ARASH KHAMOOSHI/THE NEW YORK TIME
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Alma persa

Ler o poeta Rumi, o Shakespeare do idioma farsi, pode ser o primeiro passo para demolir os estereótipos desumanizantes do Irã

Ariel Dorfman, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2015 | 16h00

O acordo para limitar o programa nuclear do Irã é uma vitória para a paz mundial e um êxito para a diplomacia numa era de beligerância, guerras constantes e uma polarização crescente e insana.

Claro que muitas pessoas, especialmente no Congresso americano, já anunciaram que se oporão a esse acordo. Presos a preconceitos vetustos, esses indivíduos são incapazes de se libertar do passado. O problema fundamental que os aflige e também seus seguidores, tanto nos Estados Unidos como no estrangeiro, sobretudo em Israel, é a desconfiança dos inimigos iranianos.

Como superar esse medo histórico e profundo entre dois povos?

A diplomacia comum não basta. Esta é uma ocasião única para adotar um outro tipo de diplomacia, que poderíamos chamar de literária. Para amainar as suspeitas do Irã a melhor coisa é penetrarmos nas fontes mais perenes da identidade persa. E a maneira mais eficaz de empreender essa viagem cultural para uma civilização que antecedeu a ocidental em vários séculos é, na minha opinião, através de Rumi, o inimitável poeta sufi que nasceu em 1207.

Todos os iranianos guardam em seu coração aqueles versos luminosos, lascivos, místicos, escritos em farsi, do mesmo modo que Shakespeare é parte da alma daqueles que falam o inglês, ou Cervantes para nós, de língua espanhola.

Ler, mesmo que seja uma pequena seleção das graciosas odes que Rumi dedicou a seu grande amigo e a Deus, pode começar a demolir os estereótipos desumanizantes que nos cegam e nos separam hoje dos homens e mulheres comuns de Teerã, como também pôr fim às mesmas apreensões que os negociadores em Genebra tiveram de superar para solucionar o que parecia um problema insolúvel. De fato, talvez eles tenham se lembrado de Rumi quando as posições pareciam irreconciliáveis, talvez tenham deixado que o grande poeta os guiasse secretamente com as palavras milenares: “o vinho que Deus ama é a honestidade humana”.

Além disso, Rumi tem mensagens para os dois povos, o americano e o iraniano, sobre como reagir diante desse acordo que evitará a produção de mais armas de destruição em massa. Escutem um dos homens mais sábios e generosos que pisou na terra ao falar sobre a segurança: “Deixem de desejar o que têm os outros seres humanos”, disse o poeta, acrescentando:

“É o único caminho para uma pessoa sentir-se segura”.

“Onde e como posso sentir-me seguro”, você pergunta.

“Este não é um dia para fazer esse tipo de pergunta.”

E aqueles que temem que os termos do acordo recém-firmado sejam inverificáveis também fariam bem em escutar Rumi: “Não deixem que a vossa garganta se contraia com o medo”.

Os negociadores que elaboraram o acordo utilizaram uma vez ou outra a palavra inglesa breakthrough para caracterizá-lo. Esse termo significa êxito e avanço, mas o que ele contém, de modo mais significativo, é a noção de que, para chegar a uma condição nova é imprescindível romper todos os tipos de rigidez que nos paralisam, ir além daquilo que éramos ontem. E Rumi, na verdade, é particularmente valioso como especialista em rupturas, alguém que canta contra a complacência que mata e sufoca. É dele a sagacidade que precisamos ter quando enfrentamos uma situação ameaçadora e nova. Esse homem tão espiritual entendeu que as mudanças mais transcendentais, tanto no caso dos povos como no dos indivíduos, exigem que alguma parte do nosso ser anterior seja destruída. Temos de deixar para trás aquilo em que acreditamos para atingir um estágio humano superior.

Diz Rumi: “Bailem quando estiverem destroçados/ Bailem quando retirarem sua venda violentamente/ Bailem quando se encontrarem no meio da luta”.

Há muitos séculos este místico nos legou esses versos e eles continuam tão atuais como antes. “Assim, digam e continuem dizendo, teremos caído no lugar/ Onde tudo é música.”

Trará este acordo nuclear mais concórdia e paz para nosso atribulado planeta?

Esperemos, com Rumi morto e contudo tão vivo, que assim seja. Mas enquanto isso, se bailarmos com suas palavras eternas, poderemos talvez levar um pouco de paz para as almas atribuladas da nossa vasta e dividida humanidade.

É importante ouvir Rumi quando ele diz: “Aposte tudo o que possui para alcançar o amor/Aposte tudo/ Se você for um ser humano de verdade”.

/TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

ARIEL DORFMAN É ESCRITOR CHILENO. SEU NOVO ROMANCE, ALLEGRO, ESTÁ NO PRELO

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