Aos donos do Muro, as cebolas

A estupidez da barreira na história do turco que se enfiou entre ocidentais e orientais para cultivar legumes

Nina Mareen Spranz*,

08 de novembro de 2009 | 00h41

Osman Kalin provavelmente foi a única pessoa em Berlim Ocidental que, durante a Guerra Fria, não mandou pacotes para seus vizinhos que padeciam sob o socialismo na República Democrática Alemã (RDA). Pelo contrário: ele recebeu presentes do Estado dos trabalhadores. Quando, por volta do início da década de 80, os guardas orientais de fronteira do Muro de Berlim entregaram a ele um pacote com produtos "Made in GDR", o trabalhador originário da Anatólia (Turquia) que em 1970 migrara para a Alemanha Ocidental ficou atônito. "No Natal, o guarda me trouxe uma garrafa de conhaque e dois quilos de chocolate, um pacote enorme. E no pacote havia também um terno", explica em alemão capenga.

 

LÁ E CÁ - Da casa de Osman os turistas ocidentais podiam ver, olhos nos olhos, os sentinelas orientais

Até aquele momento, seu relacionamento com os guardas não havia sido muito fácil.

Em 1982, Osman começou a sofrer de hérnia de disco e, não podendo mais trabalhar na construção civil, teve de procurar outra fonte de renda. "Ele sempre foi um trabalhador esforçado. Enquanto buscava alguma coisa que o distraísse da dor nas costas, começou a ler o Alcorão. Quando parou, precisou achar uma nova atividade", conta o filho mais velho de Osman, Mehmet, hoje com 45 anos. E Osman encontrou algo novo: um terreno minúsculo, escondido debaixo de pneus velhos, geladeiras e outras sucatas aparentemente sem dono. Arregaçou as mangas, limpou a área e começou a cultivar frutas e verduras. O fato de sua horta ficar bem ao longo da barreira anticapitalista não o incomodava absolutamente. "Este pedaço de terra é ótimo para plantar fantásticas cebolas espanholas, alho, tomates, alface, damascos, cerejas, e muitas outras frutas que eu vendia no mercado. Bons negócios", lembra Osman. Ele não se preocupou nem por um instante em saber de quem era a terra que estava ocupando e nem por vender legumes cultivados numa área que legalmente pertencia à Alemanha Oriental num mercado da Alemanha Ocidental.

 

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Quando o Muro foi construído, em 1961, a RDA gastou uma fortuna para erguer a "barreira protetora" de 45,1 quilômetros de extensão, em Berlim. Em alguns pontos, a estrada corria de tal forma em ziguezague que um traçado reto ao longo da fronteira seria caro demais para os socialistas, notoriamente em dificuldades financeiras. Em suma, a horta de Kalin pertencia legalmente ao Estado operário-camponês, mas na realidade o pequeno triângulo de terra havia sido poupado pelo Muro e ficara do lado Ocidental. Ninguém se sentia responsável por ele: as autoridades de Berlim Ocidental não protestavam contra a ocupação ilegal de Osman - afinal, não era problema delas. E os guardas do lado oriental? Atrás do muro, não tinham direitos de execução, mas observavam desconfiados o projeto: será que aquele homem estava construindo um túnel para possíveis fugas?

Um dia, uma delegação de guardas de fronteira apareceu de repente na horta de Osman e começou a berrar com ele. Teria de parar o que quer que estivesse fazendo. Mas ele não estava disposto a ceder tão facilmente e disse aos homens de uniforme: "Sou Osman, um neto de otomanos, e o que estou fazendo é montar uma horta anatólia". Quem conta a história hoje é Mehmet, que ainda se impressiona com a coragem do pai. "Guardas de uniforme estavam ali na nossa horta e meu pai os xingava com palavrões em turco." Mas no final, os soldados cederam e deram a Osman o direito de plantar legumes, desde que não usasse o Muro para escorar videiras e que a cabana que ele construíra no terreno não se transformasse numa casa de vários andares. Algumas semanas mais tarde, Osman recebeu até a confirmação oficial do Comitê Central da Alemanha Oriental de que a RDA lhe concedia o direito de uso. E, finalmente, naquele Natal, o guarda de fronteira uniformizado que ele chamara de filho de um burro, deu-lhe um pacotão de presente.

Mas a briga não acabou ali. Depois de sete anos e várias colheitas de legumes turco-orientais-ocidentais, mais uma vez Osman se viu ameaçado de perder o terreninho do qual vinha cuidando. Situada anteriormente na extremidade da Alemanha Ocidental, agora a pequena horta ficava bem no meio da cidade novamente unida - e tornara-se uma localização fantástica para algum tubarão da construção. Felizmente para Osman, a briga acirrada sobre a localização da horta, entre os bairros de Mitte e Kreuzberg, foi ganha por Kreuzberg, mais tolerante. A administração garantiu a ele e a sua família direito ilimitado de residência. "A Alemanha tem sido boa para mim há mais de 40 anos", diz Osman. E ele também tem sido bom para Kreuzberg.

A pequena horta e a casa de troncos já haviam se tornado atração turística durante a Guerra Fria. Era um "posto de observação" que permitia aos turistas ocidentais olhar atrás do muro, nos olhos dos sentinelas orientais. Hoje, nas noites quentes de verão, Mehmet abre a casa para os estrangeiros e vende bebidas no ponto histórico da cidade. Aos 84 anos e com a saúde um tanto abalada, Osman não enfrenta mais a dificuldade de viver na casa de madeira sem eletricidade e água corrente. Um dia, um dos seus 18 netos herdará a propriedade que ele jamais adquiriu, mas ocupou com sucesso. "Esta será sempre para mim a lembrança de meu pai, a história de um filho da Anatólia que defendeu seus legumes contra as reivindicações orientais e ocidentais e nunca foi punido por isso", diz Mehmet.

*Jornalista alemã

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