Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Antologia mostra que, no fato efêmero, Merval Pereira dá uma lição de história

Livro do acadêmico e jornalista se destaca por sua voz pessoal e particular, além da erudição

José Nêumanne Pinto, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 15h00

Escreveu certo poeta mineiro com infinita argúcia e provisória sabedoria de jardineiro da última flor inculta e bela do Lácio, que “lutar com as palavras é a luta mais vã”. Drummond, de Itabira, nunca se aventurou ao chá das 5 na Academia Brasileira de Letras (ABL). Já seu leitor e admirador Merval Pereira, carioca e operário no ofício do texto que vira papel de embrulhar peixe no dia seguinte, dedica-se ao desafio de dar à palavra profana a natureza veneranda no prelo do alemão Gutenberg. Desafios da Democracia (2003-2020) (Topbooks) é mais uma refrega dessa luta inspirada na leitura correta do poema O Lutador, em que a preposição com pressupõe arma, instrumento, aliança, não contra, do outro lado do ringue.

Não é um combate inédito. Joaquim Maria Machado de Assis, mulato dos morros infectos do Rio de Janeiro pré-Pereira Passos, foi um pioneiro nessa tarefa de registrar o descartável para torná-lo eterno nas mais belas crônicas da língua de Camões. Joaquim Nabuco, vulgo Quincas o Belo, como Machado fundador da ABL, também se aventurou nessas batalhas em que o chumbo do canhão é substituído pelo das velhas linotipos da época pré-offset na virada do século 19 para o 20. Na profissão de Merval, repórter e comentarista, há nomes ilustres das letras que o precedem. O estilo indelével de Murilo Melo Filho, nas páginas da Manchete da minha infância, é perpetuado em brochuras impressas. Ninguém está autorizado a reclamar da natureza volátil dos comentários atuais para a época de suas edições em veículos de imprensa e lidos com prazer em qualquer momento das lavras de Carlos Castelo Branco, Fernando Pedreira, Elio Gaspari e Villas Boas Corrêa.

No entanto, as incursões do jornalista no mundo do livro se destacam por sua voz pessoal e particular, fundada num convívio permanente em redações, bibliotecas e tertúlias acadêmicas. Forjada em estilo escorreito e de profunda cultura, é reconhecida como singular em nossa língua, que o baiano Castro Alves fez de arma contra a infâmia. Numa passagem por Brasília, em 1979, fez, em parceria com André Gustavo Stumpf, a histórica série de reportagens A Segunda Guerra - Sucessão de Geisel, publicada no Jornal de Brasília, e com a qual ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. A lógica da passagem da reportagem fugaz para o testemunho histórico, aplicada neste lançamento, teve sua pedra fundamental no volume de 782 páginas de O Lulismo no Poder, editado em 2010 pela Record. A teia sutil de acontecimentos aparentemente provisórios é capaz de sustentar o peso de teorias permanentes apoiando-se em seus fios finos conquanto resistentes, similares aos do desenho de dez elefantes que se equilibram numa teia de aranha. Isso ilustra a expressão “a arte do jornalismo”, usada por seu confrade acadêmico Celso Lafer na apresentação da obra.

Desafios da Democracia (2003 – 2020) é uma obra que também enfrenta a lógica temporal de sucessões da acima citada. Leitor surpreendido pela incansável produção de textos diários de fôlego absurdo, tomo conhecimento de uma tarea (o castelhano define melhor a dificuldade da escrita sem o acréscimo galaico-português do efe) que equivale em esforço despendido e tempo gasto na produção dos longos artigos propriamente ditos ao labor de enciclopedista chinês na seleção das frases logo esquecidas que se eternizam na encadernação. Não há comentário que substitua a descrição do escritor em tal mister: “Queria selecionar um pouco do que escrevi sobre questões que dizem respeito à cultura, aos valores democráticos, à cobertura das eleições americanas, ao futebol como expressão do diálogo entre culturas e países, ao debate sobre o papel da mídia e da tecnologia no mundo moderno, e a temas urgentes da pauta contemporânea sobre os quais a ABL tem procurado refletir com a colaboração de importantes pensadores do Brasil e do exterior”, confessa Merval na Nota do Autor, ao descrever a pesquisa feita nos intervalos da labuta diária da coluna no Globo, de programas no rádio e na televisão e de palestras. O que era flagrante em prosa impressa nas duas anteriores, a citada aqui antes e publicada um ano após ter recebido o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia, o mais importante do continente, e Mensalão: O dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil, de 2013. A respeito Nélida Piñon, da ABL, escreveu na quarta-capa: “Merval Pereira preserva sua soberania crítica, enquanto louva com brilho os valores culturais do Brasil e do mundo”.

Desta vez, a inteligência e a experiência do acadêmico recolheram exemplos da delinquência política nacional, como o arrogante questionamento feito pelo petista Paulo Lacerda, antes de assumir a direção da Polícia Federal no governo Lula, a constrangidos repórteres da revista Veja: “A PF deve ser censurada em seus questionamentos?” Convém anotar que a atitude parece um muxoxo, se comparada com o uso abusivo e antirrepublicano da polícia judiciária, um órgão de Estado, sob intervenção direta e pessoal do presidente Jair Bolsonaro em defesa de sua famiglia. O colega jornalista Fernando Gabeira escreveu, nas orelhas do livro, que este é “um documento, um testemunho do processo histórico que vivemos, uma tentativa de entender e explicar fatos que não decorrem de uma lógica qualquer, que desafiam o fator previsibilidade”

Numa coluna de 8 de fevereiro de 2020, Merval resumiu numa palavra de origem grega (Coprolalia) o enxundioso e surrealista vocabulário do chefe do Executivo na comunicação com subordinados e patrões (nós outros, que pagamos seus salários e bancamos as práticas de peculato de seus descendentes, afilhados e contraparentes). Copro, fezes, lalia, fala, é uma doença, descrita como síndrome do uso descontrolado de palavras obscenas. Esse texto aborda o objeto permanente da crônica passageira. Comentando um vídeo em que o presidente, vulgo “mito” (mentira), disse “o que eles querem é a nossa hemorróida, a nossa liberdade”, o jornalista registrou: “A boca suja do presidente Jair Bolsonaro não chamou a atenção apenas dos brasileiros, ganhou dimensões internacionais”. O colunista esclareceu: “Os principais jornais do mundo noticiaram a dimensão política do vídeo”. O acadêmico cunhou a sentença fecal em brasa ardente: “Bolsonaro falou cerca de 20 palavrões diferentes e outras palavras chulas ou com sentido dúbio, como no caso da ‘hemorróida’ colocada em uma frase aparentemente por ato falho, ou como uma metáfora que precisa ser explicada por uma mente pervertida”. 

É, como diria o mestre Nélson Rodrigues, “batata”.

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