Cido Gonçalves
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Antologia reúne 36 contos de Franz Kafka, incluindo inéditos

'Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias' demonstra a pluralidade do que se convencionou chamar de kafkiano

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

17 Fevereiro 2018 | 16h00

Quando o nome de um escritor vira adjetivo, é batata: a obra extrapolou a literatura. Orwell gerou “orwelliano”, Cervantes suscitou “quixotesco” e Kafka legou “kafkiano”. Este último descreve uma atmosfera opressiva, paranoica e absurda, em peripécias que não se desenrolam num contexto histórico definido, e que convidam a uma hiper-interpretação. E é aí que mora o perigo – e o respectivo fascínio. 

Em seus 41 anos (1883-1924), Kafka deixou três romances inacabados e numerosas narrativas breves, muitas em diferentes estágios de finalização. Ele e Shakespeare têm isto em comum: suas reputações repousam sobre um cânone cuja edição nunca aprovaram nem revisaram. Blumfeld, Um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias, lançado pela Civilização Brasileira, inclui 36 textos. 

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Kafka veio ao mundo com um pé em nada menos que três canoas: nasceu no seio de uma família judaica de língua alemã, em Praga, então a terceira maior cidade do império Austro-Húngaro. Deste caleidoscópio cultural e da natureza elíptica da sua obra proliferou aquilo que Milan Kundera chamou de “kafkologia”, uma espécie de rótulo reducionista do gênio. Uma parte da culpa é de Max Brod, e outra da vítima e destas suas linhas bombásticas: “Querido Max, meu último pedido. Tudo o que deixo para trás deve ser queimado sem ser lido.”

Tendo em conta que quando morreu de tuberculose Kafka era mais anônimo que o Soldado Desconhecido, o apelo correspondia a um holocausto autoral. Generoso, Brod ignorou o pedido e vendeu o peixe kafkiano para a posteridade. 

O chato é que, generosidade à parte, Brod não entendia patavina de arte moderna, e classificou os textos do amigo como as efusões de um mártir esfíngico. Ora, apesar da originalidade dos grandes autores, Kafka nunca foi um ET. O século 20 foi formatado pela ideia de modernismo – um Zeitgeist ímpar na história da humanidade: a consciência de se ser “novo”. Este “pathos” inédito, uma ansiedade angustiada cuja fonte não pode ser localizada, impregna a obra de Freud e Wittgenstein, Klimt e Kokoshcka, Mahler e Schoenberg. 

Ressalve-se que não foi só Max Brod a confundir alhos e bugalhos: todo tipo de códigos de barras kafkianos estão disponíveis. Um místico apocalíptico? Um sionista enrustido (estudou hebraico e considerou emigrar para a Palestina)? Um cripto-cristão (devorou Pascal e Kierkgaard)? Um socialista (embora o crítico marxista Georg Lukács tenha excomungado Kafka como “vanguardista decadente”)? Um profeta do totalitarismo (as três irmãs do autor morreram nos crematórios nazistas)? 

Depois, rolou um esforço para “secularizar” a obra de Kafka, e priorizar sua linhagem literária. Por exemplo, a afinidade com o Expressionismo Alemão. A própria prosa kafkiana nada tem de obscura: é límpida, diamantina, destilada nas leituras de Goethe e Kleist. Se o significado é dúbio, por vezes de parábolas alegóricas, a palavra é exata, até conservadora. Daí deriva, aliás, um dos eixos desta obra: a formalidade impassível contrastando com o conteúdo alucinante. Em A Metamorfose, Kafka faz um Gregor Samsa transformado em barata (embora o entomologista Vladimir Nabokov apostasse em outro tipo de inseto) se afligir sobretudo porque vai chegar atrasado ao trabalho. 

Kafka não era kafkiano. Tinha veleidades mundanas e caprichos humanos. Trabalhou 13 anos numa companhia de seguros, onde foi funcionário exemplar, promovido a secretário-geral, e recebeu uma medalha ao se aposentar (lembrando o poeta T. S. Eliot, um bancário reverenciado pelos diretores do banco). Sem falar nos quatro noivados, Kafka desenvolveu um forte fraquinho por mulheres mais jovens e pagou uma agência de clippings para coletar a mais ínfima referência midiática à sua obra. E fez piada sobre seu primeiro livro, Mediation: “Onze exemplares vendidos na livraria do centro. Eu próprio comprei dez. Adoraria saber quem comprou o décimo-primeiro.”

Como notou David Foster Wallace, um humor ambíguo tempera a sofrência das histórias de Kafka, vira e mexe transfigurando a autoaversão em autoironia No conto Posídon (grafia a meu ver discutível), o deus dos oceanos é um executivo afogado na papelada, sem tempo sequer para dar um mergulhinho. Dois temas kafkianos de uma tacada só: a perversão da burocracia e as ciladas do ego. Já O Casal, O Vizinho e O Comerciante indicam como uma prosaica concorrência comercial pode descambar num ordálio metafísico. Quanto a O Foguista, consiste no primeiro capítulo do inacabado O Desaparecido (que Brod intitulou Amerika).

No fim do volume, aqueles que a meu ver são os dois contos mais perturbadores do autor, meditações pungentes sobre o nexo entre arte e comunidade: O Artista da Fome e Josefine, a Cantora. No primeiro, um perfomer circense protagoniza longos jejuns, e se frustra porque o dono do circo limita a inanição a 40 dias, impedindo-o de alcançar a grandeza artística (cujo horizonte está sempre além). Quando o número perde popularidade, ele pode morrer de fome à vontade e bater todos os recordes. Mas aí admite ter sido sempre uma fraude, pois jejuou simplesmente porque nunca encontrou uma comida de que gostasse. O artista não por causa, mas apesar de si mesmo. 

Josefine, por sua vez, é uma ratinha cantora e prima-dona dos camundongos, apesar de ter apenas um fiozinho de voz élfico. O canto de Josefine é simultaneamente o pão e o circo daquele povo indefeso: “Há nisso algo da infância pobre e breve, algo da felicidade perdida e que jamais poderá ser reencontrada, mas também algo da vida ativa de hoje, de sua vitalidade concisa, incompreensível e ainda assim impossível de ser aniquilada.” Enfim, o artista como sacerdote e bobo da corte, como cigarra e como formiga – tudo ao mesmo tempo, com uma ternura elegíaca e um narcisismo pueril. Kafka é o maior barato. 

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (editora Intermeios) 

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