Natacha Pisarenko/AFP
Natacha Pisarenko/AFP

Antes da quarentena, o confinamento já fazia parte da vida humana

A restrição de movimento continuará sendo uma tônica; em alguns dos casos, o isolamento é até mesmo desejado

Redação, The Economist

23 de maio de 2020 | 16h00

Bem aos poucos, aqui e ali, as regras que mantiveram grande parte do mundo dentro de casa vão sendo relaxadas. Não pode haver uma ruptura repentina do confinamento, como jovens potros na primavera. Mas já se estão planejando festas, viagens para ver amigos e familiares, a pura alegria da vida independente e incontida. Esse aprisionamento peculiar se encerrará e a maioria das pessoas estará livre – pelo menos fisicamente.

No entanto, de inúmeras maneiras, o confinamento seguirá como sempre se seguiu. Os alarmes soam no começo do dia e os relógios se atam aos pulsos, algemando-nos aos limites de tempo. Os corpos se veem amarrados com cintos e gravatas, enfiados em sapatos desconfortáveis, amontoados nos apertos de ônibus e metrôs. Escovadas e arrumadas, as crianças são despachadas para a escola. E esta, claro, é a rotina pela qual muitos hoje anseiam.

As coisas não se soltam ao longo do dia que passa. Os funcionários do escritório ficam numa salinha, num pequeno cubículo, cumprindo tarefas bem definidas. Da janela, talvez invejem os jardineiros e pedreiros lá fora. Mas o trabalhador ao ar livre ainda está preso à terra, às suas forças e ferramentas, aos imprevisíveis imperativos da natureza. E, quando trabalhadores e não trabalhadores se aconchegam nos confortáveis confins de suas camas, o sono os cerca mais uma vez.

O confinamento, em todos os tipos e graus, faz parte da vida humana. A palavra normalmente não denota prisão, muito menos isolamento, mas a consignação de limites. Esses limites, muitas vezes os impomos a nós mesmos, ou nos são impostos por forças quase sempre benevolentes: pais, sociedade. O confinamento à casa e seus arredores por ordem do estado é raro, mas, em situações de emergência, foi, em geral, bem aceito.

A restrição física, afinal, começa cedo, com o feto enrodilhado num espaço que preenche por completo. Talvez pareça acolhedor para alguns, intolerável para outros: as atitudes em relação ao confinamento podem muito bem se estabelecer logo no útero. Os recém-nascidos, quando dormem, às vezes abrem os braços, como que para se certificar de que os limites ainda estão lá, para garantir segurança. E, por longos séculos, mesmo até o tempo presente em muitos lugares, essa garantia foi parcialmente proporcionada pelo hábito de envolver a criança em faixas de linho bem firmes.

O propósito era também assegurar que os membros cresceriam direito, pois também as mudas são sustentadas e amarradas – e aqui entra em cena o propósito moral do confinamento. Assim como os membros se endireitam sob as faixas, também a mente da criança em desenvolvimento se endireita sob as cuidadosas instruções de disciplina e boas maneiras. 

A aprendizagem mecânica das tabuadas e declinações de substantivos punha o cérebro canalizado num túnel de sons repetidos. Os castigos e a conduta deferente para com os superiores mantinham o corpo sob controle. O confinamento dentro das roupas engomadas nos bancos da igreja, da mesquita e da sinagoga, por longas horas, assegurava a coesão da comunidade. Quando os jovens saíam dos trilhos – e muitos saíram – era claramente porque não estavam confinados o suficiente.

Grande parte desse tipo de restrição desapareceu da vida moderna. Já não é suportável, ainda que seus ecos tenham ressurgido nas atuais campanhas de informação pública: os infindáveis mantras sobre lavar as mãos, a ameaça de regras mais rígidas para os desobedientes. Mas as atitudes em relação ao confinamento não são simplesmente uma questão de normas sociais predominantes. Elas também estão na mente e no humor de quem as vê.

Para Hamlet, em sua meia-loucura, o próprio mundo compreendia “uma vasta prisão que em si encerra grande número de cárceres, dos quais o pior é de certo a Dinamarca”. Era um “jardim inculto” (jardins são cobertos e murados, pois até o Éden fora cercado), tomado pelas “coisas mais rudes e grosseiras”. 

Os poetas românticos tendiam a concordar. Percy Bysshe Shelley se considerava confinado por toda a estrutura institucional de sua época, especialmente pela interdição ao amor livre: “o frio controle do costume que enfraquece o coração” era uma mão morta da qual ele não conseguia escapar. Tanto Samuel Taylor Coleridge quanto John Keats se sentiam “reprimidos” em Londres, embora Samuel Johnson houvesse igualado a cidade à própria vida e todos eles tivessem toda a sua vastidão para passear. Feito os pássaros engaiolados que balançavam nas janelas dos cortiços, os poetas também não conseguiam cantar entre lojas e chaminés.

Com o correr das eras, o medo do confinamento muitas vezes foi inculcado pelas histórias. Inúmeros contos de fadas falavam de donzelas confinadas em ambientes fechados: a Bela Adormecida num quarto de palácio, atrás de espinhos grossos; Rapunzel numa torre alta. Os príncipes resgatavam-nas, mas geralmente não se viam sinais muito claros de que seu confinamento houvesse terminado. 

Talvez fosse apenas a sina das mulheres serem caladas, como no Cântico dos Cânticos (“Jardim fechado és tu, minha irmã, esposa minha”), ou nos conventos medievais e haréns do Oriente – uma vez que todo o seu comportamento inexplicável ou avançado, pensavam os antigos, era provocado pelo útero à deriva. A agonia que se esconde em quartos fechados talvez seja resumida pelo antigo uso da palavra “confinamento” como um eufemismo para o parto, quando a grávida desaparecia num mundo feminino repleto de rituais secretos, desespero, dor e vergonha.

Este limoeiro encerra minha prisão

No entanto, mesmo o confinamento mais rigoroso não era necessariamente temido, pois podia oferecer, por mais paradoxal que pareça, uma rota de fuga. No mito grego, algumas personagens – Esmirna, que se deitara com o pai, ou as Helíades, que ofenderam o deus sol – foram transformadas em árvores como punição. 

Para outras, no entanto – a ninfa Dafne, transformada em loureiro para fugir à perseguição de Apolo, ou Sírinx, feita caniço para frustrar os avanços de Pã – este lento espraiar sobre a pele macia de uma casca retorcida, de um tronco áspero que lhes enrijecia os membros, foi uma libertação. A restrição pode marcar o início de uma vida diferente e, de certa forma, mais livre.

Muitos se depararam com esse paradoxo. Poucos versos depois, Hamlet, que odeia o mundo, também afirma que mesmo “recluso a uma casca de nós poderia me considerar rei do espaço infinito”. Enquanto o corpo está preso, a mente vagueia. Juliana de Norwich, confinada, viu uma “coisa pequena”, do tamanho de uma avelã, nas mãos de Deus e assim entendeu que aquilo era “tudo o que fora feito”. Ela era uma das centenas de anacoretas que viveram na Inglaterra antes da Reforma, quase todas mulheres, as quais se entregavam a um confinamento tão permanente que, quando se fechavam as portinholas de suas celas, entoava-se para elas O Ofício dos Mortos. 

Elas não viviam isoladas: as pessoas as consultavam e, através da janela, passavam-se a comida e o urinol. Mas estavam presas, como numa casca de noz. E, nesse lugar trancado, podiam descobrir a salvação e encontrar Deus. O próprio Jesus dissera a seus seguidores para não orar em público, mas para fazê-lo “a portas fechadas... e teu Pai, que vê o que é feito em segredo, o recompensará”. Para todo monge, monja ou eremita, a cela era e é sua pedra de toque espiritual. Como disse Moisés, o Negro, Padre do Deserto: “Sente-se na sua cela, e sua cela lhe ensinará tudo”.

Outro confinamento imposto, para as pessoas de mentalidade platônica, era o da alma dentro do corpo. Quando as almas perderam suas plumas, como Sócrates explicou em Fedro, elas caíram dos reinos celestiais e, chegando ao terreno sólido, vestiram a capa da mortalidade. Nesse revestimento duplo da terra e do corpo, elas puderam experimentar a beleza e, ao reconhecê-la, sentiriam suas plumas crescendo mais uma vez e se recordaram de seus primórdios celestiais. 

Os poetas românticos valorizaram essa noção de confinamento que desperta a alma, de enxergar, através das menores formas terrenas, “a vida das coisas”. Para Wordsworth, em sua “Ode aos prenúncios da imortalidade”, as visões da alma podiam se revelar pelo mero vislumbre do amor-perfeito sobre a relva.

Mas também podiam se revelar quando ele se deitava no sofá dentro dos pequenos e escuros aposentos do Dove Cottage, onde as vistas das minúsculas janelas davam apenas para muros de pedra bem próximos. Escritores e pensadores em todas as disciplinas há muito consideram o confinamento útil e até mesmo essencial. Trata-se, também, de um confinamento técnico: a estrita adesão à harmonia e ao contraponto, ou à métrica e à rima.

Como o próprio Wordsworth explicou, assim como as freiras viviam contentes em seus aposentos estreitos e os eremitas em suas celas, ele também por um tempo desfrutou “do chão escasso do soneto”. Com mais frequência, porém, o confinamento é meramente físico. Seu objetivo é o foco, a fuga à distração. Virginia Woolf acreditava que as mulheres jamais poderiam florescer como escritoras a menos que tivessem não apenas “dinheiro suficiente para a viagem e o ócio”, mas também independência de mente e espírito, sob um teto todo seu.

Os quartos, celas ou choupanas não precisam ser austeros nem desprovidos de panoramas. O casebre onde Dylan Thomas escrevia em Laugharne se abria para uma paisagem tão linda, “Junto ao rio caudaloso e ao mar agitado / Onde correm os corvos-marinhos”, que não podia deixar de aparecer algumas vezes em seus poemas. 

Mas as terras por que ele viajava eram interiores. Rainer Maria Rilke sentia que seu retiro em Muzot, uma pequena torre no sopé dos Alpes, guardava os segredos de seus poemas, pois era ali que ele podia explorar sua vida íntima, mergulhando na “interioridade”.

Os feitos físicos da exploração muitas vezes também dependem do confinamento. Para dar nas maravilhas das formações de calcário no subsolo, o espeleologista precisa se espremer por túneis e passagens que mal podem admiti-lo. No fundo do oceano, onde o mergulhador já não consegue nadar livremente por causa do peso da água, dois cientistas e um piloto descem dentro de uma cabine de dois metros de diâmetro, uma minúscula esfera de titânio, o submersível DSV Alvin, que mergulha por mais de três quilômetros na escuridão.

Um mergulho no Alvin não pode durar mais que nove horas. Mas Al Worden, astronauta da Apollo 15, passou 67 horas na órbita lunar dentro de um módulo de comando com 6,17 metros cúbicos de espaço, enquanto seus dois colegas caminhavam na Lua. 

Outras coisas também o confinavam: seu desajeitado traje espacial e a minuciosa programação minuto a minuto imposta pelo controle da missão. Nos poemas singelos que ele escreveria tempos depois (pois achava que o relatório oficial só arranhava a superfície), a estreiteza de suas circunstâncias não mereceu sequer uma menção. Ele registrou apenas o quão ilimitado estava, entre as estrelas-piruetas, olhando para a “terra frágil e nublada”, na qual pareciam se concentrar todas as cores do universo:

Desgarrados para longe viajamos

Para vermos por nós mesmos onde estamos.

 

/ Tradução de Renato Prelorentzou.

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