Alô, alô, responde...

Quanto a empatia entre presidentes facilita o relacionamento de países e acrescenta ganhos à política externa

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 22h27

- Olá. Estou telefonando para me despedir de alguns amigos, como você.- Pois está com uma voz muito boa, parecendo mais leve.- É a sensação de dever cumprido. E depois de dois mandatos, o que nem todo o mundo consegue. Agora vou para o Texas, pescar e descansar. Venha me visitar quando puder. - Obrigado. Quando você se cansar do Texas e quiser pegar uns peixes grandes, venha para cá. - Yes, sir! Lembranças a Marisa. O telefonema de George W. Bush a Luiz Inácio Lula da Silva aconteceu segunda-feira, dia 19, véspera da posse do novo presidente, Barack Obama, e teve conteúdo bastante semelhante à transcrição acima. Como de praxe, cada um falou em sua língua, com tradução consecutiva. A quem quer que se pergunte em Brasília, do engajado staff presidencial à burocracia mais impessoal do Itamaraty, a improvável amizade entre o republicano identificado com a direita cristã e o fundador do maior partido de esquerda da América Latina é jurada de pés juntos. Ainda que intuitos políticos estejam por trás de tal fraternidade - como o interesse de Lula em parecer confiável aos grandes investidores e o de Bush em mostrar-se líder sensível à diplomacia Norte-Sul - é difícil negar a afinidade que existe entre os dois, "para além do que seria protocolar", nas palavras de um diplomata que testemunhou um encontro de ambos em setembro, na 63ª Assembleia-Geral das Nações Unidas. Prova disso é a chamada "diplomacia do etanol", com resultados práticos ainda por se confirmar, mas que ganhou impulso com a visita de Bush ao Brasil, em 2007. O tom pessoal e caloroso que Lula dispensa aos chefes de Estado em geral ganhava intensidade quando se tratava de Bush, conta outro alto funcionário do Itamaraty, presente a todas as conversas mantidas desde a primeira viagem do presidente brasileiro a Washington, em dezembro de 2002: "Jamais vi Lula falar com tanta franqueza com nenhum outro presidente". Sorrisos e piadas foram constantes entre os dois. Uma ocasião, logo após Lula fazer a tradicional abertura brasileira na assembleia da ONU, Bush cruzou com ele no corredor, a caminho dos microfones, e brincou: "Não vá dormir durante o meu discurso". Também o presidente Fernando Henrique Cardoso desfrutou de uma interlocução privilegiada com seu colega americano, Bill Clinton, durante dois mandatos quase coincidentes. A ponto de o brasileiro incluí-lo, em seu livro de memórias, A Arte da Política (Civilização Brasileira, 2006), entre os "dirigentes que se tornaram amigos". FHC conta que em 1998, durante as negociações para o empréstimo do Fundo Monetário Nacional ao Brasil, ouviu Clinton dizer no telefone: "Henrique (é assim que ele sempre me chamou), o que posso fazer para ajudar?"FHC e Lula foram os dois únicos presidentes brasileiros convidados a desfrutar da intimidade de Camp David, a residência de campo dos mandatários de Washington. Para o diplomata Sergio Danese, embaixador do Brasil em Argel e autor de Diplomacia Presidencial: História e Crítica (Topbooks, 1999), a atuação do chefe de Estado nas relações diplomáticas e comerciais do País atingiu seu ápice sob a batuta do príncipe dos sociólogos e do presidente-operário. A respeito de FHC, Danese afirma que o impacto de sua atuação "foi de tal ordem que gerou a impressão nítida de que se estava criando a diplomacia presidencial brasileira a partir do zero". Nas mãos de Lula, o País deixou de vez a cultura de visitas protocolares em troca de "uma diplomacia que se caracteriza pela tomada de iniciativa e pelo protagonismo nos fóruns internacionais". A relação do Brasil com os EUA estreitou-se nos últimos 14 anos - fato que se explica não apenas pela relação entre os presidentes, mas pela importância crescente que o País ganhou no cenário internacional. Trata-se, no entanto, de paixão antiga e duradoura, ainda que sujeita a seus momentos e humores. Já em 1808 o governo americano enviava representantes para visitar a família real portuguesa no Rio de Janeiro. Em 1824, os EUA foram a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil - e o imperador dom Pedro I enviou prontamente um diplomata para cuidar das relações comerciais entre os dois países. O primeiro encontro entre chefes de Estado, porém, só ocorreria mais de meio século depois, em 1876, quando dom Pedro II foi ter com o presidente Ulysses S. Grant, na abertura da Exposição Universal da Filadélfia. E, em 1917, o Brasil foi a única nação sul-americana a se aliar aos EUA na 1ª Guerra Mundial. Ainda que importantes, tais iniciativas foram isoladas e, na opinião de Sérgio Danese, a diplomacia presidencial brasileira só ganha impulso significativo durante a década e meia de governo Getúlio Vargas (1930-1945). Em 1943, já no contexto da 2ª Guerra Mundial, Getúlio teve a habilidade de aproveitar uma escala técnica do presidente Franklin Delano Roosevelt em Natal, no Rio Grande do Norte, para costurar o acordo segundo o qual os americanos financiaram a construção da primeira usina siderúrgica do País, em Volta Redonda, em troca do uso de bases militares no Nordeste. Ganhou tintas menos gloriosas, em 1947, o encontro de Harry Truman e Eurico Gaspar Dutra, um presidente tido por tão simplório e acanhado que suscitou uma piada sobre as primeiras palavras trocadas pelos dois. À saudação do americano, "How do you do, Dutra?", teria se sucedido a resposta "How tru you tru, Truman?" Maldade à parte, a diplomacia presidencial brasileira só voltaria a viver momentos de vitalidade sob Juscelino Kubitschek, que visitou os EUA no final da década de 50, quando foi recebido pelo então vice-presidente, Richard Nixon. Períodos de tensão na relação bilateral se sucederiam a partir do governo Jânio Quadros, que causou polêmica ao condecorar Ernesto Che Guevara, ministro de Cuba, na Conferência de Punta del Leste, em 1961. Após sua renúncia, a chegada de João Goulart ao poder foi recebida com suspeição pelos Estados Unidos - desconfiança que não se dissolveu após sua visita ao país, em 1962, ocasião em que foi recebido pelo presidente John Kennedy. Nos momentos que antecederam o golpe de 1964 houve intenso diálogo entre a CIA, diplomatas americanos e militares engajados no golpe. Já nos anos de chumbo, o sequestro do embaixador americano, Charles Burke Elbrick, abalou profundamente o intercâmbio entre os dois países. E a interpelação do presidente Jimmy Carter ao general Ernesto Geisel sobre a tortura nos porões da ditadura em 1978 marca definitivamente o afastamento americano do regime. Com a redemocratização, os governos José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco preparam o terreno para o estrelato internacional de FHC e Lula. Entretanto, o autor de Diplomacia Presidencial faz questão de relativizar o poder dos presidentes no processo histórico entre nações: "O diálogo no primeiro escalão ajuda, mas não muda as grandes linhas da política e da diplomacia de um país". A posse de Barack Obama essa semana aponta para a possibilidade de mais um avanço nas relações entre Brasil e EUA. Para o chanceler Celso Amorim, a despeito das boas relações com a administração Bush, há, com o democrata eleito, "uma maior afinidade em relação à visão de mundo". À falta de um intérprete, foi Amorim quem traduziu o primeiro telefonema de Obama a Lula, que visitava a Itália, em novembro. Segundo o Itamaraty, na conversa, que durou 15 minutos, o americano elogiou o papel de liderança que o Brasil tem exercido na região e em fóruns como o G-20, disse contar com a força dos emergentes na superação da crise internacional e ofereceu sua colaboração. Uma chamada a cobrar, em termos políticos.

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