Companhia das Letras
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Antologia reúne poemas do americano Wallace Stevens

'O Imperador do Sorvete e Outros Poemas' tem tradução de Paulo Henriques Britto

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

10 Fevereiro 2018 | 16h00

Numa palestra proferida no ano passado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto se propôs a explicar como havia traduzido o poema The Course of a Particular (O Percurso de um Pormenor), de Wallace Stevens (1879-1955), que agora integra a antologia O Imperador do Sorvete e Outros Poemas, apresentada por ele e inteiramente dedicada à obra do grande modernista americano. O poema fala de “gritos de folhas que não se transcendem”, e o tradutor explica, numa nota, que o tema é a “negação da transcendência, que percorre toda a obra de Stevens”. A tarefa de recriar em português a variabilidade métrica dessa poesia, com toda a sua riqueza imagística, exigiu, como ficou evidente na referida palestra, uma análise minuciosa dos ritmos, das rimas e dos conceitos do texto original.

A antologia é uma reedição aumentada e retrabalhada de outra, intitulada Poemas, que foi lançada pela mesma editora em 1987, e revela o quanto é antigo o contato de Paulo Henriques Britto com a obra de Wallace Stevens, cuja poesia nunca deixou de ler a estudar ao longo dos anos, como a introdução à nova edição nos deixa entrever. No entanto, o tradutor declara que muitos jogos do original são, a seu ver, impossíveis de reproduzir em português. Ao comentar o poema Of Mere Being (Meramente Ser), considerado o último poema de Stevens e também um dos mais importantes da sua carreira, ele chama a atenção para o verso final: “The bird’s fire-fangled feathers dangle down”, esmiuçando, depois de declará-lo “radicalmente intraduzível”, esse pentâmetro jâmbico. Essa análise deu-lhe bases para propor, primeiro, uma tradução literal (“As penas chamuscadas/incendiáveis do pássaro pendem (para baixo), oscilando”) e, depois, outra, que recria as aliterações, as assonâncias e a rima interna: “As penas de ouro do pássaro resplendem fogo”. Ou seja, a tradução literária é possível, mesmo que algo da riqueza original se perca, como o tradutor quer demonstrar aqui. 

Na segunda estrofe desse poema, lemos: “Um pássaro de penas de ouro / Canta na palmeira, sem sentido humano, / Sem sentimento humano, um canto estrangeiro”, o que podemos associar ao “grito de folhas” no inverno, que também não é grito humano, endereçado a nós. Numa análise de The Course of a Particular, publicado em O que Significa Ensinar Literatura? (EdUFSC/ Ediunesc, 2017), o crítico e tradutor André Cechinel afirma: “Em vez de fundar um ponto de estabilidade, um lugar de conciliação e de reencontro para um ser humano abandonado num mundo hostil, o som das folhas e a imagem da natureza coberta pela neve revelam uma indiferença profunda e devastadora: à possibilidade de antropomorfização do espaço, o poema responde, na verdade, com a aniquilação do sujeito, reduzido a espectador irrelevante e impotente”.

Em Adagia, não incluído no volume da Companhia das Letras, o poeta afirma que “A poesia tem de ser irracional”, o que parece tê-lo levado, muitas vezes, ao limite da linguagem. O pensamento é só uma expressão, sentenciou Wittgenstein em The Big Typescript: TS 213, e o que não se pode pensar tampouco se pode expressar ou sugerir. No entanto, muita coisa que talvez não possamos nunca pensar é sugerida na poesia de Wallace Stevens, como ocorre nas passagens citadas, nas quais a imaginação é uma das forças da natureza. Talvez por isso seja tão emocionante ler um poema como The Planet on the Table (O Planeta na Mesa), que é preciso, conciso e leve, tal como o seu protagonista, o espírito aéreo Ariel, saído da peça A Tempestade, de Shakespeare: “Ariel gostou de ter escrito seus poemas. // Que perdurassem não era importante. O importante era que portassem / algum traço de caráter, // Uma afluência, mesmo quase imperceptível, / Na pobreza de suas palavras, / Do planeta do qual faziam parte”. 

Ao falar desse poema, que resultou em português num belo texto, certamente um dos pontos altos da antologia, junto com os poemas longos, como Notes Toward a Supreme Fiction (Apontamentos para uma Ficção Suprema), Paulo Henriques Britto explica: “Ao final da peça, Próspero, o mago, afirma que vai abandonar a magia. Sendo A Tempestade tradicionalmente considerada a última peça de Shakespeare, o monólogo final de Próspero tende a ser lido como uma fala do próprio dramaturgo, anunciando sua aposentadoria. No poema, porém, o eu lírico identifica-se não com Próspero, e sim com Ariel, que até então trabalhava para Próspero, e que, ao final da peça, é libertado pelo mago, que não precisará mais de seus serviços”. 

Wallace Stevens acreditava nas imagens, e nelas, conforme ele sabia, podia ocultar-se outro planeta. Por isso, se chegou a declarar que deus e o templo são a mesma coisa, também esclareceu que os olhos veem menos do que a língua diz, e que a língua diz menos do que a mente pensa.

*É poeta, dramaturgo e ensaísta. É autor, entre outros livros, de 'Trio Pagão' (Iluminuras, no prelo), que reúne poesia visual e verbal 

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