Jorge Marcos Said
Jorge Marcos Said

Amanhecer em Tahrir

Acampada na praça egípcia, historiadora brasileira descreve a vida nas tendas, o som das preces e a gritaria em torno da revolução

MARCIA CAMARGOS É JORNALISTA, , HISTORIADORA, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE 'O IRÃ SOB O CHADOR', COM ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h07

MARCIA CAMARGOS

São quatro horas da madrugada. Uma neblina leitosa paira sobre a praça salpicada de barracas de todos os tamanhos e cores. Conto cerca de trinta delas, que se multiplicariam para mais de cem as vésperas do aniversário da revolução. À primeira vista até parecia um camping, porém estamos no meio de um dos mais congestionados e poluídos centros urbanos do planeta. Exatamente no coração nevrálgico do Cairo, na confluência de cinco largas avenidas que circundam um dos maiores símbolos da resistência do povo egípcio.

Caminho de volta à tenda de lona. Acostumados ao ruído infernal e vencidos pelo cansaço acumulado, lá dentro dormem a sono solto meus quatro companheiros de jornada. Hazim Ali, Hamadi, Marham e Mohamed têm entre 19 e 26 anos. Acampam na praça há três meses e só saem dali quando a Junta Militar, no poder desde a derrubada de Hosni Mubarak, deixar o governo. Assim como outros que encontro morando no local, não são organizados em nenhum partido, nem têm ideia clara do futuro que desejam para o país. Na verdade, permanecem ali como uma alternativa à falta de perspectiva espreitando os recém-saídos das universidades com um diploma debaixo do braço e chances próximas a zero no mercado de trabalho.

"É impossível conseguir qualquer tipo de emprego", queixa-se Hazim, num inglês fragmentado. Formado em engenharia, divorciado e com um filho de três anos, sonha em mudar-se para a "América", onde vive sua ex-mulher, na esperança de superar os salários que, quando existem, rendem em média menos de 100 dólares por mês. Por isso fizeram da Praça Tahrir a sua moradia provisória e recebem os estrangeiros com interesse e amabilidade. Não hesitou quando pedi para passar a noite na sua barraca, ainda que isso pudesse lhe trazer problemas, se descobrissem uma mulher sozinha no meio de quatro homens. Não falta quem procure difamar esta população que, em tempos de refluxo, flutua entre 120 a 150 pessoas. Quando a polícia resolve prender uma delas, usa pretextos arbitrários e quase nunca comprovados, acusando-os de drogadas e promíscuos. Ali, as esparsas figuras femininas que conheci eram sempre esposas dos acampados. De cabeça coberta com elaborados arranjos de lenços coloridos, elas ficam de dia e partem de noite para evitar suspeitas e críticas nesta sociedade conservadora e religiosa.

Horas antes, Hazim, que se tornaria meu protetor e amigo, repartiu comigo o almoço de falafel e um pouco do cozido de feijão pastoso chamado foul, vendido a 1 libra egípcia, equivalente a 50 centavos de real. O coucheri, prato popular nacional feito a base de macarrão, arroz, lentilha e parcas gramas de carne moída, custa cinco vezes isso e está acima de suas posses, assim como o Marlboro, substituído pelo congênere chinês a 5 libras o maço. Saco da bolsa o álcool gel comprado junto com toalhas perfumadas, guardanapos de papel, copos e garfos de plástico, além de outros apetrechos que despertam curiosidade e provocam sorriso nos rostos cansados desta gente disposta a enfrentar um inverno surpreendentemente rigoroso.

Ofereço pão árabe, fatiado de carne bovina, queijo, frutas e iogurtes para retribuir a hospitalidade. Tenho a impressão de que muitos deles comiam algo nutritivo pela primeira vez em muitos dias. A garrafa d'água passa de boca em boca e acaba em alguns minutos. Descubro que os cuidados com higiene perdem a importância diante da dura realidade. Poucos escovam os dentes e tomam banho só a cada semana em algum hotel das redondezas. Para ir ao banheiro, usam os cafés e bares dos arredores. O Kentucky, numa das extremidades em que tremula uma solitária bandeira brasileira entre as similares egípcias, tornou-se a escolha predileta. Trocam de roupa de raro em raro e não se dão ao trabalho de tirar os sapatos para entrar na tenda. Tampouco parecem se incomodar com as toneladas de lixo que se acumulam entre as barracas. Convivem com a sujeira que, segundo me dizem, simboliza o entulho do regime autoritário ainda presente no Egito, na figura da odiada Junta, conhecida pela sigla Sacaf - Supreme Council of the Armed Forces.

Por volta da meia-noite, exausta e agitada pela profusão de novidades e sensações desencontradas, procuro pegar no sono. Do chão de terra batida coberto com um tapete fino desprende-se uma umidade insuportável à qual credito a origem da tosse crônica de Hamadi. Encolho sob os cobertores para afugentar o frio, mas o cheiro azedo misturado à fumaça que ficou dos cigarros acesos uns atrás dos outros me dá náuseas. Fecho o olhos para barrar a luz que vaza pelo tecido claro, mas não consigo afugentar os barulhos que vêm de fora. O zunido do trânsito ininterrupto mesmo a altas horas da madrugada, as buzinas, o vozerio dos vendedores de chá requentado, as conversas a altos brados e os gritos de uma briga espocando num canto da praça me mantém em estado de alerta. Quando começo a relaxar, a melodia do muezim da mesquita chama para a reza. Arregalo os olhos e sento na cama improvisada. A praça não dorme, e muito menos eu.

Situada num descampado, tendo o sólido Museu do Egito de uma lado, o topo de hotéis luxuosos de outro e o maciço prédio de 14 andares do aparato de governo El Mogama fechando a lateral, a Midan at Tahrir, antes denominada Ismalia em honra a Khedine Ismail, conta com uma organização informal, mas eficiente nas horas de crise. Há uma barraca que recebe donativos, estoca e distribui comida em épocas de mobilização. Outra delas funciona como uma espécie de museu da memória das revoltas. Exibe fotos da repressão, cartazes e outros testemunhos do movimento revolucionário. Sobressai a imagem de Khalid Said, o rapaz de Alexandria morto após ter sido torturado pela polícia em 2010. Seu martírio inspirou a onda de protestos divulgados pelo Facebook, servindo de estopim para a construção do 25 de janeiro. Por estes acasos da sorte, tive a chance de conversar com seus familiares, no célebre Cafe Le Riche, reduto da vanguarda e da intelectualidade de esquerda do Cairo.

Em termos ideológicos, a Tahrir, que em árabe significa "Libertação", nome recebido em 1919 e oficializado em 1952, depois da revolução que converteu a monarquia constitucional em república, está dividida em zonas de influência bem demarcadas geograficamente. O cruzamento com a Talaat Harb concentra os trotskistas dos Revolucionários Socialistas. A esquina da Mohamed Mahmud, cenário dos sangrentos confrontos de 17 de novembro de 2011, é o palco central dos eventos unitários, reunindo diferentes correntes políticas e religiosas em datas comemorativas. Era ali, na porta do Hardees, um fast food local, que os militantes convergiam para os enfrentamentos com a polícia. Na vasta área defronte ao Mogama instala-se a esquerda mais organizada, tida como a vanguarda socialista. Ali também fica uma tenda para jornalistas. Um ou outro perambulava solitário até a véspera do último 25 de janeiro, quando a imprensa apareceu em peso, disputando os balcões do entorno. Na ocasião, hotéis modestos como o Maleya, subiram seus preços de módicos 50 libras para nada menos do que 2 mil dólares a diária.

O Mogama, de cujos telhados dizem que se escondem franco-atiradores, não fica longe do Ministério do Interior, depois da Universidade Americana do Cairo. Escondido atrás de uma gigantesca barreira de concreto de mais de três metros de altura, o ministério continua inacessível ao público desde que tentaram invadi-lo na batalha Mohamed Mahmud, quando incendiaram uma das saídas da estação Sadat agora interditada. Espiando através das fendas entre os blocos que formam a muralha vê-se uma fileira de trinta soldados vestidos de preto, protegendo a sede de cuja fachada pendem duas enormes faixas com as cores da bandeira. Igualmente pintados de vermelho, branco e preto estão os troncos das árvores semelhantes a fícus que flanqueiam a via de acesso para quem vem da ponte Qasr Al Nil. Lá perto da Liga Árabe há uma tenda dos sírios, que antes tinham os iemenitas como vizinhos. Já na ilhota cimentada não distante da Mesquita de Omar Makram, com uma estátua erguida em homenagem a este herói nacionalista da oposição a invasão napoleônica, agrupam-se os artistas e parte da intelectualidade. No centro move-se uma gama diversificada, incluindo membros da Irmandade Muçulmana a salafistas. Financiados pela Arábia Saudita, e até há bem pouco tempo fora da política partidária, estes últimos obtiveram em 6 meses a segunda colocação no Parlamento, no qual detém 20% dos assentos. São distinguíveis pela barba e ajoelham-se no meio da praça ao som da chamada para as preces. Dentre eles circulam candidatos independentes à presidência da República, e um ou outro turista disputado com avidez pelos guias em situação desesperadora devido ao refluxo dos visitantes. De repente, sem aviso prévio, dois homens sacam de suas facas e começam a brigar. Enquanto nos afastamos, Hazim conta que estes são os batalgueia, provocadores enviados pela polícia para causar confusão e justificar possíveis prisões. Em cima das grades de ferro verde retorcidas, os ambulantes esticam camisetas comemorativas, cujo preço começa nas 50 libras, e despenca ao final de uma cansativa barganha. Num dos cantos vendem haxixe, verdadeira mania nacional, consumido por todas as faixas sociais a qualquer hora do dia ou da noite como se tomam xícaras de café no Brasil. Por motivos que não sabem explicar, o preço da pedra que rende 30 cigarros subiu de menos de 15 dólares para quase 50 depois da revolução.

Interessante que a efervescência da praça transborda para os pequenos restaurantes e albergues da região, instalados em prédios que já viram dias melhores e hoje patinam numa decadência inexorável. Em um destes conheci uma figura das mais interessantes e emblemáticas dos ventos de mudança que começam a soprar. Nervine Al Seidi, que se auto-denomina doutora em economia e literatura, ocupa uma barraca no Mogama há dois meses. Com 50 anos de idade, deixou o filho único na terra natal, Alexandria, para assumir o papel de líder e protetora de parte da juventude acampada. Em um inglês refinado, conta que não tem coragem de se afastar, por receio de que venham prender ou perturbar seus jovens colegas. Por isso revezem-se para comprar comida ou buscar mantimentos doados por simpatizantes. Da mesma forma, diz, montam turnos de vigília para o caso de ataque da polícia sob as ordens do exército, ou dos arruaceiros.

Nervine deixou uma vida sem preocupações materiais para enfrentar uma rotina de noites em claro, falta de banho, fome e sede. As privações refletem-se nos seus olhos injetados e na fala entrecortada de choro ao recordar um episódio mais doloroso. "Estamos aqui pedindo transferência pacífica do poder dos militares aos civis". Relata que durante estes dois meses enfrentaram quatro batalhas com o exército, que os atacou com armamento leve e gás lacrimogêneo. "O exército não deveria ser a autoridade a dirigir uma eleição em nome do povo, já que o principal objetivo da revolução foi justamente desmantelar o aparato militar. Nos rebelamos contra eles, que não podem ser ao mesmo tempo nossos inimigos e comandantes", completa, afirmando que a maioria quer um país laico e democrático, ao contrário de um jovem da Irmandade muçulmana com quem conversei, que defende o Egito como uma nação fundamentalmente islâmica.

Neste espaço de batalhas simbólicas e concretas, moças e rapazes apaixonaram-se e se casaram: "Pela primeira vez, graças à revolução, o povo pode se conhecer e conversar, rompendo o imenso fosso que ao longo da história dividiu os egípcios, presos numa rígida divisão de classes". Outro fato interessante é que a praça Tahrir tem desempenhado não apenas um papel político-ideológico, mas também servido de palco para mudanças de costumes e de mentalidade que se irradiam para o restante da população. A mulheres que escasseiam à noite, retornam ao raiar do dia e lá permanecem como ponto de apoio e vanguarda no contexto de uma ordem social a questionar a opressão machista.

Dentro e fora das tendas, os debates acalorados agitam os grupos que se movimentam em todas as direções. Há uma enorme expectativa no ar. Na noite anterior ao 25 de janeiro uma chuva intensa castigou os ocupantes das barracas encharcadas. Sem escoamento, a água transformou a praça em um imenso lamaçal. Com espírito de solidariedade aguçado, fui com Hazim comprar colchões e plástico para minimizar o estrago. Por sorte, o dia seguinte amanheceu ensolarado. As manifestações ocorreram sem incidentes, mas depois veio a tragédia do estádio de Port Said e a luta continua em Tahrir. Meus jovens camaradas de barricada avisam que a revolução está apenas começando.

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