Ambientalista, quando ainda não se falava nisso

O etnólogo lamentava as agressões feitas ao 'espetáculo do mundo'

Beatriz Perrone-Moisés,

08 de novembro de 2009 | 00h42

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Em entrevista à televisão francesa, em 1988, Lévi-Strauss dizia que "jamais teria ousado escrever Tristes Trópicos" - um livro em que "escrevi tudo que me passava pela cabeça, sem me preocupar em saber se era verdadeiro ou falso ... se tivesse imaginado um dia seguir carreira acadêmica". Estava convencido, após duas recusas pelo Collège de France, de que seu destino não seria a academia. Corria o ano de 1955. Dali a três anos seria publicada a coletânea Antropologia Estrutural, estava dada a largada para uma nova antropologia. Claude Lévi-Strauss surgiu então no papel de celebridade intelectual que temos visto merecer manchetes, matérias e especiais no mundo todo nestes dois últimos anos. Em 1960, Lévi-Strauss seria finalmente eleito para o Collège de France e, em 1973, para a Academia Francesa. Nos anos 80, a França já sabia que ele era um "tesouro nacional vivo".

 

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Por pouco perdemos um livro magnífico, que mescla considerações teóricas, fruição sensorial do mundo e mundos indígenas, num estilo a um tempo seco e melodioso, elegante e sensível, irônico e romântico, compenetrado e compadecido, sempre preciso. Todos lembram o fato - curioso quando se considera a declaração do autor - de Tristes Trópicos ter parecido verdadeiro demais ao júri do Goncourt para que fosse possível lhe dar o prêmio máximo no ano de sua publicação. O embaraço dos jurados do Prêmio Goncourt é um exemplo, certamente anedótico, dos muitos desafios colocados por sua obra, geradora de debates acadêmicos variados ao longo dos anos.

Não há como falar brevemente da obra do maior antropólogo. Basta lembrar que livros como O Pensamento Selvagem (1962) e os sete volumes das Mitológicas, dedicados à mitologia ameríndia (1964-1991) são tão difíceis de classificar quanto o relato do viajante. O próprio Lévi-Strauss desafia classificações, dada a sua influência em áreas tão diversas do pensamento. Apresentava-se costumeiramente como etnólogo e por sinal sugeria que a etnologia talvez seja tanto ciência quanto arte.

Entre o rigor científico e o talento literário, à reflexão de Lévi-Strauss devemos demonstrações pioneiras e brilhantes (em Raça e História, por exemplo) da falta de fundamento - científico ou moral - em supor hierarquias entre os seres humanos. Não se pode determinar a superioridade de uma cultura sobre outras, nem tampouco há como justificar a suposição de que existam diferenças de qualidade ou de grau entre realizações particulares da capacidade humana, compartilhada e universal, de pensar. Lévi-Strauss não apenas afirmou - o que já não seria pouco - que todos os humanos pensam igualmente (bem), dignificando os povos chamados primitivos e seu pensamento. Dedicou-se laboriosamente a demonstrá-lo, com dados etnográficos colecionados por uma extraordinária erudição e relacionados com notável talento de escritor. E dispôs-se a pensar não sobre os índios, mas com eles.

Lévi-Strauss definiu certa vez a antropologia como estudo das diferenças, e de vários modos mostrou que o próprio do humano é justamente o fato de, munidos do mesmo espírito, dos mesmos modos de pensar, pensarmos coisas tão diferentes. Lamentava constantemente a perda da diversidade humana, provocada pela destruição deliberada das colonizações ou, nas últimas décadas, pela aceleração da chamada globalização. Lamentava também o desaparecimento de espécies animais e vegetais e a devastação da natureza, ele que desde cedo, dizia, apreciava o "espetáculo do mundo". Apontado por alguns como um pioneiro das causas ecológicas e dos direitos dos animais, em 2005, Lévi-Strauss repetia em pronunciamento um alerta que já aparecera em vários de seus livros, sob outras formas: "Os direitos da humanidade cessam no momento em que seu exercício põe em risco a existência de outras espécies". Tem sido notado que, no humanismo de Lévi-Strauss, o humano não é o centro. Das muitas lições contidas em sua obra, guardemos hoje as de respeito, para com tudo e todos com quem compartilhamos o mundo, que são lições de humildade.

Morreu o homem que finalmente teve uma carreira acadêmica das mais brilhantes. Ficam conosco o antropólogo que abriu o caminho do efetivo diálogo entre pensamentos radicalmente diferentes, levando a antropologia à sua realização; o americanista que revelou a riqueza dos mundos ameríndios e não perdeu nenhuma oportunidade de chamar a atenção para o massacre perpetrado neste continente; o pensador que, com os mitos ameríndios, pensando com os índios, há muito chamou a atenção para a necessidade de respeito e humildade diante de tudo quanto há no mundo, humano ou outro.

"Os homens não diferem, nem mesmo existem, senão por suas obras só elas provam que no curso do tempo, entre os homens, algo realmente ocorreu", escreveu Lévi-Strauss no último parágrafo de seu último livro, Olhar, Escutar Ler (1994). A vasta obra em que ele, pensando diferenças, distinguiu-se e existe, ainda está longe de ter esgotadas suas possibilidades de leitura. Com o passar dos anos, teremos cada vez mais a medida do que realmente ali ocorreu.

* Antropóloga (USP),tradutora de Lévi-Strauss

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