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Amizade entre pintores modernos motiva livro 'A Arte da Rivalidade'

Crítico vencedor do Pulitzer Sebastian Smee coloca frente a frente nomes como Picasso, Matisse, Manet e Degas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2017 | 16h00

A relação de amizade entre oito pintores que definiram os rumos da arte moderna levou o crítico do Boston Globe, Sebastian Snee, vencedor do prêmio Pulitzer em 2011, a escrever A Arte da Rivalidade, cujo título pode sugerir brigas infindáveis entre Degas e Manet, Matisse e Picasso, De Kooning e Pollock ou Francis Bacon e Lucian Freud. Eles, de fato, acabaram se afastando por um ou vários motivos, mas foi a intimidade entre esses oito pintores que levou Snee a investigar o fascínio mútuo entre os artistas e como essa influência marcou de forma positiva – ainda que a rivalidade existisse – a obra audaciosa de todos os eleitos pelo crítico.

Primeiro, essa “rivalidade’ forçou os limites da arte moderna e contemporânea. A cor saturada das pinturas de Matisse, as formas facetadas de Picasso, os corpos desfigurados de Bacon, obviamente, surgem em função das reflexões desses pintores sobre a própria história da arte e do insight provocado pela observação recíproca entre amigos. Foi uma tela azul de Matisse que redirecionou Picasso para outro caminho quando ele pintava Les Demoiselles d’Avignon, em 1907. Jack Flam já notara, em 2003, num livro dedicado à rivalidade entre os dois, como ela serviu de combustível não só para Picasso usar as formas angulosas da arte africana nessa pintura revolucionária como essa tensão foi necessária para a evolução de Matisse.

Por vezes, os motivos que levaram à separação desses oito amigos provocam equívocos de interpretação. Mesmo Snee, um crítico experiente, pode concluir que Manet sentia um pouco de inveja de Degas – filho de banqueiro, exímio desenhista, pintor com uma técnica irretocável –, mas a verdade é que Manet provocou uma revolução na história da pintura moderna, e não só pela ousadia de telas como Le Déjeuner sur l’Herbe (1862-1863) ou Olympia (1863), mas por seu talento composicional ‘alla prima’ e conhecimento da história da arte, sua âncora – mais que a influência de Degas.

No entanto, é um episódio mal explicado que o autor elege para falar dessa amizade. Mais especificamente, uma tela pintada por Degas entre 1868 e 1869, em que Manet posa ao lado da mulher pianista Suzanne. Snee foi até o Japão para ver o pequeno quadro, em que o amigo surge recostado a um sofá, enquanto a mulher toca piano de perfil. Não seria nada demais se Manet não tivesse cortado o lado direito da tela a faca e devolvido o que restou da obra a Degas, que guardou a fragmentada pintura entre os oito óleos, 14 desenhos e 60 gravuras de Manet encontrados em seu estúdio quando morreu, em 1917.

Eles foram amigos por sete anos. A razão que teria levado Manet a mutilar seu quadro pode estar ligada a um episódio desarmonioso na vida do casal. A holandesa Suzanne Leenhoff, reconhecida intérprete de Wagner com quem Manet se casou, em 1863, mesmo ano do escândalo de Olympia, teve um filho ilegítimo, Leon, autorizado a chamá-la de mãe apenas em casa. O autor, claro, não entra em detalhes sobre a paternidade, mas seria uma das possíveis razões para Manet cortar a companheira do quadro de Degas com uma faca? Suzanne, a modelo de várias telas de Manet? 

O caso Lucian Freud/Francis Bacon é ainda mais difícil de explicar. Snee trata todos em seu livro como protagonistas de uma relação homoafetiva ou, no mínimo, homossocial, especialmente os dois artistas mencionados. Freud, heterossexual, teria uma queda por Bacon, assumidamente gay. Assim como Degas colecionou obras de Manet, Freud foi um dos primeiros a comprar as perturbadoras telas de Bacon, mantendo em seu estúdio uma das mais conhecidas, Two Figures (1953), em que dois homens simulam uma luta amorosa numa cama. Um minúsculo retrato de Bacon pintado por Freud foi roubado de um museu na Alemanha. Freud chegou a oferecer uma recompensa para quem a devolvesse. Snee é de opinião que Freud considerava Bacon superior como pintor e que a tentativa de recuperar o retrato roubado era a admissão do relacionamento volátil com o amigo.

Já a rivalidade entre De Kooning e Pollock passaria por habilidade técnica. O holandês sabia desenhar (e bem). Pollock, não. Como ambos se tornaram expressionistas abstratos, o que aparecia mesmo era a escala de telas gigantescas que conquistaram os milionários e ajudaram a consolidar o mercado americano de arte. A disputa por ele teria afastado os dois. 

O capítulo dedicado a Picasso e Matisse é ainda mais pesado, tratando os dois rivais como grandes pintores que nem sempre tiveram consciência de uma competição aberta – pelo menos no caso de Matisse, que forneceu a Picasso a chave para ingressar numa cultura da qual pouco conhecia, a africana – os rostos angulosos de suas “demoiselles” devem muito às máscaras tribais apresentadas por Matisse que, segundo Snee, era “muito solitário” para ser líder de qualquer movimento. Bem diferente, portanto, de Picasso, um competidor nato. Matisse ficou perturbado com o cubismo, mas não resistiu à genialidade do homem. Foram, enfim, íntimos, embora estranhos.

A Arte da Rivalidade

Autor: Sebastian Smee

Tradução: Célia Euvaldo

Editora: Zahar

336 páginas

R$ 69,90

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ArtePablo Picasso

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