Ao mistério, as batatas

Estudante aventureiro, agente do Mossad ou só um garoto bobo? Na barganha, Ilan Grapel valeu 25 presos egípcios

Viviane Vaz, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h07

JERUSÁLEM 

Na prisão no Cairo, peixe fresco e iguarias para egípcio nenhum botar defeito. Na volta para casa, jantar bem ianque com o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu: hambúrguer e batatas fritas. O americano-israelense Ilan Grapel, 27 anos, acusado de ser um agente do Mossad (serviço secreto israelense) pelo governo egípcio e detido no Cairo em 12 de junho, foi libertado na última quinta-feira após intensas negociações entre Egito, Israel e Estados Unidos. Ao contrário do soldado israelense Gilad Shalit - que comoveu o mundo na semana anterior por sua palidez e magreza ao ser solto pelo grupo palestino Hamas na Faixa de Gaza -, o Grapel que voltou à liberdade estava corado, bem nutrido, com a roupa limpa e bem passada. Um rapagão forte e sacudido, como se diz. O esquálido soldado Shalit passara 5 anos, 3 meses e 22 dias a pão sírio e homus. Grapel parece ter passado melhor, obrigado.

Ele voou em um jato da Força Aérea israelense do Cairo a Tel-Aviv ao lado dos negociadores responsáveis por sua libertação, o congressista israelense e advogado Yitzhak Molcho, e do ex-diretor do Shin Bet, a agência de segurança de Israel, Yisrael Hasson. No aeroporto Ben Gurion, recebeu um abraço apertado da mãe, Irene, que toca viola na Filarmônica de Nova York. E, em Jerusalém, foi recebido por Bibi (apelido de Netanyahu) em seu escritório particular na bela residência com segurança reforçada. E então se seguiu o menu americano.

O suposto espião disse que se sentiu "isolado" no xadrez, mas agradeceu o tratamento dispensado pelos egípcios. "Os guardas eram ok. Se eu queria comer, eles me davam, inclusive, peixe fresco. Pagaram pelas minhas refeições mais do que um egípcio comum receberia", disse Grapel durante a entrevista coletiva que concedeu em Jerusalém. O tratamento de primeira até levantou desconfianças entre comentaristas em Israel e no Egito. A recepção de Bibi ao estudante americano foi tão boa que abriu margem a pensarem que Grapel realmente seja um espião. Para os egípcios, o hambúrguer com fritas no gabinete do primeiro-ministro mais do que bastou para indicar que moço realmente tentava reunir informação e monitorar os eventos da revolução de 25 de janeiro, a Primavera Árabe deles.

Segundo os pais de Grapel, Irene e Daniel, a ideia de que o filho fosse um espião no melhor estilo James Bond sempre soou absurda. "Qualquer um que conheça Ilan em Israel sabe que essas histórias de espiões não são sequer engraçadas, passam do ridículo", disse o pai, um ortopedista de Nova York. Para o casal, o filho é um rapaz estudioso, fluente em árabe e hebraico, amante da cultura árabe, que decidiu viajar para o Egito "em busca de aventuras" antes de retomar o curso de direito na Emory University, em Atlanta. Daniel inclusive pensa em processar o governo egípcio pela difamação do filho.

Por quase cinco meses Grapel negou ser um espião, e o governo de Israel fez o mesmo. Os EUA aceitaram a palavra do maior aliado no Oriente Médio. "Desde o início, os altos escalões israelenses me garantiram que de nenhuma maneira Ilan Grapel teve algum envolvimento com espionagem, Mossad ou qualquer tipo de agência de inteligência", disse o congressista democrata Gary Ackerman, que esteve presente na reunião com Bibi e na coletiva de imprensa. Gary conhece Grapel e sua família desde que o rapaz, então estudante de relações internacionais, fez estágio em seu escritório no verão de 2002. "Ele é idealista e interessado na coexistência. Talvez tenha sido ingênuo", defendeu o parlamentar americano.

Também para o principal negociador da libertação de Shalit, Gershon Baskin, Grapel não era espião israelense de "jeito nenhum". "Esse rapaz não chega perto do perfil exigido pelo Mossad. É um garoto bobo que foi ao Egito, fez besteiras e acabou levantando suspeitas sobre quem ele era. Agentes do Mossad não colocam fotos no Facebook", ressaltou Baskin ao Aliás. Por outro lado, o diplomata brasileiro e ex-assessor especial de Assuntos Estratégicos da Presidência no governo Lula Paulo Roberto de Almeida afirmou que qualquer pessoa, por mais inocente que pareça, pode ser um agente de espionagem. "Aliás, busca-se justamente alguém que tenha a capacidade de atuar sem despertar suspeitas", disse Almeida, lembrando o figurino básico de qualquer bom espião.

Mas e a paranoia, onde fica? O especialista egípcio em Israel Abdel-Alim Mohamed, do Centro Al-Ahram, ressalta que no Egito existe uma imagem mítica do Mossad. E dá um exemplo quase hollywoodiano de como as coisas são numa região coalhada de ditos e contraditos: em janeiro deste ano, enquanto tubarões atacavam turistas no Mar Vermelho, autoridades egípcias levantavam hipóteses de que seria o Mossad o grande responsável por aquela fúria assassina, planejada de forma calculada para prejudicar o turismo...

Não é de admirar, portanto, que uma sombra encubra a história do jovem "aventureiro" Grapel. Com dupla cidadania, ele serviu às Forças de Defesa de Israel em 2005 e foi ferido na guerra do Líbano em 2006. A experiência do confronto parece não ter desanimado o jovem judeu a visitar países árabes. Chegou ao Egito no início deste ano como voluntário de um serviço humanitário: ajudaria os refugiados africanos da organização não governamental Saint Andrew, quando foi preso no Cairo. Jovens egípcios comentaram em fóruns na internet que Grapel fez amizade com muita gente nos protestos da Praça Tahrir e até frequentou mesquitas no Cairo. O jornal Al-Ahram relatou que Grapel tentou descobrir a opinião dos egípcios em relação ao acordo de união entre os grupos palestinos Hamas e Fatah e também compilou informações sobre a posição dos movimentos salafistas e a Irmandade Muçulmana quanto às perspectivas das relações egípcias com Israel e com o Irã. E ainda teria mentido na requisição do visto de entrada para o Egito, declarando no formulário da embaixada egípcia em Tel-Aviv que era... muçulmano.

Na Idade Média e Moderna, essa busca por informações estratégicas de territórios e governos estrangeiros costumava ser feita por embaixadores e enviados plenipotenciários. Com o Congresso de Viena de 1814, os Estados nacionais começaram a normatizar as regras das relações diplomáticas e formalizar os serviços de inteligência e das Forças Armadas. Hoje as atividades de inteligência se profissionalizaram, mas os alvos da informação permanecem: "Forças e fraquezas do país de interesse, natureza do processo decisório, posições do país em questões sensíveis no relacionamento bilateral ou na agenda internacional e agora, cada vez mais, segredos tecnológicos e competição comercial", detalha o brasileiro Almeida.

Para libertar Grapel, o governo de Bibi concordou em trocá-lo por 25 presos egípcios condenados por tráfico de drogas. O escambo teria servido para levantar ainda mais o moral dos egípcios depois da mediação no caso anterior, o do soldado Shalit, e como um incentivo para melhorar as relações entre Israel e Egito. Desde a queda do ditador Hosni Mubarak, os dois países já registraram incidentes no fornecimento de gás do Egito para Israel, morte de policiais egípcios na fronteira por soldados israelenses, um atentado proveniente do Egito a um ônibus israelense e, finalmente, uma violenta invasão popular da embaixada israelense no Cairo.

E talvez o mais surpreendente: o governo americano de Barack Obama liberou a venda de aviões de combate F-16 para o Egito como incentivo para a libertação de Grapel. A venda de aviões militares jamais teve o apoio de Israel, que desta vez concordou. O negócio era também rejeitado pelos EUA nos anos de Mubarak, de forma a manter o "equilíbrio" militar na região. Diz-se que a previsão de entrega a Israel de um modelo de caça mais avançado que o F-16 nos próximos cinco anos, o F-35, contribuiu para diminuir a resistência israelense à oferta americana aos egípcios. Do lado árabe, pareceu relaxamento demais para ter de volta um "garoto bobo" dado a "fazer besteiras".

Enquanto os egípcios sorriem de orelha a orelha pelo novo acerto com Israel e EUA, os israelenses se dividem se o preço pago pela libertação Grapel foi excessivo ou foi justo. Mesmo sem saber se se tratava apenas de um estudante aventureiro ou de um agente de inteligência, Almeida explica que, se os governos não demonstrarem lealdade ao funcionário fiel, poucos seriam os candidatos ao serviço. "Todo governo que possui um serviço de inteligência profissional tem interesse em preservar e recuperar seus agentes: eles custaram muito para serem formados", completa. E nas próximas semanas, espera-se que Israel "recupere" outro israelense acusado de espionagem encarcerado no Egito há 11 anos. Seu nome é Ouda Tarabin. Ele sempre negou trabalhar para o Mossad e se sente "esquecido" por ser de origem beduína (árabes nômades do deserto), ao contrário de Grapel e Shalit, israelenses de origem americana e francesa.

Com mais sorte que Tarabin e Shalit juntos, Grapel mostrou-se confiante ao agradecer publicamente sua libertação ao povo israelense e ao povo egípcio perante os jornalistas, mas estava visivelmente tímido na presença de Netanyahu e do ex-congressista americano ao entrar no escritório do premiê. Gary saudou Bibi dizendo: "Tenho um presente de aniversário para você!" O premiê, que fez 62 anos no dia 21 de outubro, recebeu como regalo o estudante e também um aperto de mãos de Irene e Grapel. Bibi os cumprimentou educadamente e dirigiu ao rapaz algumas palavras em hebraico: "Você se sente bem?" Grapel acenou que sim, sorriu sem graça e ainda soltou um longo suspiro de contida ansiedade. Ele já retornou ao bairro de Queens, em Nova York, onde reside com a família. Ao espião (ou não), as batatas. Fritas.

 

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