Sandra Mehl/The New York Times
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Aos 100 anos, Pierre Soulages é o terceiro artista vivo a expor no Louvre

Apenas Pablo Picasso e Marc Chagall já tiveram exposições em vida no museu francês

Nina Siegal, The New York Times

07 de dezembro de 2019 | 16h00

SETE, FRANÇA - Para trabalhar, o artista francês Pierre Soulages precisa descer alguns degraus da casa com vista para o Mediterrâneo e chegar ao seu estúdio que fica logo acima de uma piscina de um azul cintilante. Aos 100 anos de idade, esta caminhada ficou um pouco mais difícil. “É por causa do meu joelho”, diz ele enquanto seu assistente lhe dá a mão. Mas Soulages continua a pintar regularmente, embora não todos os dias. O espaço cavernoso é surpreendentemente bem organizado, com telas penduradas nas paredes e as ferramentas arrumadas cuidadosamente. “Não acredito no mito do artista caótico com tinta por todo o lado”, afirma.

Soulages é um homem que prefere a simplicidade na sua busca perene para criar uma obra fundamental, usando o mínimo de cor possível. Há mais de 70 anos ele pinta predominantemente em preto. Desde 1979 tem trabalhado exclusivamente com esta cor, criando uma série de pinturas que chama de “outrenoir” ou “além do preto”. Para as pessoas não familiarizadas com seu trabalho é difícil imaginar centenas de variações de pinturas numa única matiz, mas para ele não há outra cor.

“O preto nunca é o mesmo porque muda com a luz”, disse. “Existem nuanças. Eu pinto em negro, mas trabalho com luz. Na verdade, trabalho com a luz mais do que com a tinta”.

Neste mês de dezembro o Louvre comemora os 100 anos de vida de Soulages com uma exposição, apresentando 20 obras produzidas de 1946 a 2019 pelo pintor. Elas representam uma minúscula fração das cerca de 1.700 telas criadas por ele durante 72 anos e a mostra não pretende ser uma retrospectiva (O Centro Pompidou realizou uma exposição dos trabalhos dele há 10 anos).

Soulages vive com sua mulher, Colette, que tem 98 anos de idade. Eles se casaram em 1942. Eles viviam em Paris e a casa em Sete era sua residência de verão, mas há dois anos decidiram viver ali permanentemente. Colette nasceu em Sete. Há 60 anos, disse ela, o casal hesitava em comprar a propriedade. “Ela se preocupava de que seus amigos pudessem me incomodar”, disse Pierre. Mas o corretor lhes mostrou um chalé dilapidado que eles derrubaram e projetaram uma residência de arquitetura modernista, hoje uma espécie de cápsula do tempo do design da década de 1960. “Tudo o que você vê, salvo as cadeiras, está aqui há 60 anos.”

Deste ponto não é difícil pensar no vasto Mediterrâneo azul como uma fronteira do Soulages Country, um trecho do sul da França onde encontramos centenas de obras suas expostas. A uma hora de sua casa está o Musée Fabre, em Montpellier, onde uma ala inteira do museu é dedicada ao pintor. A duas horas ao norte está o Musée Soulages, em Rodez, que abriga 400 peças suas, a maior coleção de trabalhos dele em um museu. “Pierre e Colette não têm filhos”, explicou Benoît Decron, fundador e diretor do Soulages Museum durante uma visita em outubro. “O museu é o seu filho”.

A coleção em Rodez cobre a carreira inteira de Soulages, desde obras figurativas e notas dos seus anos de adolescente até trabalhos mais recentes, suas pinturas “além do negro”. “Sempre digo que seus trabalhos são 51% luz e 49% preto”, disse Decron. “Você vê diferentes cores em momentos diferentes do dia: vermelhos, azuis, brancos, que mudam constantemente”.

Soulages nasceu em Rodez na véspera de Natal de 1919; seu pai era um construtor de carroças. Quando jovem era fascinado por arqueologia, visitando sempre o museu de história natural, o Musée Fenaille, e sua coleção de monolitos de pedra de cinco mil anos. Os artefatos pré-históricos que ele descobriu, nos seus 16 e 17 anos de idade, durante uma escavação arqueológica, fazem parte da coleção permanente do museu.

Em outubro o museu realizou a exposição Pierre Soulages: Um Museu Imaginário, apresentando 59 obras de arte pré-histórica e rupestre e artefatos antigos de coleções francesas que influíram no trabalho de Soulages, incluindo suas próprias descobertas. A arte pré-histórica foi sua primeira fonte de inspiração. “Sempre me fiz a pergunta: quem era esse grande macaco que um dia pintou nas paredes?”, disse ele.

Embora conhecido como o “pintor do preto” sua obra não é estritamente monocromática. Ele começou a trabalhar com a cor marrom nogueira em papel e nas primeiras décadas da sua carreira usava um fundo em branco ou cinza e sobrepunha várias cores como amarelo mostarda, azul ou ocre. Sobre elas pintava fortes faixas de preto que depois removia. Em 1979 Soulages fez seu primeiro quadro “além do preto”, um trabalho todo em negro. Essas pinturas com textura muito espessa são escovadas, raspadas e gravadas e divididas em manchas e sulcos. Embora sejam reconhecíveis como obra de Soulages, todas são distintas.

Durante a visita ao seu estúdio, em outubro, ele mostrou dois trabalhos que seriam exibidos no Louvre, concluídos em agosto. São longas pinturas verticais todas em preto, com ranhuras horizontais sobre a densa tinta de acrílico, como se tivessem sido trabalhadas com um ancinho. Partes da superfície são lisas, outras rebuscadas.

A textura é obtida com vários recursos que ele inventou, às vezes usando papelão ou outros materiais perecíveis que joga fora imediatamente. Com frequência ele se desfaz de obras que não gosta, queimando-as. Indagado se há algum trabalho pelo qual tem particularmente uma grande estima, o pintor balançou a cabeça e afirmou. “Estou sempre preocupado com pinturas que quero fazer amanhã ou hoje. Para mim é sempre diferente, estou sempre descobrindo novas coisas”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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