FABIO MOTTA | ESTADÃO CONTEÚDO
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Amputaram a letra errada: a palavra do mês é 'Paralimpíada'

Pressão internacional fez o Comitê Paraolímpico Brasileiro mudar de nome. O problema é que a palavra ficou capenga

Sérgio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2016 | 16h00

O mês transcorreu sob o signo da Olimpíada, marcado por uma expectativa de desastre que passou longe de se confirmar, e termina acrescentando à palavra um prefixo de origem grega para anunciar a Paralimpíada, que será disputada no Rio de 7 a 18 de setembro. A transição nada tem de acidentada. Pelo contrário: estava prevista no calendário esportivo internacional há anos. O que não quer dizer que se dê sem susto, como prova a polêmica que cercou a campanha publicitária estrelada pelos atores Cleo Pires e Paulo Vilhena no papel de atletas paralímpicos – ela sem um braço, como a jogadora de tênis de mesa Bruna Alexandre, e ele sem uma perna, como o jogador de vôlei sentado Renato Leite. Apelação, mau gosto? Ou um empréstimo de imagem para “gerar visibilidade” para a causa, como argumentou uma defensiva Cleo Pires diante da repercussão negativa nas redes sociais?

Menos vistosa, outra controvérsia marca o evento que terá a presença de mais de 4 mil atletas representando 176 países. Será a primeira vez que as entidades brasileiras ligadas ao esporte praticado por atletas com deficiências participarão da disputa com esse nome: até os Jogos de Londres, em 2012, elas se chamavam “paraolímpicas” – grafia que a tradição da língua recomenda e que os dicionários registram como a única ortograficamente válida ou, no mínimo, a preferencial. O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras nem traz o termo “paralimpíada”. O Houaiss, sim, mas veja-se o que diz dele sem meias palavras: “malformação vocabular que Portugal e o Brasil passaram a usar (no Brasil, oficialmente a partir de 25 de agosto de 2012), a pedido do Comitê Paralímpico Internacional, para seguir o inglês paralympiad”.

Vale esmiuçar a trama. Na morfologia da língua portuguesa, o encontro do prefixo “para-” com o substantivo “olimpíada” não poderia jamais levar à queda da vogal inicial do segundo: a escolha se daria entre manter a integridade das duas vogais na palavra “paraolimpíada” ou, em caso de contração, fazer desaparecer a vogal final do prefixo, o que resultaria em “parolimpíada”. Ao longo dos anos, o uso deixou clara a preferência dos falantes pela primeira opção. O Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) foi criado em 1995 e assim era chamado até novembro de 2011, às vésperas dos Jogos de Londres. Naquela data, porém, antecipando Cleo Pires e Paulo Vilhena, amputou artificialmente um o de seu nome “para se alinhar mundialmente aos demais países” e fixou um prazo para que todas as entidades a ele filiadas fizessem o mesmo. O que elas fizeram, claro. Estamos falando de uma área do esporte ainda em fase de consolidação e extremamente dependente de chancelas oficiais. O estrago provocado por um cisma ortográfico seria grande.

Posta diante da adesão unânime das entidades esportivas internacionais às formas vocabulares espelhadas no inglês Paralympiad, a maior parte da imprensa brasileira, previsivelmente, também preferiu seguir a novidade. Com a proliferação da nova grafia em logomarcas e outros materiais visuais, tanto no mundo físico quanto no virtual, seria difícil e talvez até imprudente evitá-la, por mais que lexicógrafos e linguistas condenem a palavrinha capenga – o leitor acabaria confuso. Também não falta quem esteja pronto a descartar o incômodo provocado pela novidade como pouco relevante, falta do que fazer. Não creio que seja o caso. É um fato inegável que estamos diante de uma violência – simbólica, mas violência mesmo assim – contra o espírito da língua.

Diga-se em defesa do CPB que ele resistiu à mudança por bastante tempo. Seu equivalente lusitano, fundado em setembro de 2008, já tinha nascido “paralímpico”. Nossos irmãos do outro lado do Atlântico preferiram ignorar desde o primeiro dia o parecer sobre a questão que o Instituto do Desporto encomendara à linguista Margarita Correia, no qual ela defendia o “o” de “olímpico” como “mais consentâneo com a estrutura da língua portuguesa”. Se até Portugal, tão zeloso da tradição do idioma, achou melhor não comprar briga com o International Paralympic Committee, talvez não houvesse mesmo nada que o Brasil pudesse fazer.

Como pano de fundo para a intriga há a determinação que o Comitê Paralímpico Internacional demonstra desde sua fundação, em 1989, de afastar a palavra de sua origem, a junção de “paraplegia” com “olimpíada”. Em 1960, eram todos cadeirantes os 400 atletas que disputaram em Roma os primeiros jogos para deficientes em paralelo à Olimpíada, mas ainda sem o apoio oficial do Comitê Olímpico Internacional. Este só viria nos Jogos de Barcelona, em 1992. A riqueza semântica do prefixo “para” foi aproveitada então pelo COI e pelo CPI para forjar para a palavra uma narrativa etimológica menos fiel à história, mas mais abrangente e politicamente correta: “A palavra ‘paralímpico’ deriva da preposição grega ‘para’ (ao lado) e da palavra ‘olímpico’. Significa que os Jogos Paralímpicos se realizam paralelamente aos Olímpicos e ilustra o modo como os dois movimentos existem lado a lado”.

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