mirror: Bandersnatch' e 'Bird Box' são filmes opostos, um interativo e o outro manipulativo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2019 | 16h00

O futuro do cinema, dizem, é o streaming. 

Não, não. O futuro do cinema não é o streaming, é o streaming interativo. Além de ver o filme na hora em que quiser, você poderá manipular a trama, optando por desvios e desfechos postos à sua disposição. Isso já existe, só falta torná-lo corrente. Netflix saiu na frente, com Black Mirror: Bandersnatch, especial da série para tapar o buraco entre a quarta e a quinta temporada.

Ora, direis, isso é mais videogame do que cinema. Que seja. 

Há quem goste e mesmo lamente que não tenham inventado os recursos envolvidos nessa intromissão na narrativa há bastante tempo, ainda nos idos analógicos, para que pudéssemos ter alterado pelo menos o final de Bambi e o de Casablanca.

Dispenso a deferência. Casablanca, a meu ver, termina como devia terminar, e ponto final; e Bambi simplesmente não deveria ter sido feito.

E Shane? Deveria ter ficado em Jackson Hole ou não? Sam, o marido defunto de Ghost, deveria ter voltado fisicamente do outro lado da vida? Bobagem. Opções sentimentaloides e ociosas; o conceito de “obra aberta” infantilizado pela indústria de filmes, sempre à cata de gimmicks e prodígios tecnológicos. R.I.P., Cinerama, 3-D, Smell-O-Vision. 

Agora a interatividade. Reconheça-se o esforço pioneiro do picareta William Castle, que em 1961, depois de apelar para mil e um truques sensacionalistas em suas produções (poltronas que davam choque na plateia, esqueletos que, puxados por um fio, tiravam rasantes nos espectadores), distribuiu cartões à entrada das salas que exibiam A Máscara do Horror, com duas opções de desfecho à escolha do freguês; a mais votada encerrava a fita.

Bandersnatch é uma experiência lúdica, só exequível com os recursos da informática e seus portentos digitais—“um filme meta”, na definição de seus idealizadores. Meta, de metalinguagem. 

Jovem programador de videogames, Stefan (Fionn Whitehead)  espreme o cérebro para criar um jogo inspirado num romance de aventuras que ganhou de presente em criança. Quebra a cara, mesmo com a colaboração dos espectadores, que têm à disposição inúmeras variantes para os dramas pessoais do rapaz; alternativas do tipo “derruba o leite no teclado ou quebra o computador?”, “briga com o pai e sai de casa ou mata o pai?”. Cada uma delas nos desvia para novos rumos e outras bifurcações. 

Oficialmente, há cinco desfechos diferentes, mas nem todo espectador pode desbloquear os finais programados, adverte Charlie Brooker, criador da série Black Mirror e autor do roteiro. O mais comumente alcançado (ou escolhido) pelos espectadores é o que envolve Pearl, filha de Colin Ritman (Will Pouler), afamado programador de jogos que funciona como mentor do protagonista. Pearl também perde o controle da narrativa quando pega o jogo no ponto em que o pai deixara e tenta finalizá-lo para o Netflix. Muito “meta” isso. E tolo.

Dois anos foram gastos na confecção do filme, que além da imaginação de Brooker e comparsas contou com os préstimos de uma ferramenta chamada Branch Manager, espécie de gerenciador de ramificações que expande em múltiplas direções o mapa de ações e digressões de qualquer script. Foi especialmente criado para o Netflix e doravante será utilizado em todas as suas produções interativas.

Qual seria o oposto de um filme interativo? Um filme manipulativo, concebido e articulado por inteiro a partir de um banco de dados e algoritmos, mix de clichês, estereótipos e situações previsíveis, um espetáculo dosado “cientificamente” para agradar as mais variadas clientelas. Tal mercadoria o Netflix também desandou a manufaturar. 

Netflix oxigenou a indústria ao investir em tipos e histórias habitualmente descartados por “falta de público” pelos mandarins de Hollywood, como Black Mirror e Orange is the New Black. Seu maior streamingbuster, contudo, o recém-lançado Bird Box (45 milhões de reproduções na primeira semana), é tão intoxicado de chavões que nada o diferencia de uma corriqueira aventura mulher alfa de Sandra Bullock para exibição nos cinemas. 

Com o filão de desastres naturais quase totalmente esgotado, o cinema apocalíptico começou a investir em flagelos sensoriais. Em Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), lançado no ano passado, era uma estranha força alienígena que se orientava pelo som para abater suas vítimas. Em Bird Box, o sentido reprimido não é mais a fala, mas a visão: as pessoas tornam-se suicidas quando avistam algo misteriosmente invisível ou transformado em luz. E o único jeito de sobreviver é sair sempre ao ar livre com os olhos fechados ou vendados, locomover-se como um cego.

Unidos pelo pânico, cerca de dez estereótipos programados por algoritmos para atrair o maior número de minorias possível (de uma policial latina a um gay asiático) transformam a casa de um artesão num microcosmo similar a tantos outros, desde, pelo menos, Stagecoach, de John Ford. É nesse refúgio que Malorie (Bullock) vai parar com dois filhos pequenos—um legítimo, outro adotado, claro; um menino e uma menina, óbvio. 

Malorie é uma Mãe Coragem que foge do “tempo das diligências” para enfrentar, de olhos vendados, uma corredeira do “rio das almas perdidas” e chegar a um sucedâneo californiano de Xangri-lá, um “paraíso perdido” habitado por cegos. O coquetel Brecht-Guy de Maupassant-Ford-Preminger-James Hilton-Capra é um porre de lugares-comuns, implausibilidades e incongruências. A crítica Jennifer Vineyard deu-se à pachorra de preencher todos os furos do filme, no New York Times da última terça-feira, e também concluiu que algoritmos mais atrapalham do que ajudam a confecção de um roteiro.

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