'Almas Mortas' é reeditado e demonstra a nostalgia bucólica de Gogol

'Almas Mortas' é reeditado e demonstra a nostalgia bucólica de Gogol

Ensaio de Donald Fanger apresenta a nova edição brasileira do romance russo

Flávio Ricardo Vassoler*, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2018 | 16h00

A nova edição de Almas Mortas (Editora 34, tradução de Rubens Figueiredo), do escritor russo de origem ucraniana Nikolai Gogol (1809-1852), nos apresenta o ensaio Almas Mortas: O Espelho e a Estrada, de Donald Fanger, professor emérito da Universidade de Harvard e autor do livro The Creation of Nikolai Gogol. Para além do romance – ou melhor, do “poema”, como Gogol o denominou – ao longo do qual Tchítchikov e os proprietários de terras são os principais personagens e exemplares do caráter russo e ao princípio do qual Tchítchikov toma posse do seu capital ambíguo, que consiste apenas de palavras num pedaço de papel – as listas penhoráveis dos servos mortos (as almas mortas) que ele comprou –, Fanger considera que “o enredo é engolido pelos retratos e inundado pelos detalhes. (...) O romance escapa para a paisagem de beira de estrada ou para o doméstico; as propriedades rurais e seus donos são países, ilhas em meio ao oceano; cada casa é desenhada como um ambiente autodelimitado, com seu colorido local, específico; como é adequado em uma viagem, o princípio geográfico vem à dianteira, sendo o personagem representado fundamentalmente como um relevo que se ergue da paisagem. (...) O poema converge no conceito espacial de um panorama; a prosa se torna um atributo da terra.” 

+Romance de Anton Tchekhov não poupa críticas à sociedade russa

+Pesquisador brasileiro oferece interpretação alternativa de Dostoievski

É como se Almas Mortas, cuja trajetória narrativa começa e termina na estrada, compusesse um mosaico de soslaios nômades de Tchítchikov; é como se, ao invés de lançar o olhar como uma rede para a geografia múltipla da Rússia, a fenomenologia da paisagem abarcasse a própria estrada narrativa, de modo a transformar a sensibilidade de Tchítchikov em um anteparo para as impressões (as muitas veredas) que vão se sobrepondo com profunda beleza. Vejamos, então, o que o narrador gogoliano – o andarilho do olhar – nos diz: “Assim que a cidade ficou para trás, logo se desenharam, de ambos os lados da estrada, as bagatelas a que estamos acostumados: morrinhos, bosques de abetos, arbustos baixotes de pinheiros jovens e raquíticos, troncos queimados de pinheiros velhos, matagal bravo e outros disparates semelhantes. Apareceram vilarejos que se estendiam como cadarços, construídos como se fossem antigos montes de lenha, cobertos por telhados cinzentos, abaixo dos quais havia ornatos de madeira entalhados nos beirais, que acabavam parecendo toalhas bordadas pendentes. Alguns mujiques, como de hábito, bocejavam, sentados em bancos diante dos portões, em seus casacos de pele de carneiro. Camponesas, de cara gorda e peitos enfaixados, olhavam pelas janelas do primeiro andar; nas janelas da parte de baixo, um bezerro espiava ou um porco punha para fora seu focinho cego.” 

À diferença de um Fiodor Dostoievski (1821-1881), cujas obras são vistas pela fortuna crítica como um paisagismo dos estados convulsos e escatológicos da alma, Nikolai Gogol verte suas almas mortas para o caráter vivaz e telúrico da Rússia profunda, trazendo à tona um mosaico folclórico de que os leitores citadinos à época do capitalismo nascente (primeira metade do século 19) começavam a se apartar. Um espectro de nostalgia bucólica ronda o romance de Gogol, bucolismo que a Rússia tende a comunicar ao Brasil, já que, guardadas as diferenças, ambos os países periféricos passaram por processos de modernização, êxodo rural e urbanização tardios em comparação com as nações centrais do capitalismo. É assim que Nikolai Gogol e suas Almas Mortas parecem ter dado à luz toda a nostalgia do chilreio dos pássaros, do galo da aurora e dos pés descalços sobre o orvalho matutino; do moedor de café acoplado à mesa de madeira rústica e da saudação com o chapéu de palha ao camponês que volta da lavoura (“Taaarrrde!”); do coador de pano para o café (muitas vezes, uma meia velha) e das cinzas ainda fumegantes do fogão à lenha; do doce de abóbora com cravo da bisavó e dos acordes dos grilos quando o escuro começa a despencar; do bule de café chiando e do leite quente cheio de nata na caneca de alumínio retorcido do bisavô; da bênção e do beijo de boa noite da avó antes que o sono venha sobre o travesseiro de pena de ganso (ou seria de galinha?). 

Ao fim de seu ensaio sobre Gogol, Donald Fanger cita o italiano Dante Alighieri (1265-1321), para quem os livros deveriam ser explicados para além do sentido literal de suas letras. Segundo Fanger, o poeta florentino fala sobre as dimensões alegórica (“o sentido escondido sob o manto das fábulas”), moral (“para benefício próprio e dos descendentes”) e mística (“quando um livro é espiritualmente explanado”). Sendo assim, a nostalgia bucólica de Almas Mortas alcança o estatuto de uma ontologia do tempo perdido. A ourivesaria do detalhe, em Gogol, tenta estancar o fluxo irredimível do tempo com o mosaico (e o afago) da memória, o canto fúnebre de uma Rússia que, enquanto agoniza, ainda entoa a paisagem (e a aragem) de seu passado. 

*É doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA) 

Mais conteúdo sobre:
literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.