Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Antologia reúne obra poética de Marcelo Tápia em ordem invertida

Começando por 2017 e terminando em 1982, 'Refusões' compila poemas do escritor

Érico Nogueira*, Especial para o Estado

12 Maio 2018 | 16h00

A leitura de Refusões, da editora Perspectiva, que reúne toda (ou quase toda) a obra de Marcelo Tápia, é uma aula de história da poesia brasileira – ou, mais especificamente, daquela que, nos (hoje badaladíssimos) anos 1980, parte do legado da poesia marginal dos 70, da poesia-práxis dos 60 e da poesia concreta dos 50 para dizer a que veio. 

Poesia de vanguarda, portanto.

E, pois, de questionamento, crítica, refusão.

Década interessante, aquela de 1980 – interessante e paradoxal (são todas assim?). Porque, embora fecunda e criativa, como hoje se reconhece, foi profundamente melancólica; meio niilista; como se estivesse de ressaca – o que o “ê, anos 80, charrete que perdeu o condutor” do eterno Raul sintetiza muito bem, e que talvez se traduza, em termos políticos, na frustração das Diretas Já...

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Agora me justifico: fiz essas reflexõezinhas de cunho geracional porque creio firmemente que uma das principais intuições da poesia de Marcelo Tápia (e que a marcará de maneira indelével) tem a ver com aquele clima, com a tesão e ulterior broxada dos 80, quando o poeta debutou. Isso, porém, só fica inteiramente claro (olha o paradoxo aí!) ao ler seu livro mais recente – e não é por outro motivo, suponho, que Refusões inverte a cronologia tradicional, e começa pelo fim. 

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Com efeito, o volume abre com Expirais, de 2017 (até então inédito), e, refundindo Valor de Uso (2009), Pedra Volátil (1996), Rótulo (1990) e O Bagatelista (1985), fecha com o Primitipo de 1982. Aceitemos, pois, esta cronologia inversa, e vejamos de que modo a modorra dos 80 aparece clara, depurada e lúcida no livro de 2017 – o que nos alçará a uma visão de conjunto da obra de um raro poeta, ó leitor, acredite, a um só tempo culto e sensível às demandas do tempo. Para tanto, leiamos e analisemos aquele que é sem dúvida um dos mais tocantes, perspicazes e melhores poemas do livro – refiro-me ao inteligentíssimo pseudoparnaso:

é mais difícil abdicar do canto

que do ar que anima o corpo

e deixa que as palavras sejam ditas,

quais forem elas, dos sopros aos ventos,

perdendo-se no vazio dos sentidos

imediatos, nos vãos dos mesmos dias

de sempre, destinados ao silêncio

mas nas frestas entre as frases, nos cor-

redores entre os ditos,

onde espreitam a cor, a correção

das lacunas pelos meios tortuosos,

a desenformação

do efêmero, é que o canto se revela

e foge, ágil, dos mínimos ventos,

articulando-se no fio das

melodias que se pressentem nos

dias, só ouvidas quando se quer,

cantantes nos contornos das ideias,

das estátuas, das notas, das palavras,

de todas as coisas, do meu suspiro,

dos labirintos suspensos de mim

e dos outros

Primeiro, o título: pseudoparnaso afirma obviamente a falsidade, a irrealidade e o carácter puramente ficcional do parnaso, entendido aqui não como o monte grego que, ele sim, de facto existe, mas como a própria poesia – irreal e falsa, poesia é ficção. Não é nada animador.

Este mal-estar, porém, se abranda logo no primeiro verso, em que se fica sabendo ser mais difícil parar de respirar que de fazer poesia, e se compara o canto à expiração, ao ar que sai da própria boca, imagem forte que não pode deixar de evocar a criação do homem pelo sopro de Deus. Então temos um paradoxo, uma antinomia, – ou pelo menos uma gostosa ambiguidade: porque, vácua embora, a poesia não se larga, e a mesma imagem da expiração pode entender-se como o ar expelido depois de aproveitado (e portanto como resíduo) e como sopro criador que a tudo anima e dá vida. 

Conforme vamos passeando no parnaso de Marcelo, o que vemos em seguida, ainda na primeira estrofe, é as palavras se perderem “no vazio dos sentidos / imediatos”, como a expiração que sai do peito, se evola e some nos ventos circundantes. Novo mal-estar. Nova desesperança. Mas na segunda estrofe abrem-se “frestas entre as frases” e aí mesmo “o canto se revela” capaz de desenformar o efêmero – isto é, as palavras e as coisas se encontram, e, já na terceira estrofe, se ouvem melodias que selam a efetividade do encontro e sugerem que algo no mundo mudou, que a poesia talvez não seja mero jogo verbal, que talvez haja certa correspondência entre a irrealidade da poesia e a realidade do mundo. E, para coroar essa sugestão, esta melodia aumenta, na última estrofe, ao cantar “nos contornos das ideias, / das estátuas, das notas, das palavras” – engenhosa alusão à natureza verbivocovisual do signo linguístico – e voltar ao silêncio, elegantemente, entre os labirintos que ligam um homem a seus semelhantes. 

Ou seja – e este é o meu ponto –, a despeito da técnica, da desencantada compreensão da poesia como jogo, da decomposição da mágica, ilusória e pré-moderna unidade verbivocovisual do signo linguístico para seu aproveitamento “racional”, das alusões e intertextualidade, etc. etc. etc., o que temos neste (e em muitos outros poemas do livro), e me parece ser o núcleo da poesia de Marcelo Tápia, é este elã, esta inspiração, esta sensibilidade capaz de captar um centelha de vida no meio da cinza morta de tudo. É a manipulação engenhosa, não de um antídoto, claro, mas de um fino placebo e paliativo contra a melancolia. É – me arrisco mesmo a dizer – a procura pela transcendência possível (falsa? irreal? ficcional?) em meio à mais opressiva imanência. 

Isso não é pouco, leitor. É uma intuição – um dom – que distingue Marcelo da massa indiferenciada dos poetas medíocres (que segundo Horácio ninguém tolera), e coloca a sua obra, agora reunida, num lugar de respeito na história da poesia nacional. Até mais ver!

*Érico Nogueira é poeta, ficcionista e professor da Unifesp 

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