Ao trolador, as batatas!

Rapaz levanta milhares de dólares em crowdfunding para uma salada da qual confessa nada entender

Ian Crouch, THE NEW YORKER

19 Julho 2014 | 16h00

Em primeiro lugar, os fatos simples, porém estranhos: na quinta-feira, 3 de julho, um jovem de Columbus, Ohio, chamado Zack (Danger) Brown promoveu uma campanha de doações pelo Kickstarter, site usado para levantamento coletivo de recursos (crowdfunding), para fazer uma salada de batatas. Ele não oferecia aos potenciais colaboradores nenhum projeto de negócio ou prova de conceito nem declarava que sua salada de batatas seria o próximo cupcake ou cronut. “Só vou fazer uma salada de batatas. Ainda não decidi de que tipo.” Para tanto, pedia uma contribuição de US$ 10. Na tarde da quarta, já tinha recebido apoios que ultrapassavam os US$ 70 mil. (Na manhã de quinta esse total caiu para pouco mais de US$ 40 mil, e a última informação é que estava em cerca de US$ 50 mil.)

Em suas normas para o usuário, o Kickstarter diz que assessora potenciais investidores sobre como identificar uma campanha na qual podem confiar. “Os apoiadores devem procurar criadores que compartilhem de um projeto claro sobre como seu plano será concluído e tenham um histórico demonstrando que sabem fazer isso.” Para Brown, seu próprio projeto não merecia muita confiança. “Talvez não seja tão bom assim”, escreveu. No entanto, o dinheiro continuou entrando, graças a mais de 300 mil visitas à página de levantamento coletivo de dinheiro no Facebook e a uma ampla cobertura e discussão da matéria, do site Reddit ao programa Good Morning America. Grande parte do dinheiro foi de pequenas doações de US$ 1 ou US$ 2, mas, segundo a página do projeto de Brown, mais de 80 pessoas doaram mais de US$ 50. Esses doadores de elite, membros de uma categoria que Brown denominou Saladas de Batatas do Mundo, deverão receber todo tipo de recompensas, inclusive uma porção de salada que será entregue em suas casas - o que talvez não venha a se concretizar.

Por que motivo as pessoas doariam dinheiro a um estranho que nem sequer prometeu fazer um prato de salada de batatas? Dependendo do senso de humor da pessoa, a ideia despretensiosa do plano e sua simplicidade é algo muito engraçado. “Ri muito”, escreveu um doador, que deu US$ 2. Outro postou: “Fico feliz quando as pessoas não encaram tudo com a maior seriedade”. O dinheiro não é uma doação para uma realização futura, mas um presente por ter espalhado um pouco de alegria na internet.

Evidentemente, não é essa a intenção do Kickstarter, e até pouco tempo a companhia avaliava as campanhas à procura de projetos rigorosos. Alguns doadores usaram a brincadeira da salada de batatas como uma maneira de criticar a nova sensação de liberdade total da plataforma ou para zombar do tom das campanhas do Kickstarter em geral. À medida que o projeto se tornava mais famoso, e eram levantadas mais objeções por pessoas perplexas com seu sucesso, mais dinheiro entrava. Um usuário sem papas na língua explicou sua motivação: “Estou dando US$ 1 simplesmente por divertimento e pelo surrealismo da coisa. E para desejar um belo ‘danem-se’ aos desprezíveis moralistas por aí afora”.

A campanha ganhou imitadores, entre eles batatas de Idaho para a festa de salada de batatas que Brown prometeu fazer em Ohio e duas campanhas concorrentes para saladas de repolho. Essas receberam pouco apoio, prova de que esse tipo de coisa só funciona uma vez. Mas há outras pessoas que competem por atenção também nos comentários, pedindo ajuda pelo site pessoal de levantamento de doações GoFundMe porque estão sendo despejadas ou precisam de dinheiro para voltar à escola. 

Brown foi ao programa Good Morning America e, com uma seriedade sem graça, a brincadeira do experimento chegou ao fim. No tom de um representante de uma ONG que dá uma conferência, falou de “aproveitar esse momento, essa campanha, esse dinheiro e fazer todo o bem possível com ele”. “Estou me sentindo muito melhor”, comentou George Stephanopoulos, um dos convidados.

Fico feliz que Stephanopoulos se sinta melhor, mas por que, para começar, ele se sentia mal? Um amigo meu que, influenciado pela mulher, doou US$ 1 para a brincadeira me disse que considerava o sucesso viral do projeto o exemplo de alguém que ganhou na loteria da internet. Evidentemente, a sorte repentina de Brown não é justa, na opinião das pessoas sérias que frequentam o Kickstarter. Brown ficou rico, enquanto outros tentam o mesmo sem esperança. Mas fingir que um prêmio é sempre (ou até raramente) proporcional à quantidade de esforço de uma pessoa equivale a não entender como o mundo funciona. Se a salada de batatas leva pessoas a refletir sobre as injustiças do moderno capitalismo americano, talvez estejamos no caminho certo. Mas, por enquanto, vou me unir relutantemente ao coro dos conselheiros de última hora: Brown deve fazer tudo que quiser com seu dinheiro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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