Todavia
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Amor entre opostos é metáfora da oposição entre Ocidente e Oriente

Romance 'Bússola', do francês Mathias Enard, vencedor do Goncourt, chega ao Brasil pela primeira vez

Mirella Márcia Longo*, Especial para o Estado

02 de março de 2019 | 16h00

“Fico dando voltas em torno do amor”, constata Franz, um musicólogo austríaco. O leitor de Bússola – premiado romance de Mathias Enard que a Todavia traz ao público brasileiro na tradução de Rosa Freire d’Aguiar – é arrastado pelos pensamentos desse enfermo sem diagnóstico preciso, enfrentando sozinho uma noite de mal-estar físico e emocional. A espiral de sua mente gira em torno da sua história de amor com Sarah, estudiosa francesa das “visões do outro entre Oriente e Ocidente”. Como muitos amantes da literatura, Franz e Sarah encontram-se e desencontram-se, ao longo do tempo. Quando nos é apresentado em sua noite de insônia, Franz medita sobre a paixão que, fracassada e preservada, sugou a vitalidade de suas relações afetivas e o condenou ao desamparo. 

Franz e Sarah conhecem-se ainda jovens. As precárias condições que os pesquisadores enfrentam em suas viagens determinam que, em Palmira, eles adormeçam com os corpos em proximidade. Desejando beijar Sarah, Franz recua timidamente, condenando-se à suspeita de que essa desistência contida no passado foi fatal à relação. A angústia decorrente dessa dúvida faz com que o contexto ficcional criado por Enard seja permeado por um motivo frequente na literatura moderna: o fantasma da vida que poderia ter sido e não chegou a ser. Em Alepo, quando vence a timidez, Franz recebe uma recusa. O atordoamento trazido pela desilusão afetiva parece-lhe análogo à desorientação sentida no deserto, onde se perde com Sarah e Bilger, um arqueólogo obcecado por imagens de prostituição. Mais adiante, a analogia é estendida ao desnorteamento inerente à embriaguez dos apaixonados. Seriam todos portadores de uma bússola quebrada cujo ponteiro aponta sempre para o ser amado, o outro. Foi essa bússola, imagina Franz, que Beethoven possuiu no final da sua vida. É também ela que o leva a sondar a sua caixa de e-mails, esperando achar ali um sinal de Sarah; assim como Isolda sondou o mar, em busca dos sinais de Tristão.

A primeira noite de amor acontece em Teerã. Nessa passagem, Enard atinge alta voltagem de erotismo, sem deixar que o seu leitor escape à comoção. A estrutura das frases é alterada, para impor à mente de quem lê o ritmo dos dedos “percorrendo galáxias”. Marcada pela memória da Alba, canto de amores noturnos e avessos ao dia, a cena traz um amargo amanhecer. Sarah recebe a notícia de que o irmão sofrera um acidente e, compreendendo que tudo já se consumara, viaja abatida para a França. Franz não escapa aos efeitos do infortúnio. Os défices de vida que presidem os próximos contatos entre os dois pesquisadores impedem a expansão erótica e acentuam suas diferenças. Franz se fixa em Viena e Sarah viaja por países remotos, desaparece por algum tempo, até que, enviando um artigo de Sarawak, provoca a insônia atual. 

São vastas, as conclusões extraídas da rememoração angustiada. Franz constata que, como tantos amantes, ele e Sarah perderam-se no mais longo dos caminhos: aquele que nos deve conduzir até o outro. Cético, com dificuldade de expressar afeto, consciente dos limites humanos e ciente das diferenças existentes entre ele e a mulher que ama, o musicólogo nos faz pensar que a via a ser percorrida em direção ao outro só pode levar à própria imaginação e que a alteridade sempre escapa; ao modo dos poemas que se esquivam às investidas da memória de um estrangeiro assaltado por ânsia de posse. 

Sendo axial em Bússola, a trama amorosa surge como o único farol que permite ao leitor nadar no mar de dados vindo da rara erudição de Mathias Enard. Dando esse lugar central ao amor, o autor francês atualmente radicado em Barcelona reafirma a forma literária do romance, tal como ela ascendeu na cultura moderna; mesmo que, em seu texto, essa forma pareça tão abalada quanto a saúde de Franz e da Europa, metonimicamente figurada no musicólogo doente. A aparente fraqueza do romance coincide à força alcançada pelo ensaio, supostamente ameaçando a ficção. Parte da crítica viu aí desequilíbrio e problema. No entanto, em Bússola, romance e ensaio não se separam, pois as hipóteses esboçadas para dar conta das relações entre Ocidente e Oriente acham, na trama romanesca, a sua elucidação. Meditando, Franz conclui que cientistas e artistas europeus também portaram a estranha bússola apontando para o Leste. Eles buscaram o Oriente, como o amante busca o amado e, nele, a Verdade, a luz de que fala Avicena. Desejo amoroso e ânsia de conhecimento da cultura do outro constituiriam faces de um mesmo élan. E assim como Eros muitas vezes se faz acompanhar por anseio de posse e devoração, a procura do Oriente realizada por artistas e cientistas arrastou pesadas sombras. A erótica inerente ao texto de Mathias Enard embaraça-se à epistemologia que o seu livro contém e mesmo à tentação da mística que nele se insinua, a despeito do cético narrador. A voz de Edward Said - autor de Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente - está presente no texto de Enard, sendo ali tão sutilmente homenageada, quanto relativizada. Em Bússola, predomina a noção de que as culturas do Leste e do Oeste interpenetraram-se no tempo, como as almas e os corpos de Franz e de Sarah, em sua história de amor. Um traz o outro em si mesmo. Por isso, é possível ouvir a poesia de Khayyam, na letra de Pessoa; o canto do muezim, na música de Szymanowski; a paixão de Hafez, no Divã Ocidental-oriental (West-östlicher Divan) escrito por Goethe e reconhecido, em tradução árabe, como obra oriental de autor ocidental.

A composição de Bússola serve como emblema para a sua ideia. Nela, o fio autobiográfico, lastro da forma romance, entrelaça-se ao encadeamento de tramas presente em As mil e uma noites. Ao repensar a sua vida, Franz traz mil e um fragmentos biográficos, nos fazendo conhecer as trajetórias de Annemarie Schwarzenbach e de Marga D`Andurien, ao lado de outras. O princípio é especialmente ilustrado, quando ocorre uma sessão de “Maqâma”, “gênero da literatura árabe em que os personagens passam a palavra um ao outro”. Como se vê, o livro indica, na própria fatura, uma trama cultural cuja pulsão erótica continua, apesar das guerras e do terror. 

Um último registro sobre Franz e Sarah. Embora nunca dissipado, o seu laço recobra vida, num desses momentos de milagre contemporâneo, quando os amantes descobrem-se diante de seus computadores, buscando um ao outro. Paremos no milagre. Para que haja esperança, o resto deve ser silêncio.

*MIRELLA MÁRCIA LONGO É ESCRITORA, ENSAÍSTA, PESQUISADORA DO CNPQ, PROFESSORA NA UFBA E AUTORA DE ‘CENAS DE AMOR EM ROMANCES DO SÉCULO XX’ (EDITORA QUARTETO, 2017)

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