Daniel Becerril/Reuters
Daniel Becerril/Reuters

Aos 93 anos, Rubem Fonseca lança novo livro de contos sem alarde

'Carne Crua' foi criticado por repetir a fórmula do autor, mas pode ser visto como síntese de uma fase descompromissada

Mateus Baldi*, Especial para o Estado

22 de dezembro de 2018 | 16h00

Aos 93 anos, Rubem Fonseca retorna com mais um livro de contos, Carne Crua. Em 26 textos curtos, estão de volta os temas estabelecidos ao longo de mais de cinco décadas de carreira: violência, sexo e crítica social. Desde a estreia com Os Prisioneiros, de 1963, Zé Rubem, como é conhecido, tornou-se figura indispensável da literatura brasileira. Seja pelos textos contundentes ou por rejeitar entrevistas, o mineiro instalou-se em lugar privilegiado no panteão dos escritores, chegando a disputar a liderança dos mais vendidos com Jorge Amado. Funcionário da Light e ex-comissário de polícia, Rubem criou contos com personagens antológicos que moldaram gerações ao expor as feridas de uma sociedade cada vez mais corrompida pelas hipocrisias cotidianas. Feliz Ano Novo, de 1975, é citado como referência obrigatória de quase todos os escritores surgidos nas últimas décadas. Por que, então, Carne Crua vem gerando tanta controvérsia?

Publicado sem alarde – talvez em uma tentativa da editora de despistar aqueles que vêm atacando suas últimas obras –, o livro pode ser visto de duas formas: mais do mesmo, um escritor que marcou época se repetindo, ou resumo de uma fase absoluta e justamente descompromissada. Prefiro adotar a segunda opção porque não faz sentido dizer como se fosse grande pecado que alguém, aos cinquenta e tantos anos de carreira, está se repetindo. 

Ao se aposentar, Philip Roth declarou que Nêmesis era seu último livro porque já havia dito tudo. Também citada como referência obrigatória de quase todos os escritores homens, sua obra é marcada por repetições temáticas – sexo, crepúsculo do macho, judaísmo – e, a exemplo de Rubem, Roth ganhou todos os prêmios em seu país de origem, sendo eterno candidato ao Nobel. A saída de cena foi aplaudida. Em 2014, quando venceu seu sexto Jabuti por Amálgama, Rubem Fonseca também foi aplaudido – uma trégua nos ataques da crítica: estava às vésperas de completar noventa anos e ainda demonstrava força.

Vera Figueiredo, professora da PUC-Rio e especialista na obra de Fonseca, observa: “O leitor encontra a mesma maestria na construção do ponto de vista, a mesma aguda ironia, a mesma limpidez de estilo das primeiras publicações, mas a serviço de histórias inusitadas, algumas aparentemente amenas, outras de uma violência estilizada, que, no entanto, no seu conjunto, acabam por compor um retrato profundamente crítico da humanidade”. Flutuando entre política e WhatsApp, Carne Crua passeia pela prosa e se arrisca na poesia. 

Feitiço Brasileiro, um dos melhores textos, conduz o leitor a um terreiro de macumba – a mistura de ceticismo e realidade está no protagonista, um exibicionista que despreza as religiões afro mas acredita em Saci-pererê. Jogando com esse humor despretensioso das pequenas coisas, aliado a uma prosa estranhamente fluida, como se deslizasse por entre os dedos e jamais permitisse ser apanhada, Rubem Fonseca consolida a estética de Carne Crua. Em Nada de Novo (e outros contos), retorna o Seminarista, matador de aluguel do romance homônimo de 2009. A exemplo do advogado Mandrake em Calibre 22, sua trajetória foi sensivelmente alterada – não que no fim das contas faça alguma diferença, a diversão está no constante cinismo arrancando gargalhadas involuntárias a despeito de tramas frágeis. Coisas tão disparares como Papai Noel, samba, anões e a Igreja da Penha orbitam este livro. E apesar da insistente demonstração de descompromisso, parece difícil que certa ala da crítica perceba que ninguém está dizendo se tratar do mesmo Rubem Fonseca de Feliz Ano Novo e O Cobrador

É óbvio que Carne Crua tem defeitos – qual livro não tem? –, mas já são conhecidos & implicados há pelo menos alguns anos. É realmente necessário exigir que, aos 93 anos, um escritor mantenha o caráter inovador de suas obras-primas ad eternum, ou que seja lido como a última novidade do mercado literário? Considerando que cada leitura é diferente da outra, não seria melhor simplesmente reler Feliz Ano Novo e Lúcia McCartney para matar a saudade? O curitibano Dalton Trevisan tem os mesmos 93 anos, escreve contos cada vez mais curtos, quase telegráficos, e ninguém publica críticas à beira de exigir sua aposentadoria. Se em 2018 Rubem Fonseca é o nome a ser superado, isso diz mais sobre o mercado do que sobre o autor em si. Rigor crítico é uma coisa, celeuma desnecessária é outra.

– Por uma série de fatores, como as mudanças ocorridas no contexto histórico e cultural ou na própria dinâmica da vida particular, o escritor, mantendo-se o mesmo, torna-se também diverso – diz Vera Figueiredo. – Assim, pode-se perguntar se devemos cobrar de Machado de Assis, em 1908, ano da publicação de Memorial de Aires, a mesma verve que, em 1881, notabilizou o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rubem Fonseca poderia fazer suas as palavras do narrador do conto Papai Noel: “Posso ser muitos, mas sou sempre o mesmo.”

*Mateus Baldi é escritor e roteirista. Fundador da plataforma literária 'Resenha de Bolso', foi editor de cultura da revista 'Poleiro'

Tudo o que sabemos sobre:
Rubem Fonsecaliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.