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Apenas Jeb

Irmão de George Bush sai candidato a presidente escondendo o sobrenome e o cofre ideológico

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2015 | 16h00

Ah, a vantagem das expectativas reduzidas. O lançamento da terceira candidatura de um Bush a presidente foi um sucesso, se levarmos em contra os meses que precederam o anúncio do ex-governador da Flórida, no auditório de uma faculdade em Miami, na segunda-feira. Jeb Bush não cometeu nenhuma gafe séria, como quando disse que continuava a favor da guerra de seu irmão no Iraque, apesar do que se sabe hoje. Parecia mais animado, em contraste com o orador letárgico que outrora disputava atenção com um grupo de candidatos tão numeroso que seus membros terão de disputar vaga nos debates políticos da TV. Mandou ver no espanhol que, ele garante, domina as conversas em casa com a mulher Columba, uma mexicana. E o discurso foi rico em evocações biográficas, curto em promessas para serem quebradas.

Há apenas o problema de uma promessa específica, a de criar 19 milhões de empregos e fazer o país crescer 4% ao ano. Até economistas simpáticos ao Partido Republicano coçaram a cabeça. Os Estados Unidos cresceram uma média de 2,8% ao ano nas últimas quatro décadas. Questionado sobre o cálculo da promessa, Bush respondeu: “É um bom número redondo.”

Apesar do sobrenome, aos 62 anos, John Ellis “Jeb” Bush precisa se reapresentar aos americanos, por ter se afastado da vida pública em 2007, quando encerrou dois mandatos consecutivos no governo da Flórida desfrutando de 60% de aprovação. Ele volta à cena numa realidade de polarização em que Ronald Reagan seria considerado esquerdista dentro do Partido Republicano. Sua compaixão previsível pelo drama de 11 milhões de imigrantes sem documentos, a maioria latinos como sua mulher, contribuiu para a ideia de que Bush não passa pelo teste da ortodoxia conservadora. 

É uma fama que surpreende quem observou sua atuação na Flórida. Jeb era mais programático do que o irmão George em causas conservadoras, como reduzir radicalmente o tamanho do governo, privatizar a educação, cortar impostos.

No lançamento da campanha, Jeb repetiu a história de amor à primeira vista com Columba Garnica de Gallo, que conheceu numa viagem de intercâmbio ao México quando tinha 17 anos e um ainda não falava a língua do outro. Mas a fluência no espanhol veio, de fato, quando Bush trabalhou para um banco do Texas na Venezuela logo depois de se formar. Muito se falou sobre a rivalidade com o irmão mais velho, George, que se elegeu governador do Texas em 1994, quando Jeb foi derrotado em sua primeira campanha para governador da Flórida. Mas não há grande evidência de ressentimento pela ascensão do irmão à presidência em 2000.

No discurso de segunda-feira, o candidato cujo logo não menciona o sobrenome, apenas “Jeb!”, lembrou ser filho e irmão de presidentes, mas concluiu que “Neste nosso país, as coisas mais improváveis podem acontecer”, sobre as chances de se eleger. Inverteu a lógica, já que nada há de improvável em um membro de uma dinastia política seguir os passos da família e obter vasto financiamento para sua campanha. 

Um episódio que ganhou projeção internacional agora volta para rondar Jeb Bush. Em 2003, Michael Schiavo obteve na justiça o direito de desligar os tubos que mantinham sua mulher Terri em estado vegetativo por 15 anos. Ela foi transferida para um lar de doentes terminais para ter morte natural. Jeb passou às pressas uma lei estadual que derrubava a decisão da justiça. Uma ambulância escoltada pela polícia arrancou Terri da guarda do marido e a levou de volta para os tubos no hospital. Um tribunal aceitou um recurso, o caso foi parar na Suprema Corte, que acabou por selar a vitória a Michael Schiavo. Quando Terri morreu, em 2005, sua autópsia revelou uma expressiva atrofia cerebral. Michael Schiavo afirmou recentemente que Jeb Bush transformou a vida de sua família num inferno.

Amigos descrevem Jeb como um geek. Poucos discordam que ele é mais bem informado do que o irmão George, famoso por se dirigir aos formandos de sua escola em Yale assim: “Aos que tiram nota C, vocês também podem se eleger presidente”.

Na quarta-feira, o candidato que há 20 anos se converteu ao catolicismo, a religião de Columba, reagiu à encíclica do papa Francisco sobre o clima dizendo que a religião deve servir para melhorar indivíduos e não se envolver com política. Mas em 2009 ele afirmou que achava que o político eleito deve trancar sua fé num cofre. Jeb mal começou a revelar o que tem no seu cofre ideológico para 2016. Nos cartazes de campanha, poderia trocar a exclamação por uma interrogação.

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