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Antologia de ficção imagina nosso futuro

O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) lança 'Make Shift', focada em nosso futuro pós-pandemia.

Paul di Filippo, Washington Post

15 de maio de 2021 | 16h00

O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) parece ter aparecido muito na história da literatura de ficção científica. Um dos mais conhecidos a fazer isso é o pai da ficção científica moderna, John W. Campbell, que estudou lá, mas não há registro de quantos alunos do MIT sejam fãs de ficção científica, nem quantos protagonistas do gênero reivindicaram afiliação à escola.

Em 2013, a MIT Press formalizou a ligação com o lançamento da antologia anual de histórias de ficção científica originais Twelve Tomorrows. A edição atual, Make Shift: Dispatches from the Post-Pandemic Future, é a sexta e particularmente bem forte, focada em nosso futuro pós-pandemia. Todas as histórias enfatizam a máxima de que nossa espécie deve se adaptar ou perecer.

O editor Gideon Lichfield, que dirigiu a MIT Technology Review até recentemente, dá início ao volume com um editorial que se alterna seguidamente entre os dois opostos favoritos da ficção científica, utopia e distopia, e as histórias geralmente seguem o exemplo.

Antes de tudo, entretanto, há uma não-ficção provocativa: A Veil Was Broken (Um Disfarce Descoberto) é uma entrevista de Wade Roush com Ytasha L. Womack, cuja área de interesse é o afrofuturismo. Ela aborda diretamente o lado utópico das coisas: "Eu gostaria de ver mais perspectivas que refletissem como é uma sociedade saudável ... Sociedades saudáveis podem ter problemas, conflitos e todo o drama exigido de uma história .... Eu gostaria de ler uma história de ficção científica e dizer: 'Puxa, gostaria de morar lá.' "

A ficção científica dedicou uma quantidade considerável de pensamentos acerca do futuro das artes, de autores robôs à escultura em nuvens, e Little Kowloon (Pequena Kowloon) de Adrian Hon explora esse tema. Em um Reino Unido repleto de refugiados oriundos de Hong Kong e sofrendo com uma nova pandemia, o Festival de Edimburgo continua a acontecer, mas apenas graças ao truque inteligente de "distanciamento dinâmico". "A ideia era que você poderia reduzir os requisitos de distância segura para doenças respiratórias a uma fração dos dois metros habituais, prevendo os movimentos exatos das gotículas respiratórias que podem transportar o vírus H1N3." E assim a intimidade na vida real é recuperada!

Lembrando um pouco de The Persistence of Vision (A Persistência da Visão, em tradução livre) de John Varley, Patriotic Canadians Will Not Hoard Food!(Os Canadenses Patriotas não Armazenarão Alimentos!), de Madeline Ashby, foca em uma fazenda boutique idílica perseguida por empresas que querem comprar o lugar e assediada por moradores com visões políticas diferentes - mas também é uma história de amor.

Ken Liu apresenta uma criação brilhante de materiais multimídia para traçar o futuro do turismo de telepresença em Jaunt (Excursão) e descobre consequências sociopolíticas surpreendentes na nova tecnologia recreativa.

Sobretudo para um escritor tão jovem, Rich Larson proporciona um retrato incrível do solitário e amargo idoso Ivan, um expatriado residente em Praga, que planeja delatar os violadores de lockdown em Koronapárty (Koronafesta). Mas o tremor no punho do velho o leva a uma epifania comovente desta vez.

Grande parte da história de Cory Doctorow imagina soluções engenhosas para nossos vínculos atuais, de modo que esta antologia é um encaixe perfeito com seus talentos. Sem dúvida, seu Making Hay (Produzindo Feno) esboça brilhantemente contra-ataques comunitários ao aumento do nível do mar e de vírus persistentes, ao mesmo tempo em que traça os altos e baixos das emoções turbulentas de nosso herói Wilmar. Somente quando ele estende a mão para um grupo de ativistas em San Juan Capistrano - eles estão ocupados ajudando as famosas andorinhas a se adaptarem a novos habitats, enquanto também realocam a própria cidade - nosso herói experimenta alguns lampejos de esperança. O conto lembra o trabalho do jovem Larry Niven em Cloak of Anarchy (Manto da Anarquia, em tradução livre).

Outro texto oportuno, The Price of Attention (O Preço da Atenção), de Karl Schroeder, fala do processo veloz de redução de orçamento da polícia com muito suspense. “Crimes hediondos é um dos poucos departamentos que sobraram da antiga polícia”, escreve Schroeder, e alguns investigadores se ressentem “dos substitutos, como a força-tarefa de emergência de saúde mental, moradia de curto prazo e abuso doméstico”. A história gira em torno de um investigador no espectro do autismo chamado Remy, que usa suas habilidades analíticas para rastrear um sequestrador. A atmosfera característica de Schroeder - tecnologia integrada tão fortemente à natureza do protagonista que é praticamente simbiótica - está por todos os lados. Os leitores invejarão os óculos inteligentes de Remy, que permitem que ele descubra as informações mais obscuras de seu ambiente.

O editor Lichfield sabiamente guarda o que é indiscutivelmente a melhor história para o final. Vaccine Season (Temporada de Vacinas) de Hannu Rajaniemi, inventa a ideia de "vacinas transmissíveis" e, em seguida, incorpora as dimensões complexas do conceito na relação comovente entre Torsti, de 12 anos, e seu avô teimoso, antes de nos lançar alegremente no sonho peculiar da pós-escassez.

Por serem escritas tão próximas de nossas realidades pandêmicas diárias, essas histórias correm o risco de contradizer os noticiários locais em maio de 2021. Mas suas narrativas conceituais ousadas e compassivas superam esses riscos mesquinhos para realizar com brio e clareza o trabalho que a ficção científica sempre foi destinada a fazer: conduzir os leitores pelo "jardim de caminhos bifurcados" e nos garantir que a vida pode florescer, apesar de todos os desafios e crises, basta usarmos nossa imaginação.

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Paul Di Filippo é o autor da Trilogia Steampunk e The Deadly Kiss-Off (O beijo mortal, em tradução livre). Seu próximo livro, The Summer Thieves (Os ladrões de verão, em tradução livre), será lançado em junho.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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