Walter Dhladhla/AFP
Walter Dhladhla/AFP

Antologia reúne grandes discursos, dos inspiradores aos nefastos

Livro do historiador britânico Simon Sebag Montefiore traz falas de nomes que vão de Nero a Gandhi

Jeff Shesol, The Washington Post

15 de julho de 2021 | 10h00

Em um dezembro da década de 1950, John F. Kennedy recebeu um presente de Natal do redator dos seus discursos, Ted Sorensen: um volume espesso intitulado A Treasury of the World's Great Speeches (Um Tesouro dos Grandes Discursos do Mundo, em tradução livre). Não era um presente atrevido. Os dois homens imaginavam que algum dia seu trabalho em conjunto seria incluído em uma antologia como essa, ao lado de Cícero, Lincoln e Disraeli. Kennedy “devorou” o livro, lembrou Sorensen anos depois, “citando frequentemente passagens da obra para que usasse nos seus próprios discursos.

Ninguém vai contestar o resultado. (Na verdade, edições posteriores continham dois discursos de JFK). Por que, então, é tão difícil imaginar um político nos dias atuais percorrendo as páginas de uma antologia de discursos e estudando, como fez Kennedy, a cadência da linguagem de Churchill? Os prováveis Sorensens de hoje, buscando inspiração, estão mais propensos a buscar informação num vídeo de Barack e Michelle Obama do que tirar o pó do Tesouro e consultar a oratória de, digamos, William Pitt, o Novo. Mesmo o termo “oratória”, do nosso ponto de vista pós-milênio, parece desatualizado, uma retórica equivalente às calças até os joelhos e as sobrecasacas do passado. A maneira mais certa de ser retirado à força de um palco - qualquer palco - é limpar a garganta e começar a discursar.  

Muito refinados, os discursos extremamente ensaiados ainda têm seu público, como a popularidade dos escritos por Ted deixa claro. Mas discursos mais modernos refletem o que Kathleen Hall Jamieson, da Universidade da Pensilvânia, chamou de “estilo coloquial”, não necessariamente sem eloquência, mas informal, mais direto. A artimanha, a mágica da escrita, é um discurso que não parece ter sido escrito. “Soa como um discurso”, Bill Clinton às vezes se queixava quando revisava o rascunho. “Quero somente falar para as pessoas”.

O estilo coloquial não é novo - suas raízes passam pelos discursos de Clinton e Ronald Reagan às conversas ao pé da lareira de Franklin Roosevelt, mas nas últimas décadas se tornou o padrão. Satisfaz nosso anseio de “autenticidade”. O discurso coloquial é mais direto e não deliberado. E também se enquadra numa época em que os discursos são proferidos para pessoas “quadradas” e não para salões lotados. A grandiloquência não funciona num laptop.

Nossa opinião do que constitui um excelente discurso está, como sempre, evoluindo. Do mesmo modo, nossa visão de quem pode proferir um. O compêndio que Sorensen deu a Kennedy contém 150 discursos. Três do estadista francês do século 18, Conde de Mirabeau, mas somente dois proferidos por mulheres (a rainha Elizabeth Primeira e Elizabeth Cady Staanton) e dois por oradores negros (Frederick Douglass e Booker T. Washington).

Lend Me Your Ears, editado por William Safire, ainda é o padrão ouro depois de 30 anos após sua publicação, mas a desproporção em termos de gênero é quase tão flagrante quanto no Tesouro. Mas não é o único nesse aspecto, como revela uma análise da redatora de discursos Dana Rubin. O cânone dos grandes discursos é uma espécie de festa de despedida de solteiro. (Rubin, em resposta, lançou um arquivo on-line de discursos feitos por mulheres chamado Speaking While Female, ou Falando Enquanto Mulher, em tradução livre).

Claramente a antologia, como uma instituição, está apta a uma nova versão. Se pretende continuar relevante tem de abrir espaço para novas vozes e para uma “conversa” que pareça, em muitos casos, uma transcrição. E ao mesmo tempo estabelecer, para os leitores que podem presumir o contrário, que temos ainda algo a extrair dos tradicionais mananciais da retórica: os gregos, os primeiros ministros britânicos, presidentes americanos. O falecido Brian MacArthur, jornalista britânico, trabalhou assiduamente durante anos para atualizar os livros de discursos da editora Penguin; agora temos também Voices of History, uma coleção imprescindível feita pelo historiador Simon Sebag Montefiore.

Segundo Montefiore, os clássicos não perderam seu poder para inspirar, instruir, desafiar a consciência. Mas hoje, dado o alcance global da tecnologia, "a oratória vem florescendo de uma maneira mais visceral e mais popular do que nunca... Jovens oradores, como Greta Thunberg e Malala, se tornaram instantaneamente famosas no mundo inteiro em um discurso televisionado" - que pode ser assistido on-line milhões de vezes. Alguns desses discursos estão incluídos no seu livro, entre eles um de 2012 sobre o feminismo proferido pela escritora Chimamanda Ngozi Adichie ("O problema do gênero é que ele prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos).

Mas o foco de Montefiore está na observação - e no alerta - de que “palavras têm consequências”. Essas consequências, como esta coleção mostra, são vistas no progresso humano e nos derramamentos de sangue. “Nossa era de populismo, racismo, antissemitismo e teorias de conspiração nos torna extremamente conscientes de que “a violência da linguagem leva inexoravelmente à prática da violência”, afirma ele.

Embora o balanço geral favoreça os pacifistas - como Gandhi, Martin Luther King e Mandela, e afins, o livro, inclui, como deve, déspotas e demagogos. Se o fizemos antes, não devemos mais ler as maldições de Himmler ou de Robespierre (Terror não é nada mais do que justiça), a título de segurança; o pathos narcisista de Eva Perón (Você levantará o meu nome e o carregará para a vitória como uma bandeira); e Nero em seus momentos finais (que grande artista o mundo vai perder!). O mal, como observa Montefiore, com frequência chega disfarçado como algo absurdo, mas hoje não devemos estar prontos para rir.    

Como ocorre com as antologias, esta é muito compacta: Montefiore pretende que seu livro seja lido e não colocado na prateleira como referência. Mas ele parece um pouco preocupado em não perder seu público. Escritor de ficção e de histórias populares, Montefiore é um narrador de histórias vívido, mas seus comentários sobre os discursos com frequência dão a sensação de serem apressados, superficiais. A promessa de Winston Churchill de “lutar nas praias”, tem apenas um parágrafo de introdução; o discurso de Barack Obama na noite da sua eleição em 2008, nos disseram, reflete “o idealismo da experiência americana” - uma frase que convida a uma explicação que o livro não oferece.

Os textos falam por si, alguns afirmarão, mas Voices of History teria um valor maior se esclarecesse mais sobre como foram redigidos, as ferramentas e técnicas que produziram efeitos sobre os ecos dos grandes discursos do passado.

Mas esta coleção contém muito alimento para futuros Sorensens - talvez até um JFK. São palavras para ecoarem e serem lembradas, outras que seria melhor jogá-las nas cinzas da história. De qualquer modo, “palavras importam”, como Montefiore conclui. “Respeite-as”. As vozes neste livro oferecem um forte argumento para isso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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