Alto nível de vestiário

Em futebol, boteco e política, às vezes ser 'fino' apenas atrapalha

Sírio Possenti*, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2009 | 03h10

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Os sociólogos da linguagem explicitam um conjunto de verdades que todos nós podemos atestar quotidianamente. Uma delas é que há uma distribuição das palavras, que se associam (se autorizam, se proíbem, se controlam) a contextos e a grupos. Por exemplo: as palavras são técnicas ou correntes, são palavrões ou são "limpas", são agressivas ou neutras, são masculinas ou femininas, etc. Os jargões técnicos, as gírias e o calão são exemplos notórios.

 

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"Ser socializado" significa, entre outras coisas, saber quando é permitido e quando não é empregar cada palavra, falando com quem e quando. É por isso, entre outros casos, que crianças às vezes causam constrangimento. Certas palavras que são "inocentes" em uma língua são tabu em outra - porque o mesmo significante tem lá outro significado. Uma multidão gritando "fica" enquanto Pelé dá uma volta olímpica no intervalo de um jogo que é sua despedida pode causar escândalo na Itália.

Em suma, em certos contextos são aceitáveis expressões que jamais seriam em outros. Não se trata de regras escritas, mas de leis sociais que funcionam. E que são mais ou menos mutáveis. Por exemplo, Faustão contribuiu para liberar algumas palavras (como "pentelho") em seu programa dominical para a saudável família brasileira. Uma forma de medir mudanças sociais pode ser a alteração de status das palavras tabu. Basta imaginar o que ocorreria há 50 anos se rádios ou TVs falassem de menstruação e de camisinha. Imaginem certas declarações que se emitem em um programa como o CQC em outra época, ou mesmo em outro horário. Outra medida de mudanças sociais poderia ser a adoção por mulheres de palavras que eram exclusivas dos homens.

Homens e mulheres sabem (vão aprendendo aos poucos, e esse é um dos critérios constitutivos de sua identidade) o que podem dizer em seu grupo (banheiro, vestiário, happy hour), quando a cumplicidade é a lei fundamental, mas não podem dizer em outros espaços e a outros interlocutores. Nesses espaços, as regras e a imagem públicas podem ser suspensas sem que ninguém se sinta ameaçado nem seja considerado ameaçador de nenhuma regra ou convenção ou mesmo de pessoas.

A divisão fundamental é certamente entre o que é público e o que é privado. Convenhamos, essa barreira é cada vez mais móvel nas sociedades contemporâneas (nem todas, nem todas!).

O governador André Puccinelli teria dito que o ministro Minc é veado e fumador de maconha. Acrescentou que, se comparecesse a um evento na região, ele o perseguiria e estupraria em praça pública. Minc rebateu dizendo que as declarações de Puccinelli revelam seu caráter, que é um truculento ambiental que quer destruir o Pantanal. Depois, arriscou uma análise "profunda" do governador: escorado em Freud, sugeriu que tratasse com mais carinho seu homossexualismo latente.

O aspecto mais evidente do episódio é sua grosseria. De tudo o que foi dito, "veado" é certamente a palavra mais agressiva. Primeiro, porque ela é de baixo calão, é um palavrão (mas nem consta no dicionário de Souto Maior). Não é a mesma coisa qualificar alguém como veado, gay ou homossexual. Segundo, porque a qualificação é relativa à face privada do ministro. Dizer que é um fumador de maconha soa bem mais agressivo do que "defensor da descriminalização do consumo individual da maconha". "Fumador" conota vício, poderia ocorrer com "contumaz", se Puccinelli conhecesse a palavra e se ela não parecesse redundante. Mas não é um vício "másculo", como o de beber. Daí a conjunção "veado" e "fumador de maconha".

A resposta de Minc pode ter sido dura, mas ela se localiza no debate político, apesar da caracterização pessoal. Ele disse que Puccinelli é truculento e partidário da destruição do Pantanal. São acusações sobre sua falta de modos (devem incomodar pouco a um "macho"...) e relativas a opções político-econômicas que muitos consideram arcaizantes, mas nem todos os que contam. Aliás, "truculento" seria bem mais agressivo do que "truculento ambiental", porque diria respeito à personalidade do governador. "Ambiental" circunscreve a truculência, e pode até ser visto como um elogio por seus partidários.

Ora, compostura e opções político-econômicas como as que estão em questão podem provocar debate, evidentemente. Mas não são atribuições que afetem muito negativamente a imagem de alguém. Na verdade, se ameaçam a imagem de um político em relação a um grupo (ecologistas), talvez a melhorem diante de outro (produtores): até um adversário reconhece que o sujeito é "corajoso" e "está ao lado dos produtores que levam o País pra frente".

Por um lado, parece óbvio que pessoas públicas devam ser educadas e que é desejável que sejam "modernas", especialmente quando a falta de modernidade é pouco produtiva ou está na mira de discursos consensuais, como o da proteção ao meio ambiente. Mas, de fato, muitas vezes, são os traços opostos que merecem apoio.

Na verdade, nada é completamente consensual, embora às vezes se tente fazer passar a ideia de que todos aderem a certas teses, em geral as politicamente corretas. Mas, se considerarmos as práticas dos produtores, seja de soja/gado, seja de muitos produtos industriais, e os critérios pelos quais dirigentes são bem avaliados, veremos que são muitos os casos em que o comportamento mais "fino" é posto de lado. Vale para governantes e para técnicos de futebol...

O episódio só rendeu, tenho certeza, porque as declarações de Puccinelli se tornaram públicas. Aliás, uma nota sustenta que as declarações foram feitas em caráter privado (e tinham um tom de brincadeira). Teriam ocorrido em reunião de empresários, que provavelmente estava sendo considerada um desses encontros de homens nos quais eles se sentem autorizados aos "papos de macho", como em conversas de botecos ou vestiário. Se a conversa não vazasse, ela talvez fosse considerada absolutamente normal. Pelas regras que são seguidas usualmente, bem entendido.

*Professor do Departamento de Linguística da Unicamp. Autor de Questões para Analistas de Discurso (Parábola)

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