Altas calorias

Exportação de carne de vacas 'sagradas' inflama eleições indianas

Paulo Nogueira*, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h07

Na Índia, a maior democracia do planeta, tudo é tamanho família, incluindo a duração das eleições: 814 milhões de indianos começaram a votar no dia 7 de abril e só vão parar em 12 de maio, depois de nove etapas sucessivas. Desta vez, o tema decisivo é o tabu das vacas sagradas - se elas devem ou não ser abatidas e exportadas. Em outras palavras, em pleno século 21 quase 1 bilhão de pessoas decidem o destino de seu país pensando na morte da bezerra.

O favorito para novo primeiro-ministro é Narendra Modi, líder do partido Janata, de índole nacionalista. Do outro lado da queda de braço está o Partido do Congresso Indiano, do atual premiê, Manmohan Singh, o primeiro não hindu a chefiar o governo de Nova Délhi. É aí que mora o perigo.

O Executivo laico de Singh promoveu como nunca a exportação de carne bovina, que em apenas quatro anos aumentou 44% e, com 4 milhões de toneladas anuais, já ameaça a primazia do Brasil no setor. Por isso, basta Modi se empoleirar em um palanque para cuspir fogo: "O Partido do Congresso prometeu uma revolução verde, mas o que entregou foi uma revolução vermelha, de tanto sangue".

A controvérsia é apenas o mais momentoso dos pepinos de ordem étnica e cultural com que se debate a nova Índia velhinha em folha - na vanguarda da ciência em diversos campos, com Bollywood produzindo mais filmes que Hollywood, crescimento econômico de 5% e uma baciada de Prêmios Nobel. Há uns anos, virou clichê a afirmação de que o Brasil era uma "Belíndia", uma estrovenga nacional em que se acotovelavam o progresso de uma Bélgica e o atraso de uma Índia. Hoje, a própria Índia é uma Belíndia.

Bons exemplos desse samba do crioulo doido em forma de país são dois episódios recentes. Há pouco mais de duas semanas, o Supremo Tribunal da Índia determinou que os transexuais são um "terceiro gênero". Assim, o governo deverá emitir passaportes e carteiras de motorista que contemplem o novo gênero, bem como introduzir a "discriminação positiva", com quotas reservadas nas universidades e no funcionalismo público. Ora, na mesma altura, uma jovem de 19 anos foi estuprada por 13 homens na província de Bengala, um "castigo" ditado pelo conselho de anciãos do vilarejo. Seu crime foi namorar um rapaz de outra tribo, de origem muçulmana. Na Índia, o abuso de mulheres é tragicamente corriqueiro - no ano passado, chocou o mundo a morte de uma jovem que foi jogada na rua de um ônibus em movimento, depois de violentada pelos passageiros.

Nesse contexto tão melindroso, é óbvio que o estatuto das vacas sagradas não se reduz a uma história para boi dormir. A proibição de sacrificar e consumir carne bovina na Índia é o que o antropólogo Marvin Harris chamou na obra clássica Good to Eat de "o mais célebre dos hábitos alimentares irracionais". Num país de 1 bilhão e 150 milhões de habitantes (que em 2035 superará a China como nação mais populosa do mundo), quase um terço da população vegeta abaixo da linha da pobreza - mais de 316 milhões de almas.

Acontece que a Índia tem também a segunda maior população bovina do globo, com 193 milhões de cabeças de Bos indicus (parente do zebu). De um quarto a metade desse rebanho é de animais doentes, inúteis e desmilinguidos, que vagueiam pelos campos ou entopem o trânsito nas cidades. Apesar da carência de proteínas, minerais, calorias e vitaminas de que padecem, os hindus se recusam a comer carne bovina. Nas ruas, é trivial a cena de pedintes exangues suplicando comida com mãos esqueléticas enquanto vacas zanzam impávidas como unicórnios.

Para os seguidores do hinduísmo - a religião dominante na Índia -, tudo que provém de uma vaca é sagrado (o corpo dela contém cerca de 330 milhões de deuses e deusas). A lei diz que um cidadão pode ser preso por incomodar uma vaca - mas também aí há contradições: existem 3.600 matadouros legais, e nada menos que 30 mil clandestinos. Enquanto o mercado brasileiro absorve 83% da produção interna de carne bovina (40 kg/ano per capita), na Índia o consumo local é de 21%.

O tabu bovino nem sempre foi um dogma hindu. No período dos vedas (povo que dominou a Índia entre 1800 e 800 a.C., fonte dos textos sagrados do hinduísmo, que representam a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia), a carne de vaca era consumida tanto quanto a picanha nos pagodes cariocas. Mas a população disparou e os bifes no capricho escassearam. Foi então que caiu a ficha: limitando o consumo de carne e aumentando a exploração agrícola e leiteira os camponeses podiam comer mais e melhor. Numa economia rudimentar, a vaca é mais útil no pasto que no espeto: dá leite e bois, que por sua vez proporcionam força motriz e adubo. Se os animais consomem cereais e depois os homens consomem esses animais perdem-se nove de cada dez calorias, e quatro de cada cinco gramas de proteínas.

Já a justificativa espiritual foi o preceito hindu do ahimsa, que postula a unidade de todas as formas de vida. Por fim, com a invasão islâmica da Índia, no século 8, os teólogos brâmanes encontraram na proscrição da carne de vaca um tabu providencial para demarcar o hinduísmo da concorrência do Islã. Adeus, churrasco na laje.

Desde a independência da Índia, em 1947, o fundamentalismo religioso - hindu, sikh ou tâmil - já ceifou a vida de dois primeiros-ministros em atentados terroristas. O premiê Manmohan Singh está careca de saber disso. Alegando que vender para o estrangeiro não é o mesmo que consumo e para o país essas divisas são indispensáveis, ele jura que a exportação não vai parar. Nem que a vaca tussa.

*Paulo Nogueira é jornalista, escritor e autor de O amor é um lugar comum (Intermeios).

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.