Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Amor impresso

A Academia Americana de Pediatra recomenda: ler para o bebê desde o nascimento pode enriquecer sua linguagem, raciocínio e a própria vida

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

A cena tem rituais comuns, seja num abastado consultório particular ou num hospital público. A mãe e o pai chegam com o bebê para a primeira consulta depois do parto. Vão ouvir conselhos, um calendário de vacinas e eventualmente desabafar sobre dificuldades como amamentação. A partir de agora, nos Estados Unidos, os pais de bebês devem ouvir também: “Leiam para seus filhos desde o nascimento”. A recomendação foi anunciada na última terça-feira pela American Academy of Pediatrics, a AAP, que vai encorajar a distribuição de livros infantis nos consultórios, a leitura regular, especialmente na hora de dormir, e sugerir que os pais cantem e façam rimas com os filhos.

Antes que comecem a coçar a cabeça, se o pediatra explicar com clareza a recomendação distribuída aos 66 mil membros da AAP os pais vão entender que o conselho faz parte do arsenal de garantias para o futuro da criança. E não estamos falando apenas de escolaridade. Neste caso, explica a médica Pamela High, principal autora do estudo da AAP, “a educação nos primeiros meses do bebê está ligada à saúde futura. Adultos com linguagem complexa se revelam mais capazes de gerir e proteger sua saúde”.

Cientistas sabem que ler para bebês é um fator determinante para a capacidade de adquirir linguagem e ter bom desempenho na escola. Há 20 anos, estudos começaram a demonstrar uma expressiva disparidade cognitiva e de riqueza de vocabulário entre crianças afluentes e pobres nos EUA, resultante da exposição das primeiras à linguagem complexa antes dos 3 anos.

Novos estudos baixam a idade do benefício da interação com os pais e livros para antes dos 2 anos. A psicóloga Susan Neuman, da Universidade de Nova York, usando tecnologia de eye-tracking, que acompanha os movimentos dos olhos, observou bebês capazes de detectar se um livro está de cabeça para baixo aos 14 meses.

Isso quer dizer que o bebê deva ser alfabetizado antes? E que possa recitar Os Lusíadas no primeiro aniversário? De jeito nenhum.

Pamela High, que dirige o departamento de pediatria comportamental no Hasbro Children’s Rhode Island Hospital, explica: “O aspecto relacional da rotina com livros é talvez o mais importante. Quando a mãe ou o pai lê para o bebê na hora de dormir há uma intimidade que faz a criança associar a linguagem e as imagens e palavras impressas com aconchego e alegria. Repito, alegria é importante no processo”.

De Los Angeles, a consagrada cantora e compositora paulista Luciana Souza vê o resultado no filho Noah, de 5 anos, que está para começar o jardim de infância e, portanto, não foi formalmente alfabetizado. “Quando vamos viajar”, conta Luciana, “o Noah já vai enchendo a mochila de livros.” Ela teve a sorte de escolher um pediatra que recomendou ler para Noah desde os 2 meses. “Hoje me dizem que o vocabulário dele parece o de uma criança que sabe ler e escrever. Sou capaz de distinguir, na escola que ele frequenta, as crianças cujos pais leem histórias. Fica evidente no vocabulário que usam.”

A cantora é filha do compositor Walter Santos e da poeta Tereza Souza, já falecidos. Crescendo com três irmãs e um irmão, “quando a gente brigava, minha mãe recitava poesia como argumento para nos apartar”, lembra. Luciana concorda que a presença física de livros fez diferença em sua infância e na de Noah. Mas ela enfrenta com tenacidade a competição da TV, tablets e celulares, que são severamente racionados com o apoio do marido, o músico e produtor Larry Klein.

Em Providence, Rhode Island, Pamela High diz que ainda não conhece pesquisas sobre o resultado da onipresença de gadgets na linguagem da primeira infância. Mas uma coisa foi comprovada: a luz das telas digitais desativa a melatonina, um hormônio natural que nos ajuda a dormir. A dra. High diz que o consultório do pediatra é o local ideal para educar os pais sobre os benefícios de aquisição de linguagem por causa do vínculo de confiança. Cita como exemplo outra recomendação da AAP, de que crianças de menos de 2 anos não assistam TV por causa do impacto negativo sobre o cérebro em desenvolvimento, com consequências na capacidade cognitiva.

Susan Neuman diz que não importa a complexidade do livro nem o grau de instrução dos pais. Não é preciso ter um alto grau de escolaridade nem uma biblioteca. “No primeiro ano”, diz, “o bebê consegue se concentrar melhor numa imagem por página, com cores primárias vivas e um texto bem curto, pode ser uma bola e a palavra bola.” A repetição é fundamental e será refletida no número de palavras que a criança vai usar quando começar a falar. Essa interação, diz ela, o foco simultâneo do adulto e do bebê no mesmo objeto e numa palavra ou frase, é um ato de instrução. “Os bebês gostam de livros de papelão, que podem levar à boca e não destroem”, explica, “Recomendamos jogar um livro de plástico na banheira para estimular a relação física com o livro.”

A presença da palavra impressa em casa e os esforços para engajar crianças pequenas em linguagem se reflete em índices de conclusão do segundo grau, gravidez na adolescência, oportunidade de emprego e até criminalidade, revela Pamela High. Uma criança de pais monossilábicos e desengajados que não foi exposta a livros ou à linguagem rica chega ao jardim de infância com um atraso difícil de recuperar.

 

Mais conteúdo sobre:
pediatriabebêgravidez

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.