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Foram tantos os ‘cadeados do amor’ presos por enamorados à grade da Pont des Arts, em Paris, que a proteção desabou

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 16h00

 

Uma ponte ruiu em pleno centro de Paris. A Pont des Arts, que corta o Rio Sena e serve de passagem da Rive Gauche (margem esquerda), onde se encontram a Academia Francesa, o Café de Flore, a Torre Eiffel, Invalides, Sorbonne, Montparnasse, etc, para a Rive Droite (margem direita) onde estão os Champs Elysées, as lojas de luxo, os grandes boulevards, Pigalle, etc.

Por que o acidente com a ponte? Tempestade, ciclone, tsunami? De modo algum. Ou melhor, foi uma espécie de “tsunami do amor”. A venerada Pont des Arts (também chamada Passerelle des Arts) criada em 1804 por Napoleão Bonaparte, reformada em 1853 e reconstruída magnificamente em 1984 perdeu parte de seu parapeito no dia 8 sob o peso dos “cadeados do amor” presos em suas grades. 

Que são esses cadeados do amor? São uma tradição recente. Os enamorados escolheram a Pont des Arts para jurar fidelidade eterna. Eles prendem na grade do parapeito um cadeado no qual estão escritos seus nomes. Depois, jogam a chave no Sena. Como ela desaparece, ninguém poderá abrir o cadeado, deduzindo-se que os amantes continuarão unidos até entrarem no paraíso.

 

 

Como Paris é um dos lugares preferidos pelos turistas de todo o mundo, milhares, milhões de enamorados franceses, coreanos, manchus, patagônios, congoleses, mauricianos, compram seus pequenos cadeados e os prendem nas grades da ponte. Os 150 metros da passagem foram tomados por essa massa de aço cujo peso foi avaliado entre 40 e 120 toneladas. Até que na tarde trágica do dia 8 parte da grade cedeu, obrigando as autoridades a fechar a ponte (por algumas horas apenas). Nada preocupante, mas um transtorno.

Desde quando enamorados prendem seus cadeados na ponte? Desde 2008. Uma tradição de seis anos não pode ser levada muito a sério. Uma boa tradição deve remontar no mínimo a alguns séculos, ter nascido na Idade Média, ou na Grécia Antiga, ou, melhor ainda, no Neolítico. Deve inspirar romances, óperas, tragédias, estudos de paleontologia ou filosofia. Não é o caso dos pobres cadeados do amor da Pont des Arts. Em meio à vasta lista de tradições, essa é uma espécie de primo pobre. Mas, como temos bom coração, vamos tentar dar-lhe um pouco de dignidade reconstituindo sua história oculta.

Na verdade essa tradição nasceu bem longe de Paris. No ponto em que estou da minha pesquisa ainda não ouso decidir onde. Observo que desde a 1ª Guerra Mundial cadeados do amor eram presos na Ponte Most Ljubaji, na Sérvia.

Em 1980 havia em Pecs, na Hungria, o costume de prender cadeados numa grade de ferro batido que liga a mesquita à catedral, provavelmente para unir as duas religiões rivais, a cristã e a islâmica. Não podemos afirmar que foram eficazes pois o delírio islamista irrompeu no mundo depois dessa data. Sem dúvida as duas grandes religiões se irritaram com esses cadeados cuja finalidade era obrigá-las a se amarem.

Os alemães juram que conhecem os cadeados do amor há muito tempo, pendurados nas grades da Ponte Hohenzollern, em Colônia, com os amantes atirando as chaves no Rio Reno. Na Itália, em Roma, os cadeados foram descritos no romance de Federico Moccia Três Metros acima do Céu. 

Não significa que os cadeados sejam apenas dos europeus. Em Taiwan o costume existe desde 2000. Em Argel, surgiram em 2013 na “ponte dos suicidas”, onde combateriam a intolerância religiosa. Lá também os não tiveram muita eficácia, pois logo foram retirados pelos integristas islâmicos que os denunciaram como bruxaria. Moscou também nos reserva imagens reconfortantes. Na Ponte Loujkov, as autoridades erigiram belas árvores metálicas cujos ramos servem para enganchar os cadeados dos enamorados.

Como explicar que esse costume, que não tem uma tradição venerável, nos últimos anos tenha alcançado tamanha glória a ponto de, em Paris, os cadeados serem contados aos milhões e provocarem o fechamento de uma ponte (aliás outras pontes parisienses foram contaminadas pela epidemia, como a Pont de L’Archevêché, e mesmo a Torre Eiffel, que nem ponte é). 

Na realidade, se os cadeados do amor só surgiram em tempos recentes no planeta, os dois ingredientes que compõem o rito são muito antigos, a ponte e o cadeado.

Desde os gregos a ponte é consagrada, tanto no aspecto bom como mau. Expressa a vontade “prometeica” do homem, sua revolta metafísica e sua insolência. Em vez de aceitar gentilmente a geografia que Deus todo-poderoso na sua bondade lhe concedeu, o homem começa a aplainá-la, redesenhá-la, devastá-la. Primeiro com um tronco, depois com uma construção de pedra, uniu duas partes da terra que Deus decidira separar por um rio. A ponte, portanto, traria em si o sagrado e o sacrílego.

A sacralidade da ponte revela-se na língua. Na Grécia Antiga a ponte se traduz pela palavra gephyra. E gephyra dá nome aos gephyraei, padres dedicados aos cultos praticados na travessia de rios.

Desde essa época o construtor de pontes pertence à esfera do “sagrado”. A língua latina o confirma. A palavra pontífice, para designar o padre, vem de pontem facere, aquele que erige uma ponte entre o mundo debaixo e o do alto, entre o tempo e a eternidade, entre o homem e Deus. Observemos que, como tudo que diz respeito ao sagrado, o construtor da ponte possui dois barretes. Ele exprime alternativamente dois sentidos contrários: um negativo, obscuro, sacrílego: é o homem que profana, arruína e modifica a ordem geográfica estabelecida por Deus; e um sentido positivo: o construtor de pontes é aquele que estabelece a comunicação entre o homem e seus deuses, o tempo e a eternidade.

Mesmo se observarmos religiões muito distantes da esfera ocidental, a ponte preenche essa função de traço de união entre a terra e o céu. Na mitologia iraniana, a Ponte de Cinvat ou de Tchinoud sobrepõe-se ao inferno e as almas devem passar por ela se quiserem escapar dele. Para ajudá-los o Pai Eterno teve a gentileza de fabricar uma ponte luminosa a fim de que o fiel não caia de repente no inferno. A mesma imagem é encontrada no Islã: a Ponte Sirat também passa sobre o Inferno e as almas devem passar por ela, pois o paraíso está do outro lado.

Na mitologia nórdica vemos obsessões semelhantes: entre a terra (Midgard) e o céu (Asgard) a alma deve atravessar a Bifröst, uma passarela que une o céu à terra. A religião cristã retoma as imagens, mas desvia-se um pouco de sentido, pois a passagem é entre o inferno e o paraíso. Há uma espécie de ponte não muito bem frequentada e bastante dolorosa, que é o purgatório, uma zona de transição entre o céu e o paraíso onde o pecador deve fazer um estágio mais ou menos longo antes de receber o ingresso para entrar no Céu. 

Lembremos de passagem que o purgatório é uma criação recente. No início, a religião cristã só conhecia inferno e paraíso. Nada de ponte entre um e outro. Apenas no século 12 os teólogos decidiram que essa justiça era muito dura e criaram o purgatório. Infelizmente, não deixaram claro se a inovação tinha efeito retroativo, ou seja, se os infelizes que morreram antes do século 12 também se beneficiariam da bela invenção. Na dúvida, rezemos por eles.

Inevitavelmente, a psicanálise também se dedicaria ao assunto. Não foi Sigmund Freud quem primeiro resolveu estudar o caso, mas Sandor Ferenczi, psicanalista húngaro. Seu veredicto foi contundente: a ponte é, simplesmente, o membro viril. Melhor ainda: é o membro viril do pai. Segundo ele, a ponte cobre uma vasta e perigosa extensão de água, na verdade o oceano feminino que os homens cobiçam e ao mesmo tempo temem. Para Ferenczi, todos os pacientes obcecados por ponte sofriam de impotência sexual. 

Em 1932, Freud também passou a analisar o simbolismo da ponte. Explicou que “na medida em que devemos ao membro viril o fato de sairmos do líquido amniótico para vir ao mundo, a ponte torna-se a passagem do lado de lá (estado em que ainda não nascemos, no corpo materno) para este mundo (a vida). E, como o ser humano representa a morte como o retorno ao corpo materno (a água), a ponte assume o significado de uma viagem em direção à morte”.

Esclarecedor. Enfim, não muito, mas o suficiente em todo o caso para confirmar que os enamorados da Pont des Arts compreenderam, confusamente, o que Freud afirma de maneira também confusa: que a ponte tem uma pesada carga sentimental e mesmo erótica.

Se retornarmos ao presente para a outra imagem que integra a tradição dos cadeados do amor, o sentido é bem mais fácil de ser decifrado. Não precisamos buscar ajuda de Ferenczi ou Freud. Um cadeado serve para fechar alguma coisa. Para ligar um objeto a outro, isolar certas pessoas numa câmara de amor ou numa cela de prisão. O cadeado representa isolamento. E o cadeado do amor isola juntos um homem e uma mulher, um amante e uma amante. E esse confinamento é aceito livremente pelos dois. Mas em outros casos o cadeado foi utilizado de modo mais implacável: na Idade Média, o senhor, quando partia em cruzada para a Terra Santa, deixava a esposa que os senhores da vizinhança cobiçavam. Então ele pedia ao ferreiro que lhe confeccionasse um cadeado na medida do ventre da mulher. Assim, mesmo que ela tivesse um desejo louco de fazer amor com um dos seus pretendentes, estava condenada à castidade. A porta estava trancada. 

Mas começamos a nos distanciar do gesto modesto, folclórico, um pouco tolo dos enamorados da Pont des Arts. Algumas parisienses estão fazendo fila para pedir a proibição da prática. A guerra foi declarada há algumas semanas por duas americanas que vivem em Paris, Lisa Anselmo e Lisa Taylor-Heuff, com a publicação de um manifesto intitulado Libertem seu Amor. Salvem nossas Pontes. Em algumas semanas recolheram 6 mil assinaturas. As duas consideram esse costume um horror: perigoso, porque a passarela pode ceder sob o peso dos cadeados; e indecoroso, pois equivale a vandalismo. E a terceira crítica: todas as chaves jogadas no Sena poluem esse rio esplêndido, mas frágil.

As autoridades municipais não são simpáticas à proliferação dos cadeados. Mas no momento não pensam numa interdição, tanto mais que inúmeros pequenos negócios clandestinos surgiram à sombra da prática: camelôs, etc. A prefeitura mostra-se prudente. De vez em quando retira partes da grade que cederam com o peso dos cadeados. Mas não adotou nenhuma medida para pôr fim a essa “velha” tradição de seis anos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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