Antimemórias na transição-labirinto

José Gregori revisita em livro passagem do populismo e ditadura para a democracia

Paulo Sérgio Pinheiro*, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2009 | 23h21

A primeira imagem que tenho de José Gregori foi num ato público sobre justiça e libertação na Igreja da Penha, na zona leste de São Paulo, em 1977. Gregori discursando vigorosamente contra a ditadura e na saída todo mundo em debandada correndo da polícia. Maria Helena Gregori, uma das organizadoras do ato, presa por agentes do Dops e enfiada, literalmente, na traseira de um camburão.

 

Parceria: com Franco Montoro: talento para fazer as melhores alianças

 

O livro de José Gregori Os Sonhos que Alimentam a Vida (Jaboticaba, 428 páginas) revisita a longa transição do populismo e da ditadura para a democracia, dos anos 1950 aos anos 2000, a quente, no dia a dia, cada momento requerendo uma opção. Sem nenhum mapa da estrada, porque simplesmente não havia nenhum. Vai muito além de lembranças pessoais e apresenta um mural, como aqueles de Diego Rivera, em que são tantos os personagens, referências, cenas, incidentes, que nada pode ser visto isoladamente. Uma trama de múltiplas camadas, no tempo e no espaço, itinerários cruzados, diálogos imprevistos. Nada é apresentado da distância de um observador, mas na visão de um operador com enorme "molejo dialético", firmeza com flexibilidade. Com uma ambiguidade fundamental - no governo, nunca renuncia aos valores das lutas na sociedade civil, na militância dos direitos humanos não abandona o public spirit, o sentido do espírito público, afinal, a marca de sua trajetória.

Desde os primeiros momentos o traço mais decisivo dele foi sua resiliência, a capacidade de ultrapassar sofrimento - como aos 9 anos ter o pai assassinado (pela primeira vez Gregori revela essa perda fundamental). Grande capacidade de se adaptar à mudança do Rio para São Paulo, a perda de uma situação social confortável. Mas contando com a segurança de uma família ampliada, galeria fascinante de irmãos, primos, parentes e amigos dos pais e dele próprio. Os capítulos dedicados a suas primeiras décadas revela o peso que essas fases formadoras teriam depois de 1964, quando os contornos de Gregori figura pública ficaram mais nítidos.

E desde muito cedo um dom de nunca renunciar ao senso de humor, nas situações mais desesperadoras. Que também serve para desarmar os antagonismos. Nas discussões ameaçando desencarrilhar Gregori sempre encontra uma graça para distender os espíritos. Uma vez numa reunião tensa, em que uma decisão precisava ser tomada e tudo prenunciava o pior, Gregori me sussurrou: "Não adianta, essa proposta é um verdadeiro zepelim de bronze, não vai voar nunca".

Várias fotos, inéditas, por exemplo, agitando manifestação após o suicídio de Getúlio em 1954, indicam desde cedo sua lendária capacidade para o discurso, para o verbo. Qualquer situação se transfigura pela visão de Gregori, dada a infinidade de figuras de linguagem, de imagens, de associações que faz emergir nas suas falas fascinantes. Qualidade essencial para qualquer capacidade argumentativa, um aprendizado que vai se desenvolvendo por meio de uma sucessão de cargos públicos, desde a ousadia de se propor a trabalhar com o então chanceler San Tiago Dantas (o que conseguiu) até a imersão na sociedade civil na resistência à ditadura e o ingresso no primeiro escalão do Estado.

Fica nítido que a dedicação aos direitos humanos não estava predeterminada. Claro, o fundamento da Faculdade de Direito de São Paulo, a resistência à ditadura do Estado Novo e a prática do direito facilitaram a passagem. Nos meios que Gregori frequentava e em geral na sociedade brasileira os direitos humanos só foram descobertos na resistência à ditadura militar. Gregori desembarca na praia dos direitos humanos e a assume como o território da esperança, como diz Celso Lafer no seu belo prefácio. Combinando indignação com a construção de pontes.

O que é uma biografia senão a capacidade de fazer relações e construir uma teia de referências? De Gregori se pode dizer como se dizia de Tancredo Neves (discursando no túmulo de Getúlio, primeiro-ministro no parlamentarismo, do lado de Jango na queda, a favor das eleições diretas): ter sempre estado no lado certo no momento decisivo. E naqueles instantes fundadores Gregori sempre teve uma enorme capacidade de fazer as coalizões, as melhores alianças. Penso até que ele exagera o peso dessas cumplicidades com San Tiago Dantas, Renato Archer, Fernando Gasparian, Franco Montoro, talvez para disfarçar as próprias e enormes contribuições. Quando Gregori foi presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns era o pivô maior da nossa transição. Mas foi a capacidade de Gregori de dosar protesto e argumentação, coragem e generosidade, abertura política ecumênica e disponibilidade plena para a defesa de qualquer vítima de violações que assegurou ao arcebispo uma operação eficiente na sociedade como um todo. Gregori foi capaz de agregar e contribuir com um toque pessoal de reforço às qualidades e coragem de seus companheiros.

O mesmo pode ser dito de seu papel na elaboração da lei e na formação da comissão sobre os desaparecidos políticos. Evidentemente tudo ocorreu porque desde o início do governo houve a decisão política de Fernando Henrique de reconhecer a responsabilidade do Estado brasileiro, agora democrático, pelos crimes da ditadura militar. Mas sem a habilidade e a paciência de Gregori em negociar as resistências, especialmente militares, tudo teria sido mais difícil, senão impossível.

Desde que vi o título achei inspirador, poético até. Mas tendo lido e relido com encantamento o livro, não foram os sonhos o alimento da vida. Foi o inverso. Foram os desafios da vida concreta, todo o tempo em parceria com Maria Helena, o confronto com os imprevistos desse percurso-labirinto da vida política e intelectual brasileira no século 20 que construíram os sonhos de José Gregori. Suas antimemórias são um depoimento riquíssimo sobre as contraditórias vias percorridas desde o populismo até a consolidação da democracia. Da qual ele é um dos mais finos e completos artífices.   *Cientista político e pesquisador associado do Núcleo de Estudos de Violência (NEV/USP)

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