Dana Scruggs/The New York Times
Dana Scruggs/The New York Times

Apenas 6% das trilhas de cinema em 2018 foram compostas por mulheres

Compositoras ainda lutam para se firmar em mercado dominado por homens

Tim Greiving, The New York Times

19 Janeiro 2019 | 16h00

Compositores foram contratados para dois próximos blockbusters sobre mulheres guerreiras – Mulher Maravilha 1984, de Patty Jenkins, e Mulan, dirigido por Nicki Caro com um roteiro produzido por três mulheres. Esses compositores são Hans Zimmer e Harry Gregson-Williams. 

Mais do que uma oportunidade perdida de emprestar às heroínas uma voz musical feminina, esse é um dos mais recentes exemplos de mulheres sendo dolorosamente esquecidas na música para o cinema. Um estudo realizado em 2018 pela Universidade da Califórnia do Sul revelou que dos 100 filmes de ficção com maior sucesso de bilheteria entre 2007 e 2017, somente 16 compositoras foram contratadas diante de mais de 1.200 homens.

Segundo outro estudo, do Center for the Study of Women in Television and Film, dos 250 filmes lançados em 2018, a trilha sonora em 94% deles foi composta por homens. “Os números são desanimadores, mas o panorama não”, disse Laura Karpman, veterana compositora de música para filmes (Paris Pode Esperar) e membro da Board of Governors da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas. “As pessoas estão avançando de uma maneira como nunca vi em toda a minha carreira”.

Tamar-Kali é uma das várias novas vozes num meio masculino e persistentemente branco. Mudbound, dirigido por Dee Rees, foi a primeira trilha da artista de Nova York, tendo feito a trilha depois para o drama da Netflix Come Sunday. Tamar está se reunindo de novo com Rees para uma adaptação do romance de Joan Didion, The Last Thing He Wanted. Como mulher afro-indígena no ambiente do punk de Nova York, ela já estava habituada a ser “uma figura atípica no meio de figuras atípicas”. “Isso alimentou sua criatividade”, disse Rees. 

Como outras artistas mulheres, Tamar-Kali não tinha por meta compor música para cinema, mas recebeu a encomenda quando a diretora tomou conhecimento do seu trabalho. Mica Levi, roqueira britânica da banda Micachu and the Shapes, foi indicada ao Oscar por Jackie, e depois compôs inquietante trilha do filme Sob a Pele. 

A compositora e celista islandesa Hildur Gudnadottir foi contratada para Sicário e o próximo Coringa, estrelado por Joaquin Phoenix – dois filmes de grande orçamento e do estilo “machão” – por causa do seu trabalho solo de música eletrônica experimental.

“As pessoas me procuram para um tipo específico de som, ou sensação”, disse ela. “Eles não batem à minha porta em busca de uma música do tipo, por exemplo, da de John Williams. O que me coloca numa boa posição porque me permite ser eu mesma.”

Coringa vai contra a tendência de filmes de super-herói cuja trilha é feita por compositores homens, como é o caso do próximo Capitã Marvel, estrelado por Brie Larson. Pinar Toprak, músico turco que compôs a música para Danny Elfman, de Liga da Justiça, no ano passado, é a primeira mulher a compor para um filme da Marvel.

Uma das poucas mulheres a compor uma trilha para um filme de grande estúdio em 2018 foi Germaine Franco, com a comédia Tag (Te Peguei). Depois de auxiliar John Powell, já indicado ao Oscar, durante anos, a compositora mexicano-americana chamou atenção ao emprestar a Coco muito da sua personalidade pessoal – ela orquestrou a trilha de Michael Giacchino e compôs várias das suas músicas, embora não tenha sido convidada para compor a trilha. Atualmente Germaine trabalha na comédia Little, de Tina Gordon Chism, estrelado por Marsai Martin, da série Black-ish.

Tudo isso levanta a pergunta: por que muitas trilhas de filmes – mesmo aqueles focados em mulheres como o novo Ghostbusters (Os Caça-fantasmas) e Oito Mulheres e Um Segredo – ainda são compostas por homens?

Passado

A história de mulheres compondo para o cinema não é longa. A pioneira foi Germaine Tailleferre, compositora francesa de 1926. Trinta anos depois, a americana Bebe Barron criou um som eletrônico de vanguarda para Planeta Proibido, com seu marido Louis Barron.

O seminal álbum de sintetizador do transexual Wendy Carlos Switched-On-Bach levou à sua colaboração com Stanley Kubrick em Laranja Mecânica e O Iluminado

Angela Morley, também transexual (seu nome de batismo era Wally Sottt) foi uma compositora indicada ao Oscar cujos créditos incluem o filme animado de 1978, Watership Down (Uma Grande Aventura) e as séries de televisão Dinastia e Dallas. Shirley Walker era pianista e auxiliou Carmine Coppola a compor a trilha de Apocalipse Now. Walker, que morreu em 2006, também compôs trilhas para Batman: The Animated Series, e Final Destination (Premonição), além do filme de horror de 2003 A Vingança de Willard. Mas ela jamais conseguiu aparecer em filmes cuja trilha ela estava ajudando homens a compor.

“Não acho que ela participava das reuniões em que os homens estavam”, disse Lolita Ritmanis, compositoras que foi aluna de Walter. “Não diria que ficava ressentida. Foi uma lutadora até o fim”, completou.

Prêmios

A primeira mulher a conquistar um Oscar foi Rachel Portman, por Emma, em 1996. A outra a ser premiada foi Anne Dudley por The Full Monty (Ou Tudo ou Nada) no ano seguinte.

A indústria cinematográfica “tende a ser muito cautelosa”, disse Portman, acrescentando que os diretores se sentem mais tranquilos com compositores que já produziram sons similares antes – o que torna difícil entrar no setor. 

“E esta sensação de segurança quando trabalham com uma pessoa que já foi contratada para outros filmes anteriormente dificulta a entrada de mulheres.”

Portman diz que trabalhou somente com dois diretores abertamente machistas e falou do desafio de ter à frente um cineasta que já pressupõe que ela não é capaz de compor músicas para cenas de ação ou algo que não seja tipicamente feminina. “E eu digo, está brincando? Vou provar que sou capaz.”

Iniciativas

Vários workshops, incluindo o Sundance Institute Film Music Program, que conseguiu alcançar uma paridade de gênero nos últimos dois anos, e o Ascap Film Scoring Workshop – tentam oferecer a mais mulheres uma experiência prática e acesso ao setor.

A Universal Pictures lançou sua Film Music Composer Initiative para encontrar mulheres e pessoas de cor talentosas. Os candidatos aceitos estão compondo partituras para orquestra e realizando sessões de gravação em Abbey Road, para curtas criados pela DreamWorks Animation.

Nora Kroll-Rosembaum compôs a música para o primeiro curta do programa, Bird Karma. Ela elogiou a iniciativa, dizendo que “essa porta estava bem fechada para muita gente”. E há novos recursos de apoio.

A Alliance for Women Film Composers foi criada em 2014, hoje conta com 400 membros e tem propiciado uma maior visibilidade das mulheres por meio de concertos e outros trabalhos. “É uma irmandade, um recurso”, disse Ritmanis, presidente da aliança. 

“Acho que devido à consciência global dos direitos das mulheres e os movimentos #MeToo e Time’s Up existe hoje um interesse e uma chamada à ação por parte dos estúdios e dirigentes. As pessoas me telefonam para encontros e debater o que podemos fazer e agora existem mais oportunidades para as mulheres participarem dos testes de escolha de compositores para grandes produções”.

“É assim que deve ser, diante do talento delas”, opinou Doreen Ringer-Ross, executiva da divisão de música de cinema da Broadcast Music Incorporated, organização que administra os catálogos de muitos compositores de Hollywood. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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