Editora Todavia
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Ana Teresa Pereira revisita Rebecca de Winter em 'O Verão Selvagem dos Seus Olhos'

Criada por Daphne Du Maurier, heroína da literatura foi levada ao cinema por Hitchcock, virou personagem de Susan Hill e chegou a ser considerada plágio da escritora brasileira Carolina Nabuco

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2022 | 16h00

Rebecca de Winter, personagem da escritora britânica Daphne du Maurier (1907-1989), é um fenômeno literário inegável. Nascida do romance homônimo, Rebecca, de 1938, a história acompanha um jovem casal tipicamente inglês em crise: a mocinha acaba descobrindo que o mocinho não é tão virtuoso e, por sua vez, existe um passado encoberto por muita névoa e tragédias. Enfim, um gótico em que o sobrenatural marca presença. 

Embalado por essa atmosfera do romance de Maurier, o diretor Alfred Hitchcock escalou Joan Fontaine e Laurence Olivier para protagonizar o casal Winter, filme que virou um clássico do cinema noir, Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940). Ao correr dos anos, a história ganhou inúmeras adaptações, como Mr. De Winter (1993), de Susan Hill. Uma das mais recentes, O Verão Selvagem dos Seus Olhos, de Ana Teresa Pereira, publicada pela primeira vez em 2008, em Portugal, ganha agora edição no Brasil. 

“Lembro-me de que escrever o livro foi fascinante e terrível. ‘Inventar’ Rebecca, os seus livros, os seus quadros, a sua paixão por De Winter; e ao mesmo tempo segui-la pela casa, deixá-la na biblioteca a dormir com os cães, passear com ela pelos bosques, ir até à casa de praia, ao lugar onde costumava estar o seu barco, ‘Je reviens’, que, descobri depois, é também o nome de um perfume”, conta Ana Teresa Pereira, em entrevista por e-mail. 

A autora é uma mulher discreta, avessa a badalações, vive no Funchal, na ilha da Madeira, onde nasceu. É lá que ambienta suas histórias, muitas delas policiais, com a neblina característica que encobre sua ilha. Estreou com o romance Matar a Imagem, de 1989, que levou o prêmio Caminho Policial, gênero que a acompanha desde então, embora tenha surgido muito cedo a predileção pelo sombrio.

“Cresci em meio a livros ingleses e americanos. Não só os de Enid Blyton e Richmal Crompton. Como eu, as minhas personagens têm sempre consigo um livro do personagem de Crompton, Guilherme (o estudante adolescente de Just William), quando viajam ou dormem em quartos alugados. Leio sobretudo os policiais de John Dickson Carr e Cornell Woolrich. A atmosfera dos livros de Carr, as velhas casas fantasmagóricas, a escuridão dos livros de Woolrich me atraem – e, no último caso, trata-se da escuridão interior”, observa a autora. 

Ana Teresa Pereira criou durante sua carreira personagens fortes, libertárias e misteriosas que fogem de arquétipos tradicionais de heroínas, como pontua a crítica Helena Barbas, sobre as criaturas dos mais de 40 romances da escritora: “Em Matar a Imagem, a heroína abandonou um curso de Filosofia para assumir a tarefa de escrever”, como fez Ana Teresa, lembra Barbas. 

“Uma recusa definirá todas as suas heroínas. Para o evoluir desta história de morte e amor, com vampiros e anjos, vão ser fundamentais uma casa antiga, o mar e o nevoeiro. Para todas as outras também”, observa Barbas. Pois há uma atmosfera inquietante que arrepia os pelos do leitor, ingrediente indispensável para autores como Henry James ou Edgar Allan Poe, duas de suas principais referências.

“Em A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, era sempre diferente: os fantasmas não existiam de fato, tudo se passava na mente da jovem preceptora, ou então na mente do menino Miles. Essa ambiguidade fascina-me. Tentei criá-la em alguns dos meus livros”, conta a escritora, que usou esse traço em seu romance Karen (Prêmio Oceanos de 2017). “Em Karen, nunca sabemos o que acontece de fato, nunca sabemos quem é Karen nem sabemos quem é a narradora… Gosto de chamar a esses livros os meus ‘policiais abstratos’.”

 Sobre O Verão Selvagem dos Seus Olhos, Ana Teresa dá sua versão sobre a personalidade da heroína de Maurier. “Desde o momento em que escolhemos outro ponto de vista, tudo muda. É fascinante contar uma história de dois pontos de vista diferentes: passam a ser duas histórias.”. Ela contou com a ajuda de um amigo botânico para imaginar os jardins de Manderley com os rododendros vermelhos e toda exuberância da flora que ganha descrições longas e acuradas no romance.

Controverso, o romance de Maurier foi apontado como um suposto plágio da escritora brasileira Carolina Nabuco (1890-1981), que escreveu A Sucessora em 1934. Para a autora portuguesa, Rebecca, a um certo nível, é uma das inúmeras versões, algumas mais literárias, outras mais populares, de Jane Eyre. É uma história fantasmagórica, como um velho conto de fadas, que já existe dentro de nós, antes de o lermos ou ouvirmos”. 

“De certa forma, Rebecca é Manderley, com todas as suas dualidades. A ala oeste que dá para o mar e o nevoeiro, a ala leste que dá para o jardim de rosas. Os caminhos para a enseada: Happy Valley, com os seus rododendros de cores suaves e as azáleas brancas, a vereda áspera entre as rochas e as árvores”

Quando a jovem senhora De Winter veste uma velha capa de gabardine de Rebecca, encontra no bolso pétalas de azálea branca. “E é o cheiro das azáleas brancas que ela sente nos vestidos de Rebecca, apesar de no quarto desta haver perfumes caros. Rebecca exala o mesmo perfume que criou.”.

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