Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Ao rés das margens

A redução de velocidade na Marginal prejudicou os negócios de Edima, que vive dentro de uma ponte de acesso e tira seu sustento da Tietê. Mas essa é a última de suas preocupações

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2015 | 16h00

Da Casa Verde ao Limão, do Limão à Casa Verde. Não chega a ser uma estirada, mas, como “as coisas não têm lógica para cair”, a andança um tanto claudicante, sempre com o pé esquerdo meio de lado, estropiado por um acidente de moto, lhe toma o dia todo: das 6h às 18h. O que falta de critério nas peças que escapolem dos automóveis e que ele recolhe, junta, e vende no ferro-velho sobra de método em seu dia a dia. Às vezes, numa primeira ronda, é possível que não encontre nada, mas, numa segunda, pode-se topar com uma corrente, uma peça de carroceria ou até com um naco de motor. O fluxo é intenso. Ininterrupto. Necessário é estar atento, bem acordado e, por isso, ele passa e repassa cada palmo do percurso. E, se hoje faz ida e volta na margem da pista expressa, amanhã tratará de caminhar na ilha da local - nesse ramo, dar tempo ao tempo é também essencial.

Quem anda ali é o seu Edima, encontrável às margens da Marginal do Tietê, de segunda a sexta-feira, pelejando de chapelão de palha na cabeça.

Seja das engrenagens que se soltam, seja das latinhas e cacarecos que os motoristas atiram pelas janelas - e como atiram coisas pelas janelas, os motoristas! -, ele vai levantando o fixo do mês, que hoje gira na casa de uma onça. O quilo da latinha, por exemplo, está por volta dos R$ 3 e o do metal, raridade, chega a R$ 7. O negócio é ir juntando e, quando tiver o suficiente, tocar pro comprador. Se bem que, desde o 20 de julho, quando a Prefeitura deu de diminuir a velocidade das vias, a fonte de renda marginal vem minguando. A 90 km/h, a trepidação é grande e cai peça pra danar, a 70 km/h nem tanto, a 50 km/h então, muito menos. Pensa que ele está querendo esfalfar o prefeito vivo por isso? Que nada. “Tem que andar mais devagar mesmo, 90 km/h é um descabimento. Já deu pra notar que até os acidentes diminuíram e também está mais fácil de atravessar”, diz o catador de ferro-velho, o seu Edima Soares Teixeira, do topo da sua autoridade de trabalhador e morador na Tietê.

Serviço solitário, tem vez que ele passa o dia todo sem nem abrir a boca, mas nunca acontece de não ouvir nada. É que tem gente que, de passagem pela Marginal, protegida pela velocidade do automóvel, grita e buzina pra aquele velho sair da rua, que rua é lugar pra quem tem pressa e não pra quem é velho. Pode ser que imaginem que ele seja “só um doido”; afinal, obviedade pra quem dirige preocupado em chegar ao destino, avenida não é pra se andar. Mas, se deixassem de supor e se interessassem por conhecê-lo, talvez guardassem o grito. Ele dá de ombros, diz que não liga, “pode até ser um conhecido me zoando”, mas, quando chega ao fim do expediente, no sossego sozinho da sua casa, lembra dos xingamentos.

Lá fora, o sol abrasador não faz jus ao inverno. Lá dentro, ainda com a pupila contraída pela luminosidade, é um breu total. Com os olhos dilatando, contudo, a casa do Edima, dentro de uma ponte de acesso da Marginal do Tietê, vai se revelando aos poucos. No que era apenas um oco debaixo de duas pistas elevadas, ele, engenhoso, fez morada. Primeiro, abriu uma passagem no concreto e colocou porta de alvenaria. Depois, lá dentro, onde existe um barranco com pra lá de 3 metros de profundidade, fixou umas estacas de madeira e, por cima delas, tapou tudo com assoalho e foi botando suas coisas. Tem mesa, cama, armário, banheiro, varal, fogão elétrico, rádio, televisão e DVD. Tudo encontrado no lixo, descartado por alguém. A única coisa que não entra é botijão de gás, porque ele tem medo de que um espírito de porco invada o pedaço e mande a casa pelos ares. Do lado de fora, tomando cuidado para não incomodar ninguém, “porque o terreno é público”, deu, agora, de plantar verduras, temperos e árvores frutíferas. Edima se considera bem paulistano, mas não consegue esconder um pezinho no interior: sempre deixa escapar um “r” bem marcado na fala. Daí, talvez, venha o interesse por plantar.

Ali no Galpão 29 - apelido que ele botou na casa depois de fixar na porta uma plaquinha com essa numeração -, está desde 2013. Só que essa não é a primeira vez que vive nessa mesma ponte de acesso. Durante 10 anos, entre 1980 e 1990, ele morava no mesmo lugar, só que do outro lado da passagem. Se hoje preza pelo sossego, na época, mais novo, dividiu o espaço com outras pessoas e viu de tudo: de criança nascendo a conhecido definhando de aids até a morte. Em 1996, deu certo. Arranjou trabalho em um ferro-velho e se mandou para lá. Durante 14 anos, juntou dinheiro e viveu no próprio serviço. Por um tempo, achou que a rua, enfim, tinha saído dele, mas se enganou: “Tenho lutado muito, mas não encaixa. É perda atrás de perda. São 62 anos de vida e 62 anos perdendo. Se você gosta de derrota, menino, veio ao lugar certo”.

De primeira lembrança da vida, o Edima traz o nome do orfanato em que deu por si. Casa da Dona Linda, em Araçatuba, interior de São Paulo. Sabe que nasceu no sertão da Bahia, em Caetité, cidade natal de Anísio Teixeira (educador e intelectual brasileiro), mas não conheceu pai nem mãe. Por duas vezes foi adotado e, por duas vezes, foi colocado para trabalhar na casa da família adotiva. Expediente comum, pelo menos naquele Brasil dos anos 1960, era pegar um moleque de orfanato para criar como empregado. Na primeira vez, voltou pra Dona Linda. Na segunda, foi colocado para servir em uma casa de grã-fino. Lembra-se de grandes salões lustrosos e do dia em que cortou o pé com um caco de vidro. Fugiu. Deu em São Paulo. Criou-se na rua, sempre andejo, sem parar um segundo, porque na rua “o que não falta é aproveitador”. “Durante muito tempo eu tive sonhos, mas, de sonho em sonho, acabei parando aqui mais uma vez. Hoje, para mim, sonho é só na padaria, o que eu tenho são planos. O principal é aposentar e sair da rua de vez”, diz, num sorriso franco e habitual.

Em 2009, quando deixou o trabalho no ferro-velho com um processo trabalhista na Justiça - que se arrasta até hoje e que pode ser a chave de sua planejada aposentadoria -, tinha amealhado o suficiente para comprar um terreno em Itapevi, cidade vizinha de São Paulo. Lá por 2012, com uma casinha erguida, descobriu que tinha sido enganado. Sem conseguir dar muitos detalhes, explica: “Era muita pressão, o terreno tava cheio de dívidas, e começaram a vir uns homens com pitbull e tudo o mais para me tirar de lá, não aguentei, caí fora”. Edima calcula que deixou ali uns R$ 20 mil só em material de construção. “Os homens”, que ele não sabe dizer ao certo quem eram, empurraram R$ 10 mil e mandaram ele andar, raspar o prato. Percebendo que se insistisse ficaria sem nada, andou. Durante um ano dormiu dentro de uma carrocinha até que se lembrou da ponte de acesso da Marginal.

Pouco mais de 1,60 m, cabeça chata e careca, cavanhaque branco aparado milimetricamente, de comum o Edima é de uma tranquilidade quase monástica. Sempre tem uma tirada espirituosa para tudo. Por exemplo, por que você vive sozinho, seu Edima? “É que viver com mulher é como entrar numa floresta escura”, e de escuridão, nesse momento da vida, basta a dele próprio. Os olhos verdes sempre estão sorrindo, acompanhados pela dentadura que lhe custou muito aço encontrado na pista. Não é de se queixar, mas conhece bem a injustiça: “No Brasil, quem pode mais chora menos”.

Duas coisas inflamam o Edima. A primeira é lembrar o tempo em que bebia e brigava. Aí os olhos sorridentes se abrem bem e ele, todo vigor, encena gesticulando as façanhas de que era capaz. Perdeu a conta de quantas vezes já foi parar no xilindró e, na fogueira da bebedeira, já deixou muito cabra estirado no chão, destruiu bares em acessos de fúria e, uma vez, quando morava em Belém do Pará, quase morreu de tanto apanhar. Por quê? “Quem bebe não lembra nem os motivos e eu tomava cana até enrolar a língua e chamar cachorro de chorro. Pra viver na rua só anestesiado.” A segunda é pensar no individualismo. “Eu quero ficar sozinho porque nunca tive amigo pra me ajudar, mas o certo era as pessoas se unirem e fazerem juntas o que sabem de melhor.” Ele, por exemplo, entende de mecânica, marcenaria, construção, uma pá de coisas, mas é semianalfabeto. Assinar o nome, ler isso ou aquilo, ele até aprendeu. Mas, se tivesse alguém pra ajudá-lo, tem certeza de que não estaria na rua. “Nunca teriam me enganado no contrato daquele terreno e meu antigo patrão já tinha pagado todos os meus direitos.” Às vezes, ele se sente como um motor velho que só vai até certo ponto: “Não adianta acelerar mais, porque daqui parece que eu não consigo passar sozinho, só a união resolvia”.

O Edima, mesmo conhecendo a injustiça, tem certeza de que a vida do brasileiro melhorou. “Difícil foi 1970, pra saber se tá melhor ou não, só sendo igual a mim que não tenho nada.” Mas o que melhorou, então? “Pouca coisa, mas agora eu, com mais de 60, já posso pegar um ônibus de graça. Essas coisas ajudam demais.” A única coisa que sente falta no Brasil dos seus anos de menino são os trens. Neles, o Edima rodou o País. Trabalhou na construção civil em Ouro Branco e em Ouro Preto, nas Minas Gerais; deu sua contribuição no garimpo de Carajás, no Pará; abriu novas frentes de trabalho nas minas de cassiterita, em Rondônia, onde dormia em alojamentos rondados por onças; deu um jeito de driblar a experiência exigida no recrutamento do Projeto Jari, jogando-se na água para embarcar ilegalmente no barco dos recrutadores e lá conseguir emprego. Rodou, rodou, e voltou. Por que São Paulo? “Ué, porque eu gosto daqui. Não consigo ficar longe.”

No seu Galpão 29, decorado com santos, bonecas, quadros com motivos religiosos, relógios, espelhos e restos de fantasias de carnaval, Edima explica que para aguentar o tranco de viver na baixada da ponte “tem que ter muito treinamento”. E, por treinamento, ele entende, em primeiro lugar, estar acostumado com a vida dura, a vida que só dá porrada, que passa faturas altíssimas mesmo quando o vivente não fez por colher. Em segundo lugar, a pessoa tem de ser metódica, limpa, sã e não beber, como ele próprio, que parou com isso de cachaça desde o acidente de moto que lhe tirou a mobilidade do pé esquerdo, em 2005. Água, por exemplo, “virou artigo de luxo, não dá pra ficar pedindo pra encher galão todo dia nos lugares, por isso, tô vivendo à base de 10 litros por mês”. Apesar disso, é essencial fazer “faxina corporal” todo dia, usando lenços úmidos e lavanda. E o mais importante é nunca deixar louça suja, que ela junta bicho num instante. Outra exigência: roupa de trabalho é uma, roupa de casa é outra e roupa de sair é uma terceira. Nada de trazer fuligem de Marginal para o Galpão. E mais algumas questões práticas: eletricidade só depois das 18 horas, quando o sistema de iluminação dos postes é acionado; abrir a porta de noite, nem pensar, porque tá cheio de noia na região.

Tem dia que bate uma solidão no Edima, uma vontade de mulher, filho, família, alguém pra conversar e se preocupar com ele. Hoje, as pessoas mais próximas são os seguranças Luis, Ricardo e José, que trabalham perto do Galpão 29 e sempre trocam um dedo de prosa com o “gaúcho”, apelido sem pé nem cabeça que botaram nele. Mas isso não resolve a vontade de gente. Então, Edima enverga seu paletó de sair - “se eu pudesse, só usava blazer, nunca entro num ônibus esfarrapado” - e toca pra alguma feira em que vende umas coisinhas que ele encontra e conserta: bolas de futebol, relógios, furadeiras. Tem feira em Cachoeirinha, Mogi das Cruzes, Itapevi, uma porção de lugares. E nelas ele circula, vê pessoas, conversa. “Me vendo lá, ninguém nem suspeita que eu moro onde moro.” Só que tem dia que a solidão é tanta que ele sente, sabe-se lá por quê, um desejo de ir à igreja. Rezar, não sabe, nunca lhe ensinaram. Em Deus, tem dia que acredita e tem dia que não. Mesmo assim, vez ou outra, vem a vontade de fazer uma visita à Catedral da Sé. Ele evita, mas às vezes cede. Lá dentro, naquele claro escuro, metido em um banco minúsculo em comparação ao pé direito da construção, observando quieto os vitrais, cai no choro. Chora, sem exagero, até fazer poça d'água debaixo dos pés. Chora e não sabe explicar por quê.

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