Débora Klempous/ND
Débora Klempous/ND

Amilcar Neves usa linguagem de diário para renovar gênero do romance

'Os Mortos de Abril' reúne fragmentos memorialísticos de 2016 e 2017

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

13 Outubro 2018 | 16h00

A tão anunciada morte do romance ainda não aconteceu e parece longe de acontecer. Pelo menos é essa a impressão que se tem ao ler o romance de estreia do escritor catarinense Amilcar Neves, Os Mortos de Abril: Pequeno Diário Higiênico, que, ousado na forma e no conteúdo, reinventa mais uma vez o gênero. O livro, vencedor do 2.º Concurso Salim Miguel, 2016-2017, acaba de ser publicado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Amilcar não é um escritor iniciante. Além da autoria de diversos livros de narrativas breves, dedicou-se por anos à redação de crônicas para jornais catarinenses. A linguagem jornalística, com a qual o escritor parece ter de fato muita intimidade, e a linguagem das redes sociais dão o tom do seu romance/diário/crônica/post de Facebook.

Os Mortos de Abril reconstitui dia a dia boa parte do ano de 2016, com seus acontecimentos marcantes, como, por exemplo, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a campanha e a vitória de Donald Trump, a Olimpíada etc. A prosa fala também de diversos acontecimentos do primeiro semestre de 2017. O escritor não se furta a fazer comentários políticos do tipo: “Preciso registrar aqui um nome que a História logo vai esquecer: Eduardo Cunha, o que há de pior no País” ou “Os Patriotas, que se proclamam contra a corrupção e pedem a volta dos militares – da ditadura. Todos terão acima de 60 anos e já deviam ter vergonha na cara.” 

Em seu livro, há espaço também para os resultados dos jogos de campeonato de futebol do fim de semana: “Hoje, de novo. Assistindo a Avaí 4 a 2 Ceará na Ressacada, de repente vi-me na arquibancada de Avaí 2 a 0 Sampaio Corrêa, sábado passado.” Ou espaço para a previsão do tempo. Afinal, Os Mortos de Abril tem características de periódicos diários, em que todos esses diferentes temas são tratados numa mesma edição: “Hoje deu sol. Eu vi o sol. Me disseram que não, que é impossível. E isso porque o sol não deu as caras, falaram, porque choveu com nuvens escuras fechando todo o céu e, quando elas se foram levando chuva pro Norte ou pro mar, revelou-se uma neblina.”

Outras vezes, Amilcar cita frases de livros ou jornais, como esta tirada do periódico espanhol El País, de autoria de Joaquín Estefanía: “Lo inaudito puede siempre suceder y lo que parecia inimaginable porque era infernal, se convierte en cotidiano.” 

Os Mortos de Abril não é dividido em capítulos, mas em dias, interrompidos por dois episódios mais longos – Eventuais Causas e Consequências Aventadas –, que quebram a unidade do romance, o qual às vezes é um diário convencional, outras vezes, postagens do Facebook, em que o autor coloca sua impressão sobre as ideias mais disparatadas: “Por suas vezes neste domingo tive por breves momentos a vívida sensação de que hoje era sexta-feira. De que eu vivia dois dias atrás.”

Aliás, de disparates e paradoxos também é feito o romance de Amilcar, que começa no dia 21 de abril de 2016, dia da morte do narrador – “hoje morrerei” –, que não morre e cujo diário segue em frente, ainda que, de vez em quando, meses mais tarde, volte a lembrar que faz “cinco meses, hoje, da minha morte. Faltam sete meses para eu morrer”, até concluir que “tantas dimensões tornam natural e aceitável que eu viva depois da minha morte e antes do meu nascimento”. O escritor parece mesmo cultivar aquilo que não faz sentido e cita Jane Austen, que passeia entre o nonsense e a paródia em Jack e Alice, escritora inglesa que talvez tenha sido uma de suas referências. 

Nada parece fazer muito sentido na prosa de Amilcar, nem mesmo o tempo. No fim do romance o leitor se pergunta: estamos em 2017 ou ainda em 2016? O tempo avança tão devagar que às vezes, diria, chega a retroceder. Essa confusão temporal ganha destaque nas páginas do livro: “Ao mesmo tempo era sexta-feira e era quarta-feira.” 

A confusão ocorre ainda entre as personagens do romance, muitas delas chamadas de Márcia: a dentista, a irmã, a médica, difícil saber quem é quem. Como não lembrar dos inúmeros Bobby Watson, a que se referem as personagens de A Cantora Careca, de Ionesco?

O escritor segue sua prosa misturando temas como a declaração do Imposto de Renda e a urticária que vai desaguar nos signos do zodíaco: “Que vira ferida, ninguém percebe, e acaba em câncer. Não em peixes: em câncer.” 

De forma debochada, o catarinense Amilcar Neves alerta para o fato de ter escrito seu romance em tiras de papel higiênico e com um toco de lápis, de modo que nada de valor parece surgir de suas páginas, mas, ao mesmo tempo, para retornar a um paradoxo tão caro ao escritor, ele acorda “aterrorizado de pesadelos com águas e ratos avançando, ávidos, sobre o meu tesouro.” Para bom entendedor, os ratos somos nós, os leitores... ou não...

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo' (Iluminuras)

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