Ao perdedor, a azeitona

Obama passou meses acenando com a paz aos republicanos. Agora lhe pedem que ofereça um conciliador ramo de oliveira. Quem tem de oferecer são os derrotados

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h08

A tão anunciada guinada para a direita afinal não se deu. Parafraseando Mark Twain, as previsões de que o conservadorismo consolidaria seu predomínio na política americana elegendo Mitt Romney foram um tanto ou quanto exageradas. Ainda bem. Aqueles a quem os deuses querem destruir, primeiro transformam em profetas do apocalipse.

O comentarista Dick Morris previu uma lavada de Romney. Onde? Na Fox News, ora, a câmera de eco dos conservadores, também o bunker do gordinho sinistro Karl Rove, estrategista do governo Bush, que cantou vitória antes do tempo e teve um chilique no ar quando o canal aceitou como inevitável o triunfo de Obama. Outras cassandras de araque, como George Will e Michael Barone, anteciparam mais de 300 votos para o candidato republicano no colégio eleitoral. O pleito já estava decidido quando Peggy Noonan, ghost writer dos discursos de Ronald Reagan e, como Rove, colunista do Wall Street Journal, acusou o eleitorado de Obama de "desconhecer o mundo ao seu redor". Quem parece ou finge desconhecê-lo é Noonan.

Venceu a América reconfigurada, não apenas Obama e os democratas. Venceu o liberalismo. Venceu Nate Silver, o formidável estatístico ancorado no portal do New York Times, que nem quando Romney subiu nas pesquisas duvidou da reeleição de Obama. Perdeu o Tea Party. Perdeu o truísmo "é a economia, idiota" (estúpido é americanismo), já que, afinal de contas, a eleição de terça-feira não foi um plebiscito sobre a crise (que o grosso dos americanos sabe quem desencadeou) e a inabilidade de Obama 1.0 para superá-la (porque sempre obstruído pela maioria republicana), mas sobre a equidade.

Mais gratificante do que o papelão de Romney (mentiu, virou a casaca, e só não se sagrou o candidato a presidente mais rejeitado nas urnas em seu Estado natal porque o californiano John C. Frémont continua imbatível nesse quesito há 156 anos) foi a desmoralização provisória, oxalá definitiva, do jornalismo bege- e muitas vezes marrom, mesmo - praticado pela Fox News, pelo Drudge Report e quejandos.

Mesmo eleitores, ainda que contrafeitos, de Obama andaram augurando sua derrota. Até Lee Siegel temia que seus conterrâneos afinal optassem pelo caucasiano Romney. Reconfortado, escreveu na terça-feira um artigo excelente para o blog do New York Times, no qual exortava a metade vencedora do eleitorado americano a "deixar a outra metade para trás" e aconselhava o presidente reeleito a ser tão intransigente na defesa de sua plataforma quanto Romney ameaçara ser com a sua, ceifando ou desmantelando os programas sociais mais próximos do New Deal e da Grande Sociedade, caso saísse vencedor. "Em segundo mandato, Obama nada mais tem a perder", arrematou Siegel, para desgosto dos pragmáticos e pizzaiolos de plantão.

Foi justamente por curvar-se em demasia às turrices retrógradas dos republicanos que Obama comprometeu seu primeiro mandato e pôs em perigo sua reeleição. A crise econômica atual não é só um legado do governo Bush, mas também consequência das concessões feitas por Obama, do seu comportamento amedrontado diante do chantagismo obstrucionista dos republicanos, em nome da governabilidade.

Certo, os republicanos ainda mantêm sólido domínio da Câmara, mas os democratas continuam majoritários no Senado e ainda reforçaram sua base no Congresso, elegendo políticos mais vigorosos e representativos da nova realidade étnica, racial, sexual e demográfica americana (até uma representante budista e outra hindu os democratas emplacaram no Havaí), e varrendo do mapa republicanos odientos como Joe Walsh (do Illinois) e Allen West (da Flórida), para não falar daqueles dois folclóricos defensores do estupro-como-vontade-de-Deus, Richard Mourdock e Todd Akin. Eleita por Massachusetts, a progressista puro sangue Elizabeth Warren foi um prêmio para a guerra que os democratas vão travar no Congresso.

Para o sábio Paul Krugman, Obama deve fazer pé firme, não ceder a ameaças, não deixar o país refém, novamente, de um bando de fundamentalistas do livre mercado, pretorianos legislativos de 1% da população, rejeitados pela maioria do eleitorado na eleição de terça-feira.

Wall Street não se rende. A plutocracia continuará mobilizando lobistas, advogados, o diabo, para que o próximo secretário do Tesouro se acomode aos interesses do setor financeiro, como Timothy Geithner. E, sempre que achar necessário, usará seus jagunços mais atrevidos, dentro e fora do legislativo, para melar acordos bipartidários razoáveis sobre cortes de gastos, o fim de certas isenções fiscais e o incentivo a programas de grande alcance social.

Andrew Leonard, da Salon, chamou atenção para um artigo publicado no USA Today, na quinta-feira, enumerando as "cinco coisas que Obama precisa fazer para agradar a Wall Street". Mais do que já agradou? A primeira é "negociar o abismo fiscal". Em que termos? Abrir mão do aumento de impostos para quem embolsa mais de US$ 250 mil por ano, inadmissível; 60% dos eleitores apoiam o fim do congelamento fiscal concedido por Bush e generosamente mantido por Obama.

A segunda é "oferecer um ramo de oliveira aos republicanos". Obama passou meses e meses segurando um ramo desses, inutilmente. Quem tem de oferecer um ramo de oliveira são os perdedores. A terceira é "desistir de regulamentações onerosas". Onerosas foram as desregulamentações apadrinhadas a partir do governo Reagan. A quarta é "apresentar um plano digno de crédito para diminuir drasticamente o desemprego". Obama já apresentou um, o American Jobs Act, refugado pela Câmara. A quinta é "reconsiderar o aumento de impostos para ganhos de capital". Saltar o abismo sem sacrificar quem mais pode arcar com um arrocho fiscal não seria um ramo de oliveira, mas uma oliveira inteira.

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